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Uma Guitarra Mágica

O CEC abre hoje uma nova rubri­ca nas suas crí­ti­cas cine­ma­to­grá­fi­ca. Com o intui­to de rea­tar os laços dos actu­ais com os anti­gos sóci­os acti­vos, vamos sema­nal­men­te publi­car as crí­ti­cas publi­ca­das ao lon­go dos mais de 65 anos de acti­vi­da­de inin­ter­rup­ta. A abrir esta rubri­ca publi­ca­mos a crí­ti­ca do sócio Bru­no Dias, do fil­me “Uma Gui­tar­ra Mági­ca” de Woddy Allen, inse­ri­do no núme­ro 27 da Revis­ta Apo­ka­lip­se (2001).

Uma Guitarra Mágica, 1999

Há fil­mes que pare­cem ter sido fei­tos para nos mos­trar uma sequên­cia, um pla­no, um ros­to. “Swe­et and Low­down”, o últi­mo fil­me de Woody Allen estre­a­do em Por­tu­gal é um des­ses fil­mes. Todo o fil­me, todas as acções vão desa­guar na sequên­cia em que Emmet (Sean Penn) par­te a sua gui­tar­ra con­tra uma arvo­re. Um acto de deses­pe­ro de alguém que aca­ba de tomar cons­ci­ên­cia que na vida cer­tos momen­tos não se repe­tem.

Antes de ana­li­sar essa sequên­cia, come­ço no entan­to pelo prin­ci­pio. O fil­me ini­cia-se com os depoi­men­tos de vári­as pes­so­as, entre elas o pró­prio Woody Allen, acer­ca de um dos gui­tar­ris­ta mais pro­di­gi­o­sos que a Amé­ri­ca conhe­ceu. O pro­ble­ma está no fac­to de a mai­or par­te do que se sabe dele serem ape­nas his­tó­ri­as não con­fir­ma­das, espe­ci­al­men­te nos anos ini­ci­ais. Esses pri­mei­ros depoi­men­tos aca­bam com a refe­rên­cia à pri­mei­ra his­tó­ria que se conhe­ce sobre Emmet. Nes­sa his­tó­ria ficam logo evi­den­tes o seu talen­to e os prin­ci­pais tra­ços de per­so­na­li­da­de: irres­pon­sá­vel e ego­cên­tri­co. O fil­me cobre o perío­do que vai des­de esse epi­só­dio até ao seu apo­geu artís­ti­co, pois nada se sabe sobre ele pos­te­ri­or­men­te.

Emmet inti­tu­la-se como o segun­do melhor gui­tar­ris­ta do mun­do depois do ciga­no fran­cês Djan­go. Ao lon­go de toda a sua vida ele vai ali­men­tar uma vene­ra­ção por esse homem ao pon­to de des­mai­ar sem­pre que o vê. O que se conhe­ce sobre ele baseia-se nas rela­ções que man­te­ve com duas mulhe­res: Hat­tie (Samantha Mor­ton) e Blan­che (Uma Thur­man). Duas mulhe­res não pode­ri­am ser mais dife­ren­tes. O que uma tem de humil­da­de, a outra tem de extra­va­gân­cia. Se a últi­ma tudo ques­ti­o­na a pri­mei­ra nada diz… até por­que é muda. Emmet conhe­ce Hat­tie num dia onde ele e um dos ele­men­tos da sua ban­da se dedi­cam a arran­jar uma namo­ra­da. Quan­do eles veem  Hat­tie e a sua ami­ga não se enten­dem em quem fica com quem. Como resol­ver esse pro­ble­ma? Fácil. Ati­ra-se uma moe­da ao ar e está resol­vi­do! Quan­do Emmet des­co­bre que Hat­tie é muda fica incré­du­lo. Mal sabe ele a impor­tân­cia que ela irá ter na sua per­so­na­li­da­de, vida e na sua arte.

