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Estive em Lisboa e Lembrei de Você um Filme de José Barahona

Sér­gio, um modes­to fun­ci­o­ná­rio da Com­pa­nhia Indus­tri­al de Cata­gua­ses, Minas Gerais (Bra­sil), sofre uma revi­ra­vol­ta na sua vida: a sua mulher enlou­que­ce, ele per­de o empre­go e a cus­tó­dia do filho.
Deci­de emi­grar para Lis­boa, a con­se­lho dos ami­gos, em bus­ca de opor­tu­ni­da­des de tra­ba­lho para recom­por a sua vida. Ao che­gar, Sér­gio é con­fron­ta­do com a dura rea­li­da­de da imi­gra­ção; o dia-a-dia e o con­tras­te cul­tu­ral vão reve­lar um lugar dife­ren­te daque­le com que sonha­ra.
Este fil­me cujo argu­men­to foi adap­ta­do do roman­ce homó­ni­mo do pre­mi­a­do escri­tor bra­si­lei­ro Luiz Ruf­fa­to será exi­bi­do no dia 26 de Outu­bro às 22:00. A entra­da no Mini-Audi­tó­rio Sal­ga­do Zenha é livre. 

Introdução Histórica

Sér­gio de Sou­za Sam­paio (Pau­lo Aze­ve­do) nas­ceu em Minas Gerais, quan­do, por for­ça das cir­cuns­tân­ci­as, se vê sem empre­go, sem a mulher e sem o filho, resol­ve dar uma vol­ta à sua vida e emi­grar para Por­tu­gal. É assim que che­ga a Lis­boa, em bus­ca de opor­tu­ni­da­des de tra­ba­lho e cheio de espe­ran­ça numa vida melhor. Mas o que ele vai encon­trar é algo mui­to dife­ren­te do ide­a­li­za­do: os empre­gos escas­sei­am e as pou­cas vagas que sobram são mal remu­ne­ra­das. Lon­ge da famí­lia e do país que o viu nas­cer, vai ter de enfren­tar a soli­dão, o des­pre­zo e a estra­nhe­za de um povo mui­to dife­ren­te do seu.

Co-pro­du­ção entre Bra­sil e Por­tu­gal, “Esti­ve em Lis­boa e Lem­brei de Você” é a adap­ta­ção cine­ma­to­grá­fi­ca do roman­ce homó­ni­mo de Luiz Ruf­fa­to. A rea­li­za­ção e argu­men­to fica a car­go de José Baraho­na (“Bue­nos Aires Hora Zero”, “O Manus­cri­to Per­di­do”), cine­as­ta por­tu­guês radi­ca­do no Bra­sil.

SOBRE O REALIZADOR

Nas­ceu em Lis­boa em 1969 e resi­de atu­al­men­te no Rio de Janei­ro, Bra­sil. José Baraho­na rea­li­zou diver­sos docu­men­tá­ri­os e cur­tas-metra­gens des­de 1995, altu­ra em que se for­mou em Lis­boa na Esco­la Supe­ri­or de Tea­tro e Cine­ma, ten­do con­cre­ti­za­do os seus estu­dos em Cuba e em Nova Ior­que. Como rea­li­za­dor o seu tra­ba­lho tran­si­ta num ter­ri­tó­rio híbri­do em que docu­men­tá­rio e fic­ção se mis­tu­ram: os seus docu­men­tá­ri­os têm, mui­tas vezes, dis­po­si­ti­vos fic­ci­o­nais, e as suas fic­ções uma rela­ção mui­to estrei­ta com o docu­men­tal. Nes­se sen­ti­do des­ta­cam-se o docu­men­tá­rio lon­ga-metra­gem O Manus­cri­to Per­di­do (2010), ven­ce­dor, entre outros, do Pré­mio TV Bra­sil de Melhor Lon­ga-metra­gem na 15ª Mos­tra Inter­na­ci­o­nal do Fil­me Etno­grá­fi­co (RJ). Foi publi­ca­do um livro sobre o fil­me com a chan­ce­la Selo Tor­de­si­lhas, com pre­fá­cio de Nel­son Perei­ra dos San­tos e o docu­men­tá­rio Milho (Pré­mio Cine­E­co
em Movi­men­to, Cine­E­co, Seia, Por­tu­gal, 2009). Rea­li­zou tam­bém a cur­ta-metra­gem
Pas­to­ral (2004), con­quis­tan­do os pré­mi­os de Melhor Cur­ta-Metra­gem no Cami­nhos do Cine­ma Por­tu­guês (Coim­bra, 2005) e a Men­ção Hon­ro­sa no Fan­tas­por­to (Por­to, 2005).
Esti­ve em Lis­boa e Lem­brei de Você é a sua pri­mei­ra lon­ga-metra­gem de fic­ção.

ENTREVISTA A JOSÉ BARAHONA

Foi após a lei­tu­ra do livro de Luiz Rufat­to que deci­dis­te fazer o fil­me Esti­ve em Lis­boa e Lem­brei de Você? O que mais te cati­vou e ins­pi­rou no livro?


Hou­ve vári­os aspe­tos que me cati­va­ram assim que li o livro. Pri­mei­ro o fac­to de o livro ser apre­sen­ta­do, na intro­du­ção, como um depoi­men­to dado por Sér­gio de Sou­za Sam­paio, o pro­ta­go­nis­ta, ao autor em Lis­boa e de o livro ser dedi­ca­do a um ami­go de Ruf­fa­to que lhe apre­sen­tou o Sér­gi­nho. Depois des­sa nota intro­du­tó­ria, o que se segue é uma supos­ta trans­cri­ção da entre­vis­ta dada por Sér­gio na
pri­mei­ra pes­soa. Isso dá ao rela­to um “selo” de vero­si­mi­lhan­ça. Mas … tra­ta-se de um roman­ce. Sér­gio
é uma pes­soa real? Não sei. Não impor­ta. Ele é um per­so­na­gem de um livro. Ora em cine­ma isso seria,
se fizés­se­mos uma trans­po­si­ção lite­ral, aqui­lo que cha­ma­mos de “fal­so docu­men­tá­rio”. Pode­ría­mos ima­gi­nar uma entre­vis­ta fei­ta por alguém, num pla­no clás­si­co de depoi­men­to de docu­men­tá­rio em
que um ator repre­sen­ta­ria esse rela­to. Ima­gi­nei ime­di­a­ta­men­te que esse rela­to seria entre­cor­ta­do com a recons­ti­tui­ção fic­ci­o­nal de algu­mas das cenas do livro cri­an­do assim um híbri­do entre o “fal­so docu­men­tá­rio” e a fic­ção. Tal­vez até mes­mo encon­trar alguém em Cata­gua­ses, cida­de natal de Sér­gi­nho, que qui­ses­se vir para Lis­boa e usar a sua vin­da, suas moti­va­ções e sonhos como ânco­ra do fil­me. Isso não veio a acon­te­cer pois a cri­se esta­va à por­ta em 2010/11, e o que acon­te­cia era que os bra­si­lei­ros que esta­vam em Lis­boa come­ça­vam a pen­sar no seu regres­so.

