Gaiola Dourada — 2013 ↗

Gai­o­la Dou­ra­da’ (‘La cage dorée’), de Ruben Alves, retra­ta a his­tó­ria de Maria (Rita Blan­co) e José (Joa­quim de Almei­da), um casal por­tu­guês, uma por­tei­ra e um faz-tudo, que há 30 anos emi­grou para Paris em bus­ca de uma vida melhor do pon­to de vis­ta labo­ral e soci­al. Comum a esta bio­gra­fia encon­trar-se-ão uma série de por­tu­gue­ses, que ten­ta­ram pro­cu­rar um tra­ba­lho assa­la­ri­a­do está­vel, aca­ban­do por cons­truir a sua vida nes­sa Fran­ça mul­ti­cul­tu­ral. Maria e José serão, então, uma cari­ca­tu­ra de todos esses casais que nos anos 1970 esca­pa­ram da fúria revo­lu­ci­o­ná­ria, de um país sem­pre à bei­ra do pre­ci­pí­cio, ten­do den­tro de si o espí­ri­to dos egré­gi­os avós, mas filhos assu­mi­da­men­te fran­ce­ses e repug­nan­do toda uma cul­tu­ra da qual se enver­go­nham, no caso Pau­la e Pedro. A pri­mei­ra, noi­va de um fran­cês de gema, o segun­do um ado­les­cen­te que se ten­ta inte­grar no ensi­no secun­dá­rio, onde ser filho de por­tu­guês é moti­vo de crí­ti­ca.

Tudo se alte­ra aquan­do da recep­ção de uma noti­fi­ca­ção suces­só­ria: o irmão de José fale­ce­ra e este pode­rá rece­ber uma avul­ta­da heran­ça, sob a con­di­ção de regres­sar para Por­tu­gal a títu­lo defi­ni­ti­vo. Este é o mote do enre­do: a dia­léc­ti­ca cul­tu­ral este­re­o­ti­pa­da entre Por­tu­gal e Fran­ça.

Aquan­do do iní­cio da publi­ci­da­de de ‘Gai­o­la Dou­ra­da’ com o seu trai­ler, uma coi­sa seria cer­ta: tra­tar-se-ia de uma fil­me sobre cha­vões e luga­res-comuns. O gol­pe de suces­so esta­va tam­bém anun­ci­a­do, pois a sua estreia fora mar­ca­da para iní­cio de Agos­to, altu­ra em que Por­tu­gal rece­be de bra­ços aber­tos os seus emi­gran­tes que facil­men­te se iden­ti­fi­cam com tal obra, rin­do-se de si pró­pri­os sem saber.

Este fil­me dá-nos a opor­tu­ni­da­de de olhar a comu­ni­da­de de emi­gran­tes de um pon­to de vis­ta mui­to espe­ci­al, que é o deles mes­mos. Porém, aqui­lo que pen­sa­mos que é um fil­me sobre luga­res-comum tor­na-se, em si mes­mo, um lugar-comum. Lamen­ta­vel­men­te não con­se­gue ser aqui­lo que pre­ten­de, não che­ga a ser uma abor­da­gem sobre a comu­ni­da­de emi­gran­te, não che­ga a ser uma comé­dia ori­gi­nal, não é um fil­me tipi­ca­men­te por­tu­guês, nem fran­cês. Arris­co dizer que é um fil­me de linhas ame­ri­ca­nas ‘à comé­dia român­ti­ca’ sobre por­tu­gue­ses a faze­rem-se pas­sar por fran­ce­ses. Cla­ro que se des­ta­ca­rá sem­pre o papel de Rita Blan­co, que nos leva a crer que o fil­me ain­da vale­rá o sacri­fí­cio de assis­tir aos res­tan­tes acto­res ter­ri­vel­men­te mal diri­gi­dos. A ban­da sono­ra tam­bém se des­ta­ca pela posi­ti­va, do iní­cio até ao seu final enfa­do­nho.

Exis­tem uma série de obras cine­ma­to­grá­fi­cas que abor­dam luga­res-comuns, mas sem caí­rem no ridí­cu­lo de se tor­na­rem num. Os retra­tos soci­ais, sejam eles séri­os (vide ‘This Is England’, de Sha­ne Mea­dows, ou mes­mo ‘Kids’ de Lar­ry Clark) ou com uma cono­ta­ção mais cómi­ca e assu­mi­da­men­te comer­ci­al (‘Almost Famous’ de Came­ron Crow), são difí­ceis de abor­dar. Mas have­rá sem­pre espa­ço para fil­mes de verão sobre emi­gran­tes como estes, que farão coin­ci­dir com os out­do­ors das ins­ti­tui­ções ban­cá­ri­as, tam­bém eles a rece­ber o dinhei­ro des­ses nos­sos fieis heróis do mar, com pala­dar a baca­lhau e sau­da­de des­ta nação valen­te.

O que fran­ca­men­te se deve reco­nhe­cer des­te fil­me é que tem leva­do por­tu­gue­ses a ver cine­ma por­tu­guês, inde­pen­den­te­men­te da qua­li­da­de dis­cu­tí­vel do mes­mo. E isso é admi­rá­vel.

J.R.P.

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