A rela­ção que se esta­be­le­ce entre Emmet e Hat­tie é base­a­da no domí­nio dele e na pas­si­vi­da­de dela. Emmet des­co­bre o car­ro dos seus sonhos mas o seu empre­sá­rio con­si­de­ra-o dema­si­a­do caro. Res­pos­ta de Emmet: Hat­tie pode dei­xar de comer sobre­me­sa. Pou­co depois de se conhe­ce­rem Hat­tie e Emmet tem sexo. A ânsia dela é tan­ta que facil­men­te se adi­vi­nha que aque­la está a ser a sua pri­mei­ra vez. Isto aju­da-nos a per­ce­ber o modo como ela se entre­ga a Emmet. A sua pai­xão e ino­cên­cia  é mag­ni­fi­ca­men­te expres­sa no ar de satis­fa­ção com que ela tro­ca um pneu. Isto enquan­to o namo­ra­do des­can­sa na rel­va e sar­cas­ti­ca­men­te lhe lem­bra ter dito que a via­gem não iria ser um pas­seio. A rela­ção idí­li­ca deles aca­ba abrup­ta­men­te com a fuga dele a meio da noi­te.


Blan­che é a mulher que se segue. A dife­ren­ça entre esta e a ante­ri­or come­ça logo por ser ela quem vai ter com ele. Ela é uma escri­to­ra que per­se­gue uma boa his­tó­ria. Emmet con­ta-lhe que a sua ante­ri­or namo­ra­da não era sufi­ci­en­te para ele. Pou­co tem­po depois Emmet deci­de repen­ti­na­men­te casar com ela. Esta nova rela­ção é tem­pes­ti­va. Blan­che tem uma per­so­na­li­da­de mui­to for­te e idei­as pre­ci­sas acer­ca do que quer. Blan­che inte­res­sa-se por tudo aqui­lo que sai da nor­ma­li­da­de. É por isso que ela se sen­te curi­o­sa pela geni­a­li­da­de de Emmet. Porem quan­do ela conhe­ce Al Tor­rio (Anthony LaPa­glia), um homem liga­do  à máfia que lhe fala da mor­te e do assas­si­na­to como algo de natu­ral. Blan­che fica ime­di­a­ta­men­te inte­res­sa­da nele. Ao notar isso ele avan­ça. Blan­che come­ça assim uma rela­ção dupla. Um ami­go de Emmet avi­sa-o des­se caso, ele recu­sa acei­tar esse fac­to pois não quer por em cau­sa a sua mas­cu­li­ni­da­de. Só que a duvi­da fica e ele come­ça a per­se­guir a sua mulher. Quan­do a mulher vai ao cine­ma, ele segue-a. No cine­ma ela encon­tra-se com o aman­te. Enquan­to estes  estão a ver o fil­me, ele entra no car­ro e vai para o ban­co tra­sei­ro. Depois do fil­me os aman­tes vão dar uma vol­ta. Duran­te esse pas­seio Emmet tem tem­po de ouvir a mulher dizer que ele não é o melhor aman­te pois está sem­pre a pen­sar na músi­ca. Quan­do eles param numa bom­ba de gaso­li­na ini­cia-se um dos melho­res momen­to do fil­me. Acer­ca des­se epi­só­dio da vida de Emmet exis­tem vári­as ver­sões. Woody Allen fil­ma cada uma delas. O que é fas­ci­nan­te é que em cada uma delas exis­tem sem­pre os mes­mos acon­te­ci­men­tos, mas com uma ordem dife­ren­te. É assim que temos tiros, aci­den­tes de car­ro… e como se cons­tro­em os boa­tos a par­tir de algu­ma ver­da­de. Bri­lhan­te!

Depois des­se inci­den­te Emmet aban­do­na a sua mulher. Na sua soli­dão deci­de vol­tar a ver Hat­tie. Come­ça por lhe dizer que não se impor­ta­va que ela vies­se com ele numa digres­são a New York. Só que ela escre­ve-lhe num papel algo que lhe des­trói os sonhos. Ela tem filhos.

Emmet des­pe­de-se dela e con­ti­nua a sua vida. Ou seja con­ti­nua a tocar gui­tar­ra, ter namo­ra­das  a quem fazia ques­tão de levar a ver com­boi­os e dis­pa­rar con­tra rata­za­nas numa lixei­ra.

É exac­ta­men­te com uma des­sas mulhe­res que ele está a ver um com­boio pas­sar. Ela não per­ce­be a pia­da daqui­lo e está sem­pre a pedir para se ir embo­ra. Isso desen­ca­deia nele uma reac­ção de rejei­ção. Ele man­da-a embo­ra e é então que ele vai par­tir a sua gui­tar­ra na árvo­re.