Depois o fac­to de eu, e mui­tos por­tu­gue­ses, sem­pre con­vi­ver­mos com pes­so­as com his­tó­ri­as de vida seme­lhan­tes: a imi­gra­ção de pes­so­as menos qua­li­fi­ca­das que tra­ba­lham em Lis­boa e nou­tras cida­des de Por­tu­gal em res­tau­ran­tes, bares, cafés, na cons­tru­ção civil, etc. Mas eu tinha mui­ta curi­o­si­da­de de saber como era a vida deles antes de che­ga­rem a Lis­boa. Dis­so eu pou­co sabia. Se por um lado hou­ve mui­tos bra­si­lei­ros que vie­ram para Lis­boa já com tra­ba­lho asse­gu­ra­do como publi­ci­tá­ri­os, arqui­te­tos ou outras pro­fis­sões, inclu­si­ve no audi­o­vi­su­al, estas pes­so­as mais humil­des sonha­vam com um Por­tu­gal e uma Lis­boa onde pode­ri­am cons­truir uma vida melhor. Isso intri­ga­va-me des­de há mui­to. Foi pre­ci­so come­çar a tra­ba­lhar no Bra­sil e a conhe­cer mais de per­to a sua rea­li­da­de para per­ce­ber que a misé­ria no Bra­sil é mui­to mais pro­fun­da e desu­ma­na que em Por­tu­gal. Quan­do esta­mos em Por­tu­gal temos ten­dên­cia a pen­sar que as coi­sas estão mui­to mal, que a vida é mui­to difí­cil eco­no­mi­ca­men­te, que é o pior país do mun­do. Não é. Mes­mo com a cri­se em Por­tu­gal, e mes­mo com todos os pro­gres­sos alcan­ça­dos pelas polí­ti­cas soci­ais dos últi­mos gover­nos no Bra­sil, infe­liz­men­te a misé­ria no Bra­sil é infi­ni­ta­men­te supe­ri­or à exis­ten­te em Por­tu­gal. O grau de pobre­za, de escra­vi­dão, de fome e de explo­ra­ção do homem pelo homem, as desi­gual­da­des e o abis­mo soci­al entre ricos e pobres é mui­to mai­or!
E final­men­te eu quis fazer des­te livro um fil­me por­que ele é de cer­ta for­ma um espe­lho de mim pró­prio. Dadas todas as dis­tân­ci­as que refe­ri ante­ri­or­men­te, eu esta­va nes­se momen­to a che­gar ao Bra­sil

como imi­gran­te por cau­sa da cri­se por­tu­gue­sa e por cau­sa da para­li­sia total na pro­du­ção de cine­ma que se deu nes­sa épo­ca. Essa des­lo­ca­ção, o estar fora do meu lugar é algo com que me iden­ti­fi­ca­va.
Eu pode­ria des­co­brir o pas­sa­do do pro­ta­go­nis­ta no Bra­sil, e retra­tar o estra­nha­men­to dele na cida­de onde vivi qua­se toda a minha vida.

Dizes que ao che­gar a Lis­boa a per­so­na­gem se deba­teu com uma rea­li­da­de dife­ren­te daque­la que sonha­ra. Com que Lis­boa sonha­va ele?

Não sei bem… não sei bem com o que sonha­mos quan­do par­ti­mos do nos­so lugar para um lugar que não o nos­so. Há um mito de Lis­boa, “a mag­ní­fi­ca” no ima­gi­ná­rio bra­si­lei­ro. O lugar onde tudo come­çou, as ori­gens, a arqui­te­tu­ra dos velhos pré­di­os lis­bo­e­tas que se pare­ce com as cida­des colo­ni­ais no Bra­sil. A Euro­pa, em geral, como um lugar mais tran­qui­lo, paci­fi­co. Para os indí­ge­nas o come­ço do fim.
O que che­ga ao Bra­sil não é a deca­dên­cia soci­al, eco­nó­mi­ca e polí­ti­ca que está a acon­te­cer em Por­tu­gal. Isso é uma coi­sa que acon­te­ce mui­to. O “quin­tal do vizi­nho é sem­pre melhor que o meu”. É pre­ci­so
viver num deter­mi­na­do lugar para per­ce­ber­mos os pro­ble­mas que aí exis­tem. Mas para os bra­si­lei­ros e por­tu­gue­ses, em geral, acho que exis­te a sen­sa­ção que, por cau­sa da lín­gua e das rela­ções his­tó­ri­cas,
será mais fácil encon­trar o nos­so lugar ao fazer essa tro­ca de país. Os bra­si­lei­ros, por terem sem­pre rece­bi­do e até sido inva­di­dos pelos por­tu­gue­ses, por terem graus de paren­tes­co fami­li­ar (qua­se todos
os bra­si­lei­ros têm algu­ma ascen­dên­cia por­tu­gue­sa pró­xi­ma), pen­sam que serão bem rece­bi­dos em Por­tu­gal. De algu­ma for­ma Por­tu­gal para os bra­si­lei­ros é um lugar onde tam­bém podem per­ten­cer. O que mui­tas vezes não é tão sim­ples assim. Além dis­so quan­do se vai para fora do nos­so país per­de­mos as nos­sas refe­rên­ci­as. E falo no plu­ral, por mim, pelo Sér­gio e pelos mui­tos imi­gran­tes que encon­trei e
entre­vis­tei na pes­qui­sa para este e outros fil­mes. Os ami­gos, a famí­lia e a cul­tu­ra ficam para trás. Não é fácil… Nun­ca é mui­to fácil. E há toda uma série de pro­ble­mas que podem acon­te­cer… No fun­do todos pro­cu­ra­mos uma vida melhor. Poder tra­ba­lhar e sus­ten­tar as nos­sas famí­li­as. Esse é o pon­to cen­tral daqui­lo que se pro­cu­ra, um sonho de uma vida melhor, num novo lugar onde se pos­sa per­ten­cer.

Pro­cu­ras­te pes­so­as que tinham his­tó­ri­as seme­lhan­tes às des­cri­tas no livro. Como foi essa pes­qui­sa?
Na ver­da­de eu fiz o cami­nho inver­so que o Luiz Ruf­fa­to fez. Ele deve ter encon­tra­do essas pes­so­as e trans­for­mou-as em per­so­na­gens do seu livro. Ou jun­tou his­tó­ri­as e cons­truiu as per­so­na­gens a par­tir
de vári­as pes­so­as com vidas seme­lhan­tes. Eu pro­cu­rei pes­so­as que tives­sem his­tó­ri­as de vida pare­ci­das com as que Ruf­fa­to des­cre­ve e trans­for­mei-as em per­so­na­gens do fil­me. Na ver­da­de, eu não que­ria que isso fos­se notó­rio no fil­me, mas isso vem um pou­co da minha expe­ri­ên­cia no docu­men­tá­rio.
A úni­ca dife­ren­ça é que em cena, mui­tas vezes, essas pes­so­as que repre­sen­tam elas pró­pri­as em vez de falar para mim, fora do qua­dro, falam para o Sér­gio. Por isso tam­bém ele é um espe­lho de mim
pró­prio. Por vezes, eu fica­va com o lugar do Pau­lo Aze­ve­do, o actor que inter­pre­ta o Sér­gio, e fica­va per­to dele e per­gun­ta­va coi­sas, ou segre­da­va ao seu ouvi­do as per­gun­tas que ele pode­ria fazer. Enfim,
o fil­me é mui­to híbri­do por­que mis­tu­ra mui­tas téc­ni­cas do docu­men­tá­rio e da fic­ção, ence­nan­do o docu­men­tá­rio como sem­pre fiz nos meus outros fil­mes. Não é mui­to impor­tan­te o pro­ces­so. Impor­ta que o resul­ta­do final é um tra­ba­lho con­jun­to para o qual todos con­tri­buí­ram. Não tem nada a ver com uma apro­xi­ma­ção à rea­li­da­de. A rea­li­da­de de um fil­me é o fil­me quan­do é vis­to.


