Outros Olhares

Centro de Estudos Cinematográficos
Na sua céle­bre obra A Repú­bli­ca, Pla­tão des­cre­ve-nos uma caver­na onde seres huma­nos se encon­tram agri­lho­a­dos, não ten­do nun­ca viven­ci­a­do nada além des­se espa­ço con­cre­to. Nes­sa mes­ma caver­na encon­tra-se uma foguei­ra que pro­jec­ta som­bras da rea­li­da­de exte­ri­or. Assim, ten­do ape­nas tido con­tac­to com essas som­bras, os seres que se encon­tram na caver­na aca­bam por ter como garan­ti­do que estas sejam a pró­pria rea­li­da­de. Pode­mos afir­mar que esta des­cri­ção que o filó­so­fo gre­go faz na sua Ale­go­ria da Caver­na é seme­lhan­te àque­la que o públi­co fran­cês em 1895 sen­tiu quan­do os irmãos Lumiè­re fize­ram a sua pri­mei­ra exi­bi­ção do cine­ma­tó­gra­fo com a obra L’Arrivée d’un train en gare de La Cio­tat. Quan­do um com­boio fil­ma­do se apro­xi­mou das mar­gens do enqua­dra­men­to da câma­ra, o públi­co gri­tou cri­an­do uma como­ção: todos sen­ti­ram que iri­am ser atro­pe­la­dos. Não há então uma dis­tin­ção entre o que é a rea­li­da­de con­cre­ta e a repre­sen­ta­ção des­ta mes­ma rea­li­da­de. A par­tir daqui a ilu­são do cine­ma, e a cri­a­ção de uma supos­ta rea­li­da­de, é per­se­gui­da cons­tan­te­men­te, sen­do impul­si­o­na­da pelas ino­va­ções de cine­as­tas como o ame­ri­ca­no Grif­fith, o rus­so Eisens­tein ou mais tar­de com a intro­du­ção de téc­ni­cas de pro­cu­ra do natu­ra­lis­mo na repre­sen­ta­ção, como é o Méto­do de Sta­nis­lavsky.

Com o tem­po sur­gi­ram tam­bém movi­men­tos, géne­ros e esti­los cine­ma­to­grá­fi­cos que rom­pe­ram com esta ideia da pro­cu­ra do natu­ra­lis­mo e de uma rea­li­da­de ilu­só­ria do cine­ma. Pode­mos men­ci­o­nar como exem­plo o desen­vol­vi­men­to do ciné­ma veri­té e a sua pro­cu­ra de retra­tar a ver­da­de tal como ela é, sem qual­quer tipo de mani­pu­la­ção, um cine­ma livre de ence­na­ção. É de obser­var as cons­tan­tes que­bras da quar­ta pare­de, o fac­to de o rea­li­za­dor entrar no fil­me, não como Orson Wel­les ou Kea­ton fari­am no pas­sa­do repre­sen­tan­do uma per­so­na­gem, mas sim tal como é, ou o cap­tar dos meca­nis­mos do cine­ma (câma­ras, luzes, o staff etc), eli­mi­nan­do a trans­pa­rên­cia do cine­ma: o públi­co é dis­tan­ci­a­do da obra que assis­te, não crê ver a rea­li­da­de mas sim a repre­sen­ta­ção da rea­li­da­de. De igual modo, é impor­tan­te refe­ren­ci­ar o sur­gi­men­to do cine­ma expe­ri­men­tal com a sua pro­cu­ra da abs­trac­ção de uma rea­li­da­de con­cre­ta.

Nes­ta edi­ção do Fes­ti­val Cami­nhos do Cine­ma Por­tu­guês intro­du­zi­mos uma outra sec­ção: “Outros Olha­res”. Nes­ta cri­te­ri­o­sa selec­ção pro­cu­ra­re­mos obser­var obras sig­ni­fi­ca­ti­vas da pro­du­ção naci­o­nal nos parâ­me­tros do docu­men­tal e do expe­ri­men­tal, per­mi­tin­do assim, como a pró­pria nomen­cla­tu­ra indi­ca, que o públi­co encon­tre outros e novos olha­res que actu­al­men­te enca­ram o cine­ma e a rea­li­da­de.

Con­vi­da­mos todos a expe­ri­men­tar o Cine­ma sob a égi­de de um outro olhar.

Sai­ba mais na seguin­te liga­ção: Outros Olha­res.