Por­que? É nes­sa altu­ra que Emmet rea­li­za que dei­xou ir embo­ra a mulher da sua vida. Aque­la que o com­pre­en­dia. Per­deu tudo isso devi­do ao seu nar­ci­sis­mo. Emmet come­ça a cho­rar agar­ra­do a essa árvo­re. Já não há nada a fazer. A não ser dedi­car-se à sua pai­xão: a gui­tar­ra.

Woody Allen comen­ta que o melhor da sua obra é fei­to nes­sa altu­ra e feliz­men­te foi gra­va­do. Foi ao ouvir essas gra­va­ções que ele se tor­nou fã incon­di­ci­o­nal de Emmet. É com elas que final­men­te Emmet atin­ge o nível de Djan­go. Blan­che dizia-lhe sem­pre que se ele dei­xas­se os seus sen­ti­men­tos ins­pi­ra­rem a sua músi­ca ela seria ain­da melhor. Ele no entan­to evi­ta­va fazê-lo. Emmet con­si­de­ra­va que só a sua músi­ca era impor­tan­te, tudo o res­to era infe­ri­or tal como ele dizia às mulhe­res, inclu­si­ve estas. É Hat­tie que vem alte­rar a sua posi­ção. É ela que vai abrir o seu cora­ção. É ela a res­pon­sá­vel pela matu­ri­da­de que Emmet adqui­re e lhe per­mi­te rea­li­zar o melhor da sua obra.

CAMILLE CLAUDEL 1915: Esculpindo uma loucura biográfica

 

Quem conhe­ce a trá­gi­ca bio­gra­fia da escul­to­ra Camil­le Clau­del, pen­sa que vai para a sala assis­tir a um géne­ro de rema­ke do fil­me de 1988 de Bru­no Nuyt­ten. Desen­ga­ne-se o espec­ta­dor, pois o que irá assis­tir é um mer­gu­lho pro­fun­do em Camil­le Clau­del per se e não naque­la bio­gra­fia de cor­del que retra­ta tra­gi­ca­men­te os últi­mos anos da artis­ta no asi­lo psi­quiá­tri­co. O úni­co pon­to em comum é aque­le que o títu­lo nos reve­la: tra­ta-se de Camil­le Clau­del e o ano é o de 1915.

O que o rea­li­za­dor Bru­no Dumont nos quer mos­trar, não é bem aque­la pon­de­ra­ção teo­lo­gal ou espi­ri­tu­al que nos tem habi­tu­a­do nos seus últi­mos tra­ba­lhos, nem tam­pou­co um exis­ten­ci­a­lis­mo qua­se divi­no como em ‘Hors Satan’ (2011).

Dumont é ter­ra-a-ter­ra em ‘Camil­le Clau­del 1915’, mos­tran­do-nos algo total­men­te huma­no: a rela­ção da artis­ta com o seu irmão; a visi­ta des­te ao hos­pí­cio onde aque­la este­ve inter­na­da até aos fins dos seus dias; e aque­le sen­ti­men­to de revol­ta na men­te artís­ti­ca, ali­e­na­da e ao mes­mo tem­po lúci­da de Clau­del. A sani­da­de é encon­tra­da aquan­do da per­cep­ção do que a rode­a­va: todos os inter­na­dos pade­ci­am de algum trans­tor­no ou defi­ci­ên­cia men­tal pro­fun­da.

 

Clau­del tinha uma men­te com­ple­xa e negra, não é por aca­so que algu­mas das suas pri­mei­ras escul­tu­ras foram esque­le­tos! Pre­co­ce na sua capa­ci­da­de artís­ti­ca, o pai que a colo­cou cedo nos melho­res ban­cos das Belas Artes, foi o mes­mo que asse­gu­rou as melho­res e mais for­tes amar­ras nas camas dos hos­pí­ci­os do sul de Fran­ça.