Come­ças­te a tua pro­cu­ra em Cata­gua­ses, no entan­to não encon­tras­te nin­guém que tives­se par­ti­do.
Qual foi o pas­so seguin­te?

Encon­trar o ator per­fei­to para encar­nar o Sér­gio: o Pau­lo Aze­ve­do.

No iní­cio pen­sas­te em fazer um docu­men­tá­rio sobre o livro. O que te levou a mudar de ideia?


No iní­cio, pen­sei que iria usar mais a lin­gua­gem do que habi­tu­al­men­te cha­ma­mos docu­men­tá­rio. No entan­to, fui aban­do­nan­do a ideia a meio do pro­ces­so. Mas ape­nas apa­ren­te­men­te, como dis­se antes.
O fil­me pare­ce fic­ção, mas tem mui­to de docu­men­tal. Há um momen­to em que os fil­mes se liber­tam dos seus auto­res. Pelo menos, isso acon­te­ce comi­go e acon­te­ceu-me nes­te fil­me. O fil­me toma vida pró­pria, como se pedis­se para ser fei­to de uma deter­mi­na­da manei­ra, com uma deter­mi­na­da lin­gua­gem que já não somos nós que con­tro­la­mos. Ape­nas vamos atrás do fil­me e do que e
deman­da. Não sei expli­car… é como se cri­as­se a sua pró­pria dinâ­mi­ca da qual já não se pode esca­par. Isso é bom, por­que sig­ni­fi­ca que estás a tra­ba­lhar em algo con­sis­ten­te, algo que tomou um rumo mui­to deter­mi­na­do no qual as esco­lhas do rea­li­za­dor são de for­ma a seguir um rumo tra­ça­do. É o fil­me, são as ima­gens e os sons que ao serem mani­pu­la­dos na fil­ma­gem e na mon­ta­gem tomam for­ma que para o meu olhar só pode­ria ser aque­la.

Tra­ta-se de uma his­tó­ria bas­tan­te atu­al. A ida dos pobres para a Euro­pa. Que para­le­lis­mo fazes com a recen­te ques­tão dos refu­gi­a­dos?


Os refu­gi­a­dos, mais do que uma vida melhor, pro­cu­ram a sobre­vi­vên­cia. É um caso ain­da mais extre­mo. Uma guer­ra é algo sem expli­ca­ção e jus­ti­fi­ca­ção. No entan­to, sei ago­ra que mui­tas pes­so­as no Bra­sil vivem em luga­res de “qua­se-guer­ra”, que é o que acon­te­ce nas fave­las con­tro­la­das pelo trá­fi­co no Rio de Janei­ro, por exem­plo. Quan­do o trá­fi­co proí­be as pes­so­as de sair de casa num deter­mi­na­do dia, quan­do as pes­so­as não vão tra­ba­lhar num outro dia por cau­sa dos tiro­tei­os entre as vári­as fações rivais, isso é viver debai­xo de uma guer­ra. Conhe­ço pes­so­as que vivem essa situ­a­ção.
Então pode não ser tão dife­ren­te assim. E nós devía­mos ter essa cons­ci­ên­cia ao rece­ber os bra­si­lei­ros em Por­tu­gal. Todos os paí­ses deve­ri­am estar de bra­ços aber­tos uns para os outros em situ­a­ções de catás­tro­fe como a que se pas­sa ago­ra na Síria e com a che­ga­da de milha­res de pes­so­as à Euro­pa São ver­go­nho­sas as bar­rei­ras que se cri­am! Mas é uma rea­li­da­de. O que exis­te em comum é que, ao che­ga­rem e ao serem aco­lhi­dos (o que nem sem­pre acon­te­ce), eles vão pas­sar pelas mes­mas difi­cul­da­des que todos os outros imi­gran­tes pas­sam. Estes movi­men­tos de pes­so­as entre paí­ses (o Bra­sil rece­beu mui­tos por­tu­gue­ses por cau­sa da cri­se em Por­tu­gal) devem ensi­nar-nos algo que já deve­ría­mos ter apren­di­do, mas que mui­tas pes­so­as pare­cem ain­da não saber: que o mun­do é um só lugar, e que os homens tra­çam linhas ima­gi­ná­ri­as a que cha­mam fron­tei­ras. Deve­mos apren­der a ser tole­ran­tes, a rece­ber quem pre­ci­sa de aju­da. Mas isto pare­ce um dis­cur­so tão bási­co e tão óbvio que por esta altu­ra não deve­ria neces­si­tar de ser fei­to.

Infe­liz­men­te, a into­le­rân­cia reli­gi­o­sa e cul­tu­ral, o pre­con­cei­to e a xeno­fo­bia ain­da exis­tem nes­te nos­so
mun­do. Acho que isso é bem paten­te nes­te fil­me. Eu pude viven­ci­ar isso em Por­tu­gal com ami­gos e fami­li­a­res bra­si­lei­ros. Era tam­bém sobre isso que que­ria falar. Se nos vir­mos nes­se espe­lho que é o
cine­ma, se nos rir­mos de nós pró­pri­os, tal­vez na pró­xi­ma opor­tu­ni­da­de em que nos defron­te­mos com deter­mi­na­das situ­a­ções se pos­sa agir de manei­ra dife­ren­te. Mui­tas vezes o pre­con­cei­to é incons­ci­en­te, está enrai­za­do. E uma coi­sa é brin­car com as dife­ren­ças cul­tu­rais com um sor­ri­so nos lábi­os, outra é a
des­cri­mi­na­ção fei­ta de uma for­ma mais vio­len­ta.
Estes pro­ble­mas já devi­am estar ultra­pas­sa­dos no Séc. XXI. Temos ques­tões mais impor­tan­tes para resol­ver, como a fome, a misé­ria, a pobre­za, a guer­ra e um pla­ne­ta à bei­ra de uma catás­tro­fe ambi­en­tal!