Des­co­nhe­ce-se tam­bém o moti­vo que terá leva­do a artis­ta àque­le esta­do pro­fun­do de lou­cu­ra, mui­tos dizem que terá sido o seu envol­vi­men­to fugaz com Rodin. Seja como for, sou daque­les que acre­di­ta que den­tro de Clau­del exis­tia uma pers­pi­cui­da­de e luci­dez imen­sas, uma von­ta­de de se sal­var de um mun­do que bro­ta­va moder­nis­mo. Dumont con­se­guiu trans­pa­re­cer isso tudo nes­te fil­me, mas não sozi­nho. Curi­o­sa­men­te, Juli­et­te Bino­che bri­lhou. Digo curi­o­sa­men­te, por­que Bino­che tem desi­lu­di­do com alguns dos seus últi­mos tra­ba­lhos. Sen­do uma actriz mul­ti­fa­ce­ta­da, nes­te fil­me, jun­ta­men­te com Dumont, mos­trou-nos real­men­te Camil­le Clau­del. Reve­lou-nos a ansia, o medo do mun­do (o medo cons­tan­te de ser enve­ne­na­da) e, prin­ci­pal­men­te, o medo dela mes­ma. Bino­che faz-nos crer que a artis­ta vivia num géne­ro de sín­dro­me de loc­ked in cons­tan­te. Bem melhor que Isa­bel­le Adja­ni em 1988!

Dumont mos­tra-nos matu­ri­da­de em ‘Camil­le Clau­del 1915’ mas, aci­ma de tudo, mos­tra-nos a artis­ta de for­ma inten­sa e em pou­cos dias da sua vida. Sem som­bras de dúvi­da, uma obra ímpar que vale a pena apre­ci­ar, mes­mo para aque­les que des­co­nhe­cem a vida e obra da artis­ta. Se esse é o seu caso, que este seja o mote para des­co­brir a aman­te som­bria de Rodin. Digo isto, pois ape­sar de tudo, era assim que ela devia ser relem­bra­da.

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JRP

The BLING RING — 2013

Sofia Cop­po­la tem-nos reve­la­do, ao lon­go dos anos, for­mas dife­ren­tes de ver o cine­ma. Cri­ou um géne­ro mui­to pró­prio, habi­tu­an­do assim um nicho de ciné­fi­los a um cer­to tipo de lin­gua­gem ora artís­ti­ca, ora con­tro­ver­sa. Do ines­que­cí­vel e ina­ba­lá­vel ‘Vir­gens Sui­ci­das’ (1999), ao dos seus últi­mos ‘Marie Antoi­net­te’ (2006), pare­ce que nos tes­ta a nós, espec­ta­do­res, ao mes­mo tem­po que ensaia os seus limi­tes de rea­li­za­do­ra.

Bling Ring’ apre­sen­ta-nos um novo mode­lo para Cop­po­la: abor­da uma rea­li­da­de juve­nil incon­for­ma­da em Los Ange­les, que cumu­la prá­ti­cas de cri­mes de peque­na ou média gra­vi­da­de (fur­tos a casa de cele­bri­da­des). O moti­vo é aque­le que une a mai­o­ria dos jovens de todo o mun­do, que é a ten­ta­ti­va da inte­gra­ção. O mun­do em que se ten­tam inte­grar é dis­tin­to, mas a ver­da­de é que o moti­vo e toda moral se encon­tra lá com toda a pre­ci­são: bullying, dro­gas, más­ca­ras soci­ais e até o face­bo­ok. Cop­po­la pare­ce que agar­ra o pri­mei­ro tema que lhe apa­re­ceu à mão e o fil­mou sem hesi­tar, pare­cen­do – do pon­to de vis­ta de um apre­ci­a­dor da rea­li­za­do­ra – que ela de algu­ma for­ma se iden­ti­fi­ca com esta rea­li­da­de de ten­tar ser aqui­lo que não é. Inte­gran­do-se for­ço­sa­men­te no mun­do da fama, do poder, do dinhei­ro.

Um fil­me base­a­do num arti­go de uma revis­ta cor-de-rosa, mos­tra-nos então o dia-a-dia des­tes jovens lará­pi­os, que têm uma vida de sonho do pon­to de vis­ta soci­al. Sofia Cop­po­la ras­ga-nos um sor­ri­so iró­ni­co, por vezes, à base edu­ca­ci­o­nal des­tes jovens, que ape­sar de toda esta vida luxu­o­sa, têm uma base edu­ca­ci­o­nal ver­go­nho­sa (ora na escu­ma das esco­las de LA, ora ten­do ensi­no em casa sob a égi­de do livro ‘O Segre­do’, tão em voga hoje em dia).