EQUIPA

Rea­li­za­ção e Argu­men­to – JOSÉ BARAHONA

Foto­gra­fia – DANIEL COSTA NEVES

Som – PEDRO EARP

Mon­ta­gem – JOSÉ BARAHONA e PATRÍCIA SARAMAGO

Edi­ção de som e mis­tu­ras – TIAGO MATOS

Músi­ca – FELIPE AYRES

Pro­du­ção – CAROLINA DIAS (Refi­na­ria Fil­mes – Bra­sil)

Co-Pro­du­ção – FERNANDO VENDRELL (David & Goli­as – Por­tu­gal) e MÔNICA BOTELHO (Mutu­ca Fil­mes – Bra­sil)

LONGE DOS HOMENS de David Oelhoffen

Argé­lia, 1954. Enquan­to a revol­ta ribom­ba no vale, dois homens mui­to dife­ren­tes, reu­ni­dos por um mun­do em con­vul­são, são obri­ga­dos a fugir em con­jun­to pelas mon­ta­nhas do Atlas. A meio de
um inver­no gela­do, Daru, o pro­fes­sor soli­tá­rio, tem de escol­tar Moha­med, um aldeão acu­sa­do de homi­cí­dio. Per­se­gui­dos por homens a cava­lo que pro­cu­ram jus­ti­ça sumá­ria e colo­nos vin­ga­ti­vos,
os dois homens deci­dem enfren­tar o des­co­nhe­ci­do. Jun­tos, lutam para obter a sua liber­da­de.
  É exi­bi­do no Mini-Audi­tó­rio Sal­ga­do Zenha no pró­xi­mo dia 19 de Outu­bro às 22:00. Entra­da Livre

Daru (Vig­go Mor­ten­sen) é um pro­fes­sor ide­a­lis­ta que ape­nas dese­ja aju­dar os seus jovens alu­nos a cres­cer e ter uma vida melhor. Um dia é obri­ga­do a escol­tar Moha­med (Reda Kateb), um aldeão acu­sa­do de homi­cí­dio, até à cida­de de Tin­guit, onde terá de ser entre­gue à polí­cia para jul­ga­men­to. Ape­sar da recu­sa ini­ci­al, Daru acei­ta a mis­são. Porém, per­se­gui­dos por homens que pro­cu­ram fazer jus­ti­ça pelas suas pró­pri­as mãos, os dois vêem-se per­di­dos no deser­to. Sem esco­lha, eles sabem que têm de con­ti­nu­ar o cami­nho, mes­mo cien­tes das pou­cas hipó­te­ses de sobre­vi­ver aos peri­gos da jor­na­da…

LONGE DOS HOMENS, do rea­li­za­dor fran­cês David Oelhof­fen, uma adap­ta­ção de um con­to, L’hôte, do filó­so­fo fran­co-arge­li­no Albert Camus – é um wes­tern inte­li­gen­te e de com­bus­tão len­ta,
com uma ban­da sono­ra atmos­fé­ri­ca de Nick Cave e War­ren Ellis e uma inter­pre­ta­ção excep­ci­o­nal de Vig­go Mor­ten­sen. (…) Mor­ten­sen faz o papel de Daru, um pro­fes­sor san­to que tra­ba­lha na Argé­lia, em 1954, no come­ço da sua luta pela inde­pen­dên­cia dos fran­ce­ses. Daru ensi­na miú­dos numa esco­la minús­cu­la, no alto das mon­ta­nhas do Atlas, mas este homem tem cla­ra­men­te mais qual­quer coi­sa. O seu ros­to cur­ti­do pare­ce reti­ra­do das mon­ta­nhas por trás da esco­la e
sabe mane­jar uma arma quan­do sol­da­dos fran­ce­ses lhe tra­zem um arge­li­no local, Moha­med (Reda Kateb), que con­fes­sou ter mor­to um pri­mo, numa dis­cus­são sobre tri­go rou­ba­do. Sem mãos a medir com a luta con­tra os com­ba­ten­tes da liber­da­de arge­li­nos, os sol­da­dos pedem a Daru para entre­gar Moha­med ao tri­bu­nal, que fica a um dia de via­gem. Daru recu­sa, argu­men­tan­do que esta­ria a levar o pri­si­o­nei­ro para a sua mor­te. Mas quan­do os sol­da­dos par­tem e Moha­med se recu­sa a fugir, ele não tem mui­ta esco­lha.

O REALIZADOR

David Oelhof­fen nas­ceu em Fran­ça. Rea­li­zou as cur­tas-metra­gens LE MUR (1996), BIG BANG (1997), EN MON ABSENCE (2001), ECHAFAUDAGES (2004) e SOUS LE BLEU (2004) e a lon­ga-metra­gem NOS RETROUVAILLES (2007). LOIN DES HOMMES / LONGE DOS HOMENS (2014) é o seu últi­mo fil­me.

DECLARAÇÃO DO REALIZADOR

Des­de a pri­mei­ra lei­tu­ra do con­to de Camus, L’hôte, visu­a­li­zei um wes­tern. Um wes­tern não con­ven­ci­o­nal, é cer­to, impreg­na­do de his­tó­ria euro­peia e ten­do como fun­do as ter­ras altas do nor­te de Áfri­ca, mas ain­da assim um wes­tern. Fiel aos códi­gos, há colo­ni­za­do­res e colo­ni­za­dos, um pri­si­o­nei­ro a escol­tar e uma tra­ma que desa­gua em vio­lên­cia. No cen­tro da his­tó­ria e dos seus per­so­na­gens encon­tra-se uma coli­são entre dois sis­te­mas jurí­di­cos. Tes­te­mu­nha­mos duas cul­tu­ras e duas morais for­ça­das a coe­xis­tir pela his­tó­ria. Tinha sonha­do com ir bus­car o Vig­go Mor­ten­sen.
A sua sin­gu­la­ri­da­de encai­xa­va per­fei­ta­men­te no papel. Reda Kateb – mis­te­ri­o­so, opa­co e com os pés no chão – fun­ci­o­na­va como con­tra­pon­to per­fei­to. A pai­sa­gem desér­ti­ca assu­me o papel de per­so­na­gem, na his­tó­ria. Sob a luz radi­an­te do nor­te de Áfri­ca, cons­ti­tuía uma com­pa­nhia bela mas impre­vi­sí­vel para o fil­me.

Adap­tar esta his­tó­ria ao cine­ma impli­ca­va dotar os per­so­na­gens de mais subs­tân­cia e tor­nar a nar­ra­ti­va mais den­sa. Uma das for­mas de o fazer foi incluir o con­tex­to arge­li­no e o come­ço da guer­ra. Mas a mai­or mudan­ça foi alte­rar a natu­re­za da rela­ção entre Daru e o jovem arge­li­no, que resul­tou num fnal cla­ra­men­te dife­ren­te para a his­tó­ria de Camus.
Sem­pre com a ideia de con­ser­var o espí­ri­to de , cujas pre­o­cu­pa­ções me pare­cem mui­to actu­ais: pre­o­cu­pa­ções acer­ca da huma­ni­da­de, a denún­cia da injus­ti­ça e, aci­ma de tudo, a dif­cul­da­de do com­pro­mis­so moral.
A tra­jec­tó­ria de Daru é tam­bém a de um homem que quer sal­var outro, ape­sar de ele ser um cri­mi­no­so, mas eu que­ria inten­si­fi­car a ener­gia que Daru des­pen­de a con­ven­cer o pri­si­o­nei­ro a não obe­de­cer à lei da sua comu­ni­da­de, nem a entre­gar-se à igual­men­te injus­ta lei dos colo­ni­za­do­res.

Tam­bém ima­gi­nei um per­so­na­gem mais ator­men­ta­do e mal­tra­ta­do do que no ori­gi­nal, um homem que tinha vivi­do a guer­ra e que que­ria fugir à vio­lên­cia, um homem car­re­ga­do de pesar, que o impe­le a abri­gar-se da vida. E, por últi­mo, um homem com uma iden­ti­da­de dolo­ro­sa: filho de espa­nhóis, é um euro­peu e vis­to como tal pelos aldeões, mas não se esque­ceu de que, uma gera­ção antes, os seus pais anda­lu­zes eram con­si­de­ra­dos “ára­bes”.