Deve-se aler­tar, porém, que este não é um típi­co fil­me-crí­ti­ca. Este não é, de todo, um fil­me difí­cil. É um fil­me que se vê de bra­ços cru­za­dos com uma faci­li­da­de incó­mo­da, tal qual o desem­ba­ra­ço dos pro­ta­go­nis­tas em entrar nas casas dos ditos famo­sos (Paris Hil­ton, Orlan­do Blo­om, Lind­say Lohan, etc): uti­li­zan­do o Goo­gle como arma de assal­to, bus­can­do mora­das e encon­tran­do por­tas aber­tas pelos pró­pri­os pro­pri­e­tá­ri­os. É por­tan­to um fil­me sem qual­quer tipo de acção, sem sus­pen­se, sem men­sa­gem escon­di­da: tem um iní­cio pre­ci­so, um meio con­ci­so e um final sucin­ta­men­te espe­ra­do pelo espec­ta­dor. Não é Sofia Cop­po­la! Sofia não é esta rea­li­za­do­ra que mis­tu­ra hiphop, dis­co­te­cas noc­tur­nas, ado­les­cen­tes abor­re­ci­dos, Paris Hil­ton e sal­tos altos com cal­ças aper­ta­das! Esta não é uma crí­ti­ca escon­di­da a Hollywo­od como em ‘Somewhe­re’ (2010), em que o nos­so com­ple­xo pro­ta­go­nis­ta Johny Mar­co sofre de uma cri­se exis­ten­ci­al. Em ‘Bling Ring’ não cor­re­mos em bus­ca de ban­da sono­ra como em ‘Vir­gens Sui­ci­das’ (lem­brar o eter­no ‘Play­ground Love’ de Air). O sumo do últi­mo fil­me de Cop­po­la é uma moral juve­nil como mui­tos outros, não tra­zen­do nada de novo e sen­do um pou­co decep­ci­o­nan­te para quem, como eu, gos­ta da rea­li­za­do­ra.

Tal­vez o nome do fil­me ‘Bling Ring’, seja o som do bada­lo para cha­mar Sofia Cop­po­la de vol­ta para o cami­nho da rea­li­za­ção.

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J.R.P.

Gaiola Dourada — 2013 ↗

Gai­o­la Dou­ra­da’ (‘La cage dorée’), de Ruben Alves, retra­ta a his­tó­ria de Maria (Rita Blan­co) e José (Joa­quim de Almei­da), um casal por­tu­guês, uma por­tei­ra e um faz-tudo, que há 30 anos emi­grou para Paris em bus­ca de uma vida melhor do pon­to de vis­ta labo­ral e soci­al. Comum a esta bio­gra­fia encon­trar-se-ão uma série de por­tu­gue­ses, que ten­ta­ram pro­cu­rar um tra­ba­lho assa­la­ri­a­do está­vel, aca­ban­do por cons­truir a sua vida nes­sa Fran­ça mul­ti­cul­tu­ral. Maria e José serão, então, uma cari­ca­tu­ra de todos esses casais que nos anos 1970 esca­pa­ram da fúria revo­lu­ci­o­ná­ria, de um país sem­pre à bei­ra do pre­ci­pí­cio, ten­do den­tro de si o espí­ri­to dos egré­gi­os avós, mas filhos assu­mi­da­men­te fran­ce­ses e repug­nan­do toda uma cul­tu­ra da qual se enver­go­nham, no caso Pau­la e Pedro. A pri­mei­ra, noi­va de um fran­cês de gema, o segun­do um ado­les­cen­te que se ten­ta inte­grar no ensi­no secun­dá­rio, onde ser filho de por­tu­guês é moti­vo de crí­ti­ca.

Tudo se alte­ra aquan­do da recep­ção de uma noti­fi­ca­ção suces­só­ria: o irmão de José fale­ce­ra e este pode­rá rece­ber uma avul­ta­da heran­ça, sob a con­di­ção de regres­sar para Por­tu­gal a títu­lo defi­ni­ti­vo. Este é o mote do enre­do: a dia­léc­ti­ca cul­tu­ral este­re­o­ti­pa­da entre Por­tu­gal e Fran­ça.

Aquan­do do iní­cio da publi­ci­da­de de ‘Gai­o­la Dou­ra­da’ com o seu trai­ler, uma coi­sa seria cer­ta: tra­tar-se-ia de uma fil­me sobre cha­vões e luga­res-comuns. O gol­pe de suces­so esta­va tam­bém anun­ci­a­do, pois a sua estreia fora mar­ca­da para iní­cio de Agos­to, altu­ra em que Por­tu­gal rece­be de bra­ços aber­tos os seus emi­gran­tes que facil­men­te se iden­ti­fi­cam com tal obra, rin­do-se de si pró­pri­os sem saber.