No caso de Moha­med, eu sobre­tu­do não que­ria que o per­so­na­gem fos­se a figu­ra do ára­be per­tur­ban­te, tão mis­te­ri­o­so e opa­co como na his­tó­ria ori­gi­nal, mas antes um homem com as suas razões, a sua pró­pria moral e que se abre gra­du­al­men­te ao que Daru pro­põe – a pos­si­bi­li­da­de de agir por si, enquan­to indi­ví­duo.

Notas da Crítica

LONGE DOS HOMENS des­car­na a nar­ra­ti­va, fica-lhe só com o osso, e esse “osso” é uni­ver­sal: um ter­ri­tó­rio não domi­na­do, qua­se sel­va­gem.” — Públi­co

Fiel, não à letra, mas ao espí­ri­to de Albert Camus, do qual adap­ta um con­to, L’hôte, o cine­as­ta diri­ge os acto­res com uma deli­ca­de­za rara.” — Télé­ra­ma

É, sim­ples­men­te, um gran­de wes­tern tra­di­ci­o­nal: a lín­gua e os deta­lhes cul­tu­rais podem ser dife­ren­tes, mas a ele­gân­cia espar­sa e os dile­mas morais são fami­li­a­res e tão suges­ti­vos como sem­pre (…). LONGE DOS HOMENS é, de for­ma dis­cre­ta, um fil­me gran­di­o­so e belo.” — Indi­ewi­re

O que faz com que fun­ci­o­ne é a efi­ci­ên­cia sole­ne com que o rea­li­za­dor David Oelhof­fen con­ta a his­tó­ria e a inten­si­da­de silen­ci­o­sa dos dois pro­ta­go­nis­tas: a ter­nu­ra rude do olhar de Mor­ten­sen con­tra­põe-se bem ao com­por­ta­men­to con­fli­tu­an­te de Kateb.” — New York Maga­zi­ne

Camus esta­be­le­ce o rumo ini­ci­al do fil­me, mas Oelhof­fen leva-o fir­me­men­te a bom por­to com con­tex­to polí­ti­co, aná­li­se his­tó­ri­ca retros­pec­ti­va, um impe­ra­ti­vo moral inequí­vo­co e um par de inter­pre­ta­ções bem empa­re­lha­das. Dito de outra for­ma, apro­pria-se da his­tó­ria. — New York Times

Ficha Técnica

Títu­lo ori­gi­nal
Loin des Hom­mes (Fran­ça, 2014, 101 min.)
Rea­li­za­ção
David Oelhof­fen
Inter­pre­ta­ção
Vig­go Mor­ten­sen, Reda Kateb, Dje­mel Barek
Argu­men­to
David Oelhof­fen, a par­tir da obra O Hós­pe­de de Albert Camus
Foto­gra­fia
Guil­lau­me Def­fon­tai­nes
Mon­ta­gem
Juli­et­te Wel­fling
Musi­ca
Nick Cave e War­ren Ellis
Pro­du­ção
Marc du Pon­ta­vi­ce, Matthew Gledhill
Clas­si­fi­ca­ção
M/12
Estreia em Por­tu­gal
6 de Agos­to de 2015
Dis­tri­bui­ção
Alam­bi­que

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Comboio de Sal e Açúcar” de Licínio Azevedo

Com­boio de Sal e Açú­car é um wes­tern afri­ca­no que che­ga às salas por­tu­gue­sas a 28 de setem­bro. Roda­do em Moçam­bi­que numa co-pro­du­ção inter­na­ci­o­nal lide­ra­da por Por­tu­gal, o fil­me já pas­sou por mais de 20 fes­ti­vais, ten­do estre­a­do em Locar­no e arre­ca­da­do pré­mi­os em Joa­nes­bur­go e Cai­ro, nas cate­go­ri­as de Melhor Fil­me e Melhor Rea­li­za­dor. Vai estre­ar ain­da este ano nos Esta­dos Uni­dos, Suí­ça e Fran­ça. É exi­bi­do no Mini-Audi­tó­rio Sal­ga­do Zenha no pró­xi­mo dia 12 de Outu­bro às 22:00. A entra­da é livre.

Um Wes­tern Afri­ca­no

Um com­boio. 400 qui­ló­me­tros em linhas sabo­ta­das. Dois capi­tães lutam pelo amor de Rosa. Entre fei­ti­ça­ria e ata­ques cons­tan­tes, um com­boio com cen­te­nas de pes­so­as é obri­ga­do a inú­me­ras para­gens até che­gar ao seu des­ti­no. Uma via­gem que decor­re a 5km/h atra­vés de luxu­ri­an­tes pai­sa­gens afri­ca­nas, onde o peri­go esprei­ta antes da pró­xi­ma esta­ção.

Introdução Histórica

1964, em Moçam­bi­que, então uma coló­nia por­tu­gue­sa, as for­ças da guer­ri­lha da FRELIMO — Fren­te de Liber­ta­ção de Moçam­bi­que — ini­ci­am uma guer­ra pela auto­de­ter­mi­na­ção do país. Dez anos depois, a FRELIMO assu­miu o gover­no do país. O novo gover­no, sob a pre­si­dên­cia de Samo­ra Machel, esta­be­le­ceu um Esta­do uni­par­ti­dá­rio base­a­do em prin­cí­pi­os mar­xis­tas. Come­ça pou­co depois uma lon­ga guer­ra civil, sus­ten­ta­da pela Rodé­sia e pela Áfri­ca do Sul, paí­ses vizi­nhos com gover­nos de mino­ri­as bran­cas, que na altu­ra não que­ri­am que o gover­no revo­lu­ci­o­ná­rio moçam­bi­ca­no ser­vis­se de exem­plo na região. As for­ças opo­si­ci­o­nis­tas ao Gover­no inti­tu­lam-se Resis­tên­cia Naci­o­nal Moçam­bi­ca­na (RENAMO). Esta guer­ra leva o país à rui­na com a qua­se total des­trui­ção da agri­cul­tu­ra e das infra-estru­tu­ras ter­res­tres. É só no iní­cio dos anos 90 que o país ini­cia refor­mas estru­tu­rais e vol­ta a ter paz. Actu­al­men­te, Moçam­bi­que vol­ta a ser asso­la­do pela vio­lên­cia, ten­do havi­do vári­os con­fron­tos arma­dos no cen­tro e no nor­te do país.

Esti­ve em Lichin­ga, capi­tal da Pro­vín­cia do Nias­sa, últi­mo pon­to onde os com­boi­os para­vam antes da fron­tei­ra com o Malawi, seu des­ti­no final.

A cida­de esta­va iso­la­da do res­to do país por via rodo­viá­ria. A che­ga­da dos com­boi­os era cada vez mais espa­ça­da e uma enor­me mul­ti­dão reu­nia-se na esta­ção para os rece­ber.

Tive a opor­tu­ni­da­de de ver uma des­sas che­ga­das e o esta­do ter­rí­vel daque­les que desem­bar­ca­vam, sema­nas depois do iní­cio da via­gem em que arris­ca­vam as suas vidas.

— Licí­nio Aze­ve­do

ENTREVISTA COM LICÍNIO AZEVEDO

O Com­boio de Sal e Açú­car exis­tiu real­men­te?