Este fil­me dá-nos a opor­tu­ni­da­de de olhar a comu­ni­da­de de emi­gran­tes de um pon­to de vis­ta mui­to espe­ci­al, que é o deles mes­mos. Porém, aqui­lo que pen­sa­mos que é um fil­me sobre luga­res-comum tor­na-se, em si mes­mo, um lugar-comum. Lamen­ta­vel­men­te não con­se­gue ser aqui­lo que pre­ten­de, não che­ga a ser uma abor­da­gem sobre a comu­ni­da­de emi­gran­te, não che­ga a ser uma comé­dia ori­gi­nal, não é um fil­me tipi­ca­men­te por­tu­guês, nem fran­cês. Arris­co dizer que é um fil­me de linhas ame­ri­ca­nas ‘à comé­dia român­ti­ca’ sobre por­tu­gue­ses a faze­rem-se pas­sar por fran­ce­ses. Cla­ro que se des­ta­ca­rá sem­pre o papel de Rita Blan­co, que nos leva a crer que o fil­me ain­da vale­rá o sacri­fí­cio de assis­tir aos res­tan­tes acto­res ter­ri­vel­men­te mal diri­gi­dos. A ban­da sono­ra tam­bém se des­ta­ca pela posi­ti­va, do iní­cio até ao seu final enfa­do­nho.

Exis­tem uma série de obras cine­ma­to­grá­fi­cas que abor­dam luga­res-comuns, mas sem caí­rem no ridí­cu­lo de se tor­na­rem num. Os retra­tos soci­ais, sejam eles séri­os (vide ‘This Is England’, de Sha­ne Mea­dows, ou mes­mo ‘Kids’ de Lar­ry Clark) ou com uma cono­ta­ção mais cómi­ca e assu­mi­da­men­te comer­ci­al (‘Almost Famous’ de Came­ron Crow), são difí­ceis de abor­dar. Mas have­rá sem­pre espa­ço para fil­mes de verão sobre emi­gran­tes como estes, que farão coin­ci­dir com os out­do­ors das ins­ti­tui­ções ban­cá­ri­as, tam­bém eles a rece­ber o dinhei­ro des­ses nos­sos fieis heróis do mar, com pala­dar a baca­lhau e sau­da­de des­ta nação valen­te.

O que fran­ca­men­te se deve reco­nhe­cer des­te fil­me é que tem leva­do por­tu­gue­ses a ver cine­ma por­tu­guês, inde­pen­den­te­men­te da qua­li­da­de dis­cu­tí­vel do mes­mo. E isso é admi­rá­vel.

J.R.P.

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Brothers — Entre Irmãos — 2009

Tommy, Gra­ce, Sam. Brothers apre­sen­ta-nos três per­so­na­gens de uma tra­di­ci­o­nal famí­lia ame­ri­ca­na de for­tes con­tras­tes. Sam (Jake Gyl­le­nhall) é um mili­tar lou­va­do que está pres­tes a par­tir para o Afe­ga­nis­tão. Gra­ce (Nata­lie Port­man) é a espo­sa de Sam, com as suas duas filhas, Isa­bel­le e Gra­ce, vê par­tir o seu mari­do para uma mis­são mili­tar, ao pas­so que nos é apre­sen­ta­do Tommy (Tobey Magui­re, nome­a­do para um glo­bo de ouro). Tommy é o irmão de Sam aca­ba­do de sair em liber­da­de con­di­ci­o­nal, sol­tei­rão e irres­pon­sá­vel. É uma famí­lia de con­tras­tes, mol­da­da pela guer­ra do Viet­nam, onde o pai de ambos lutou pelos inte­res­ses ame­ri­ca­nos, com as reper­cus­sões clás­si­cas dos trau­mas de guer­ra des­car­re­ga­dos em ambi­en­te fami­li­ar desen­vol­ven­do-se as dife­ren­ças que exis­tem entre Sam e Tommy. Este é o mote de Brothers, os lados e os con­tras­tes de cada famí­lia e a capa­ci­da­de de nos des­cons­truir­mos e renas­cer­mos.