Duran­te a guer­ra civil em Moçam­bi­que, que aca­bou em ‘92, eu ouvia mui­tas his­tó­ri­as sobre este com­boio, no nor­te do país, his­tó­ri­as mara­vi­lho­sas. Não havia nada no país, nem mes­mo açú­car para o chá, sen­do que antes Moçam­bi­que era um gran­de pro­du­tor de açú­car. Nes­sa épo­ca, che­ga­vas a um café, pedi­as um chá, e dizi­am-te: “Há chá… Mas não há açú­car.” Então as mulhe­res, no nor­te do país, des­co­bri­ram uma manei­ra astu­ta para sus­ten­tar as suas famí­li­as. Com­pra­vam sal no lito­ral moçam­bi­ca­no e depois via­ja­vam 700 km até ao Malawi, no inte­ri­or do con­ti­nen­te. Uma via­gem que hoje leva menos de um dia, na épo­ca podia levar até três meses. Leva­vam sal para ven­der no Malawi e com o resul­ta­do com­pra­vam açú­car, depois regres­sa­vam e ven­di­am o açú­car, e com isso sus­ten­ta­vam a famí­lia por vári­os meses. Depois, toca de via­jar outra vez.

Este com­boio leva­va pas­sa­gei­ros?

Duran­te a guer­ra não era supos­to, mas as pes­so­as via­ja­vam volun­ta­ri­a­men­te, sem pagar bilhe­te, em vagões aber­tos, com uma anti­aé­rea e com uma escol­ta mili­tar. Era um com­boio que par­tia uma vez de três em três meses, quan­do as con­di­ções per­mi­ti­am. Depois há uma par­te de fic­ção, a exis­tên­cia de um bar­co de pes­ca gigan­te…

Se a acção se pas­sa no nor­te do país, por­que não fil­mar lá?

O nor­te do país está total­men­te modi­fi­ca­do, moder­ni­za­do e, actu­al­men­te, em guer­ra. Por isso optá­mos pelo sul de Moçam­bi­que, onde as linhas fér­re­as e esta­ções ain­da cor­res­pon­dem ao perío­do da his­tó­ria, tal como as loco­mo­ti­vas que nelas cir­cu

lam… Fil­má­mos na linha que vai de Mapu­to para a Sua­zi­lân­dia e para a Áfri­ca do Sul mas tive­mos um gran­de tra­ba­lho de deco­ra­ção para dar outros tons às esta­ções tal como recu­pe­rar as máqui­nas e vagões de escol­ta que já esta­vam desac­ti­va­dos.

Por­que não fizes­te um docu­men­tá­rio?

Na épo­ca ain­da ten­tei mas os pro­du­to­res dizi­am “Você é malu­co! Quem é que vai colo­car dinhei­ro para equi­pa­men­to e tudo mais, para fazer uma via­gem de três meses? Ain­da mor­rem, e depois não há fil­me.” Logo que a guer­ra aca­bou, a pri­mei­ra coi­sa que fiz foi apa­nhar esse com­boio. Fiz a via­gem vári­as vezes, entre­vis­tan­do os tra­ba­lha­do­res dos Cami­nhos-de-Fer­ro, as mulhe­res que tro­ca­vam o sal pelo açú­car, os mili­ta­res… E escre­vi um livro — Com­boio de Sal e Açú­car. Para mim, tudo o que não é fei­to no momen­to, em cine­ma, dei­xa de ser docu­men­tá­rio. Não gos­to de fazer docu­men­tá­ri­os sobre o pas­sa­do, gos­to de fazer sobre o que está a acon­te­cer. Para mim, tudo o que já acon­te­ceu, pas­sa a ser fic­ção.

O teu livro come­ça com uma fra­se: “Aque­les que nos ata­ca­vam eram ter­rí­veis, mas aque­les que nos pro­te­gi­am por vezes eram pio­res”. Qual é o sig­ni­fi­ca­do sim­bó­li­co do com­boio?

É como um micro­cos­mos onde coe­xis­tem muçul­ma­nos, cris­tãos e ani­mis­tas, numa atmos­fe­ra de trai­ções, ata­ques e mor­te, mas tam­bém de espe­ran­ça reno­va­da. “Quan­do o sol nas­ce todas as espe­ran­ças se reno­vam”, já dizia o meu velho Hemingway. E assim se vai man­ten­do o equi­lí­brio, por­que den­tro do com­boio todos os pas­sa­gei­ros arris­cam as suas vidas. Duran­te a guer­ra temos ten­dên­cia a dife­ren­ci­ar os bons dos maus, mas isso nem sem­pre é fácil. Aque­les que ata­cam o com­boio são ter­rí­veis mas por vezes, aque­les que o deve­ri­am pro­te­ger, são mui­to pio­res. No fil­me a Rosa tes­te­mu­nha a dura rea­li­da­de da guer­ra e por isso ouvi­mo-la dizer essa fra­se…

Estes per­so­na­gens são reais?

Alguns são leve­men­te base­a­dos em per­so­na­gens reais, outros são com­ple­ta­men­te fic­ci­o­nais, como o per­so­na­gem prin­ci­pal, Tai­ar. Nes­te fil­me há três gru­pos de per­so­na­gens: os mili­ta­res que pro­te­gem e con­tro­lam o com­boio, entre os quais há os bons e os maus; os tra­ba­lha­do­res dos cami­nhos-de-fer­ro que per­mi­tem que o com­boio siga o seu cami­nho e que são a intel­li­gent­sia; e os civis, sobre­tu­do mulhe­res, que via­jam e que repre­sen­tam a luta huma­na mais bási­ca: a sobre­vi­vên­cia.

Como defi­nes a rela­ção entre Tai­ar e Salo­mão?

O Tai­ar é um tenen­te com uma men­ta­li­da­de moder­na, cien­tí­fi­ca, que estu­dou numa aca­de­mia mili­tar na Ucrâ­nia, ex-União Sovié­ti­ca e que tem um pen­sa­men­to dife­ren­te por ser jovem, tenen­te e ter rece­bi­do for­ma­ção fora do país. O seu anta­go­nis­ta é o alfe­res Salo­mão que ganhou a sua paten­te na guer­ra. É um gran­de com­ba­ten­te mas tem uma visão mais fecha­da. Sen­te-se dono do mun­do, dono das mulhe­res, do com­boio…

Exis­te um lado mági­co nes­ta guer­ra?

Exis­te na guer­ra como exis­te na pró­pria vida quo­ti­di­a­na dos moçam­bi­ca­nos. Não diria exac­ta­men­te magia mas uma rela­ção com os ante­pas­sa­dos, com os espí­ri­tos…. Em Moçam­bi­que, duran­te a guer­ra civil, hou­ve uma ter­cei­ra for­ça arma­da, que esta­va ao lado do gover­no da FRELIMO, que eram os Napa­ra­mas, um exér­ci­to de homens à pro­va de balas, invul­ne­rá­veis, que luta­vam nus e usa­vam armas tra­di­ci­o­nais, arco e fle­cha, cata­nas, não usa­vam armas de fogo. Bas­ta­va que o ini­mi­go sou­bes­se da apro­xi­ma­ção dos Napa­ra­mas e reti­ra­va. Até que um dia mata­ram Manu­el Antó­nio, o coman­dan­te dos Napa­ra­mas, com 150 tiros. E aí dis­se­ram: “Viram, não é à pro­va de bala.” Mas logo apa­re­ceu uma jus­ti­fi­ca­ção: o ini­mi­go havia envi­a­do uma fei­ti­cei­ra, uma mulher lin­dís­si­ma, que o sedu­ziu, levan­do-o a fazer amor com ela antes de com­ba­ter. Eles tinham de cum­prir um ritu­al, não podi­am comer comi­da com sal duran­te três dias antes de ir para com­ba­te, e não podi­am fazer amor. Ele fez amor e por isso foi mor­to. Esta foi a expli­ca­ção dada pela popu­la­ção. A magia faz assim par­te da vida quo­ti­di­a­na, e em Áfri­ca, não há guer­ra sem magia.