Intro­du­zin­do um pou­co nar­ra­ti­va des­te fil­me, Sam par­te para o Afe­ga­nis­tão em mis­são mili­tar pou­co após o regres­so de Tommy à soci­e­da­de. Tommy é vis­to como um boé­mio que nada lhe inte­res­sa, até que suce­de uma tra­gé­dia que afec­ta toda a famí­lia, a que­da do heli­cóp­te­ro de Sam, onde todos os “mari­nes” são dados como mor­tos. Toda a famí­lia sofre com a per­ca de Sam, mas esta é a dei­xa de Tommy para res­sus­ci­tar e se mos­trar como ele­men­to cen­tral e reu­ni­fi­ca­dor de uma famí­lia des­tro­ça­da por tama­nha efe­mé­ri­de. Tommy aju­da a sua cunha­da, a supe­rar as difi­cul­da­des em casa, remo­de­lan­do a cozi­nha e simul­ta­ne­a­men­te apro­xi­man­do-se de Gra­ce, até ao momen­to que se bei­jam. Tommy pas­sa a ser o ele­men­to que intro­duz ale­gria e vida à nar­ra­ti­va nes­ta altu­ra, ao con­trá­rio do que suce­dia no ini­cio des­ta lon­ga-metra­gem ain­da que não seja a expres­si­vi­da­de des­te que muda, mas sim todas as reac­ções das per­so­na­gens peran­te ele. Sam por outro lado, é nova­men­te intro­du­zi­do como um pri­si­o­nei­ro de guer­ra jun­ta­men­te com o seu con­ter­râ­neo Joe Wil­lis (Patrick Flu­e­ger) onde sofrem as repre­sá­li­as de um gru­po tali­bã até que Sam é for­ça­do a trair o seu país e a si mes­mo. As cenas no Afe­ga­nis­tão con­tem uma for­te car­ga dra­má­ti­ca mui­to pre­sen­te na foto­gra­fia do fil­me, tor­nan­do-o den­so, tal e qual o espí­ri­to da per­so­na­gem. Esta trai­ção leva Sam a cons­tan­te­men­te pro­cu­rar a trai­ção em todos os ele­men­tos da sua famí­lia, que em ciú­mes do seu irmão, não supor­ta toda a dinâ­mi­ca que ele con­se­guiu cri­ar numa famí­lia onde ele já não se encon­tra inse­ri­do psi­co­lo­gi­ca­men­te.

Nata­lie Port­man e Jake Gyl­le­nhall em Brothers (2009)

Do pon­to de vis­ta téc­ni­co, Jim She­ri­dan apre­sen­ta-nos um rema­ke de Brø­dre (Susa­ne Bier, 2004), um fil­me dina­marquês, um fil­me sobre os trau­mas psi­co­ló­gi­cos e as con­sequên­ci­as que os con­fli­tos mili­ta­res têm sobre os sol­da­dos e suas famí­li­as. Não con­se­guin­do supe­rar a cri­a­ti­vi­da­de do fil­me ori­gi­nal, tam­bém não se apre­sen­ta como um mau rema­ke, sen­do notó­ria a sen­si­bi­li­da­de visu­al ao lon­go do fil­me. A foto­gra­fia de Fre­de­rick Elmes é con­gru­en­te com os esta­dos de espí­ri­to das per­so­na­gens, sen­do tra­ba­lha­da ao deta­lhe. Exem­plos dis­so são as cenas em que a rela­ção de Tommy e Gra­ce é fru­tu­o­sa, esta­be­le­cen­do-se uma ima­gem vibran­te e sua­ve e tam­bém as cenas no Afe­ga­nis­tão, em que o deta­lhe de uma ima­gem áspe­ra, pou­co satu­ra­da nos rele­ga para a fri­e­za do con­fli­to arma­do e dos ins­tin­tos bási­cos do ser huma­no enquan­to ani­mal. A exce­len­te ban­da sono­ra de Tho­mas New­man esta­be­le­ce um exce­len­te para­le­lo com o visu­al ao lon­go des­ta nar­ra­ti­va, acom­pa­nhan­do todo o dra­ma­tis­mo exis­ten­te de for­ma con­gru­en­te, colo­can­do a tri­lha com­pos­ta com a cola­bo­ra­ção de Bono (Win­ter), como a cere­ja em cima de um bolo. Toda a soma dos actos de Sam após o seu regres­so aca­ba num gran­de ecran pre­to musi­ca­do, dei­xan­do o espec­ta­dor reflec­tir sobre a obra cine­ma­to­grá­fi­ca.

7.6/10