E algum per­so­na­gem encar­na essa magia?

Sete Manei­ras, o coman­dan­te res­pon­sá­vel pela pro­tec­ção do com­boio, é um fei­ti­cei­ro à pro­va de bala que na sua juven­tu­de teve a ini­ci­a­ção tra­di­ci­o­nal dos makon­des no nor­te de Moçam­bi­que. Para ser adul­to tem que se matar um leão com arco e fle­cha. Sete Manei­ras, como pas­sou por essa ini­ci­a­ção, con­se­gue falar com os pás­sa­ros, trans­for­man­do-se mes­mo num para fazer reco­nhe­ci­men­to. Já o coman­dan­te ini­mi­go, Xipo­co (“fan­tas­ma” em lín­gua xan­ga­na), tam­bém se trans­for­ma em maca­co para fazer o mes­mo.

Como foi rodar todos os dias com 13 vagões?

Fan­tás­ti­co e infer­nal. Impos­sí­vel sem o apoio incon­di­ci­o­nal dos Cami­nhos de Fer­ro de Moçam­bi­que. Duran­te a roda­gem, o enge­nhei­ro de som fez um tra­ba­lho extra­or­di­ná­rio com ele, com os sons das rodas a ran­ger, da loco­mo­ti­va a tra­ba­lhar… Naque­le tem­po nun­ca podi­am des­li­gar o motor da loco­mo­ti­va, por­que depois podia não pegar, então trans­por­tá­mos essa rea­li­da­de para o fil­me. O som do com­boio é um som per­ma­nen­te, uma ban­da sono­ra fun­da­men­tal que foi pon­tu­a­da pelo Schwal­ba­ch com ins­tru­men­tos tra­di­ci­o­nais afri­ca­nos, tam­bo­res e com a mbi­ra para pon­tu­ar as cenas de amor.

Por­que dizes que este fil­me é um wes­tern?

Eu ado­ro wes­tern, é o meu géne­ro pre­fe­ri­do, e o fil­me tem um pou­co essa estru­tu­ra. Nos fil­mes de cow­boy o ban­di­do sem­pre anda em qua­dri­lha, então Salo­mão tem os seus segui­do­res, e Tai­ar tam­bém tem os seus. É como o Zor­ro e o Ton­to, tem o Tai­ar que é o Zor­ro e tem o Ton­to que é o índio de lado, que é o adjun­to dele e que no final assu­me o papel do Tai­ar. O Ton­to pas­sa a ser o Zor­ro. Sem­pre com­pa­ro os dois com o meu wes­tern pre­fe­ri­do, Sha­ne, fil­me do Geor­ge Ste­vens, de 1951. Tam­bém há o fac­to de ter­mos roda­do nas pai­sa­gens do sul de Moçam­bi­que, que são mag­ní­fi­cas e que nes­ta épo­ca do ano cor­res­pon­dem tam­bém aos fil­mes como os de John Ford, em que o cow­boy apa­re­ce naque­la pla­ní­cie com o capim alto, ama­re­lo… e que na pós-pro­du­ção ain­da lhe con­fe­ri­mos uma tem­pe­ra­tu­ra de cor mais quen­te. É o pri­mei­ro wes­tern afri­ca­no moder­no. Quem gos­ta de fil­mes wes­tern vai-se encon­trar nes­te fil­me.

LICÍNIO AZEVEDO

Licí­nio Aze­ve­do é cine­as­ta e escri­tor moçam­bi­ca­no. Faz par­te da gera­ção de cine­as­tas for­ma­da no Ins­ti­tu­to Naci­o­nal de Cine­ma de Moçam­bi­que, nos anos que se segui­ram à Inde­pen­dên­cia, com a inter­ven­ção de dife­ren­tes rea­li­za­do­res, entre eles Ruy Guer­ra, Godard e Jean Rou­ch. Como escri­tor e como cine­as­ta, a sua obra é estrei­ta­men­te liga­da à rea­li­da­de do país e aos diver­sos momen­tos da sua con­tur­ba­da evo­lu­ção. Entre o docu­men­tá­rio e a fic­ção, Licí­nio mis­tu­ra ambos os géne­ros, ins­pi­ran­do-se sem­pre em acon­te­ci­men­tos nar­ra­ti­vos e per­so­na­gens cati­van­tes.

Filmografia Seleccionada

2016
COMBOIO DE SAL E AÇÚCAR
93’, Fic­ção

2012
VIRGEM MARGARIDA
90’, Fic­ção

2010
A ILHA DOS ESPÍRITOS
63’, Docu­men­tá­rio

2007
HÓSPEDES DA NOITE
53’, Docu­men­tá­rio

2006
O GRANDE BAZAR
56’, Fic­ção

2005
ACAMPAMENTO DE DESMINAGEM
60’, Docu­men­tá­rio

2003
MÃOS DE BARRO52’,
Docu­men­tá­rio

2002
DESOBEDIÊNCIA
92’, Ficção/Documentário

2001
A PONTE
52’, Docu­men­tá­rio

ELENCO

Tai­ar
Matam­ba Joa­quim

Rosa
Mela­nie de Vales Rafa­el

Salo­mão
Thi­a­go Jus­ti­no

Sete Manei­ras
Antó­nio Nipi­ta

Mari­a­mu
Sabi­na Fon­se­ca

Jose­fi­no
Horá­cio Gui­am­ba

Pure­za
Celes­te Baloi

Amé­lia
Her­me­lin­da Sime­la

Adri­a­no Gil
Mário Mab­jaia

Celes­te Cara­ve­la
Vic­tor Rapo­so

Omar Ima­ni
Abdil Juma

Ascên­cio
Absa­lão Nar­du­e­la

Her­cu­la­no
Tune­cas Xavi­er

Dan­ger Man
Mário Valen­te

Bai­o­ne­ta
Absa­lão Maci­el

Cani­ve­te
Car­los Nove­la

Calis­to Con­fi­an­ça
Abdul Satar

Coman­dan­te Xipo­co
Alvim Cos­sa

 

EQUIPA

Direc­tor de Foto­gra­fia
Fré­dé­ric Ser­ve

Enge­nhei­ro de Som
Phi­lip­pe Fab­bri

Sound Design & Mis­tu­ras
Matthew James
Kiko Fer­raz

Mon­ta­gem
Wil­lem Dias

Direc­ção de Arte
Andrée du Pre­ez

Figu­ri­nis­ta
Isa­bel Peres

Ban­da Sono­ra Ori­gi­nal de
Joni Schwal­ba­ch

Adap­ta­do do livro homó­ni­mo por
Luis Car­los Patra­quim

Argu­men­to de
Licí­nio Aze­ve­do
Tere­sa Perei­ra

Um fil­me de
Licí­nio Aze­ve­do

Pro­du­zi­do por
Pan­do­ra da Cunha Tel­les & Pablo Ira­o­la

Co-pro­du­zi­do por
Licí­nio Aze­ve­do , Phi­lip­pe Avril , Beto Rodri­gues, Tati­a­na Sager , Eli­as Ribei­ro & John Tren­go­ve

Ciclo “Fusões no Cinema” dedicado à Literatura

O Ciclo de Cine­ma — Fusões no Cine­ma — orga­ni­za­do pelo Cen­tro de Estu­dos Cine­ma­to­grá­fi­cos e os Cami­nhos do Cine­ma Por­tu­guês irá reto­mar na pró­xi­ma sema­na e será dedi­ca­do ago­ra à Lite­ra­tu­ra.

Come­ça quin­ta-fei­ra dia 12 de Outu­bro às 22h00 no Mini-Audi­tó­rio Sal­ga­do Zenha da AAC, com a estreia em Coim­bra do fil­me Com­boio de Sal e Açú­car de Licí­nio Aze­ve­do, rea­li­za­dor e escri­tor que adap­ta a sua pró­pria obra lite­rá­ria ao cine­ma. Depois ire­mos via­jar até à lite­ra­tu­ra fran­ce­sa com Albert Camus, autor que alguns clas­si­fi­cam como um apai­xo­na­do pela exis­tên­cia, cuja obra adap­ta­da Lon­ge dos homens tem ban­da sono­ra ori­gi­nal com­pos­ta por Nick Cave e War­ren Ellis.

O Ciclo que terá lugar todas as quin­tas-fei­ras de 12 de Outu­bro a 9 de Novem­bro, inclui­rá tam­bém obras adap­ta­das ao cine­ma de Luiz Ruf­fa­to, Fer­nan­do Pes­soa e José Sara­ma­go. Além dis­so, terá uma ses­são espe­ci­al para o dia das bru­xas, dia 31 de Outu­bro à 00h00, com A Ins­ta­la­ção do Medo de Ricar­do Lei­te e o fil­me pro­ta­go­ni­za­do por Nuno Melo, O Barão de Edgar Pêra que explo­ra a obra de Bran­qui­nho da Fon­se­ca num regis­to que res­sus­ci­ta o expres­si­o­nis­mo ale­mão dos anos 1920.

Programação

12 de Outu­bro — 22h00
Com­boio de Sal e Açú­car de Licí­nio Aze­ve­do

19 de Outu­bro — 22h00
Lon­ge dos homens de David Oelhof­fen

26 de Outu­bro — 22h00
Esti­ve em Lis­boa e Lem­brei de Você de José Baraho­na

31 de Outu­bro — 00h00
A Ins­ta­la­ção do Medo de Ricar­do Lei­te
O Barão de Edgar Pêra

 

2 de Novem­bro — 22h00
Fil­me do Desas­sos­se­go de João Bote­lho
Ses­são comen­ta­da por Manu­el Por­te­la (FLUC)

9 de Novem­bro — 22h00
Ensaio sobre a Ceguei­ra de Fer­nan­do Mei­rel­les

Entra­da Livre

A Literatura no Cinema

Vir­gí­lio Fer­rei­ra, ao con­trá­rio daqui­lo que era defen­di­do por Ing­mar Berg­man, con­si­de­ra­va que o Fil­me pode­ria ser um meio de pro­jec­ção das idei­as lite­rá­ri­as de um escri­tor. Do livro ao fil­me, pou­co se per­de quan­to ao con­cei­to que fun­da­men­ta a Obra, mudan­do ape­nas o seu for­ma­to e meio para apre­en­são do lei­tor-espec­ta­dor.

Con­si­de­ra­mos que o que une a Lite­ra­tu­ra ao Cine­ma é a par­ti­ci­pa­ção acti­va daque­le que lê e que assis­te ao fil­me. Seja trans­for­mar pala­vras em qua­dros ima­gé­ti­co-ima­gi­ná­ri­os pela men­te do lei­tor, ou a trans­for­ma­ção de ima­gem fixa em movi­men­to pelo cére­bro do espec­ta­dor, há uma neces­si­da­de pre­men­te da men­te daque­le que se sub­me­te à recep­ção da Obra.

Mais que um meio de comu­ni­ca­ção de tex­to, atra­vés do argu­men­to por exem­plo, o Fil­me que se baseia no Livro é uma opor­tu­ni­da­de de mudan­ça de pers­pec­ti­va. O que o Fil­me con­se­gue for­ne­cer, é a capa­ci­da­de de ver com olhos aber­tos a for­ma como o Rea­li­za­dor mon­tou men­tal­men­te o tex­to que leu e assim o explo­rou. Na prá­ti­ca, o que o Rea­li­za­dor faz é des­vi­ar o olhar do lei­tor con­ven­ci­o­nal, que olha para bai­xo, levan­do-o a erguer os olhos para a tela, ouvin­do e ven­do o esque­le­to nar­ra­ti­vo dei­xa­do pelo Escri­tor, enri­que­ci­do com ele­men­tos téc­ni­cos e esté­ti­cos cine­ma­to­grá­fi­cos para uma apre­en­são do cer­ne argu­men­ta­ti­vo.

Nes­te ciclo, pre­ten­de-se que o típi­co espec­ta­dor seja arras­ta­do para o mun­do da Lite­ra­tu­ra, dei­xan­do-lhe a semen­te da curi­o­si­da­de lite­rá­ria, ao mes­mo tem­po que apro­xi­ma­mos os apai­xo­na­dos pelos clás­si­cos a uma nova for­ma de ver o tex­to em movi­men­to. Via­jan­do pelo mun­do cri­a­ti­vo de diver­sos auto­res, o espec­ta­dor terá a opor­tu­ni­da­de de ver o Tex­to e o Escri­tor em tela, dei­xan­do-se mar­car pela capa­ci­da­de cri­a­ti­va num sen­ti­do duplo: da Escri­ta e da Rea­li­za­ção. É a opor­tu­ni­da­de de jun­tar lei­to­res e ciné­fi­los, ambos com o dese­jo de assi­mi­la­ção da arte pela sua con­tri­bui­ção acti­va: sem lei­tor, o escri­to não ganha vida; sem espec­ta­dor, a tela apre­sen­ta meras ima­gens sem movi­men­to.

O Ciclo “Fusões no Cine­ma”  será comen­ta­do por Manu­el Por­te­la.

https://apps.uc.pt/mypage/faculty/mportela/

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Cinanima · Pré-Festival em Coimbra

O Cen­tro de Estu­dos Cine­ma­to­grá­fi­cos e a Uni­ver­si­da­de de Coim­bra asso­ci­am-se, pelo segun­do ano con­se­cu­ti­vo, ao CINANIMA — Fes­ti­val Inter­na­ci­o­nal de Cine­ma de Ani­ma­ção de Espi­nho, que vai na sua 41ª Edi­ção, nes­ta ini­ci­a­ti­va do Pré-Fes­ti­val 2017.

O CINANIMA exi­be na cida­de de Coim­bra, nes­tas qua­tro datas, um olhar sobre a sua pro­gra­ma­ção extra-com­pe­ti­ção des­te ano. O Fes­ti­val decor­re­rá entre os dias 6 e 12 de novem­bro na cida­de de Espi­nho.

As ses­sões decor­re­rão às ter­ças-fei­ras às 21:30 com entra­da livre no Mini-Audi­tó­rio Sal­ga­do Zenha (Piso 0 da AAC).

A pro­gra­ma­ção para a exten­são do Cina­ni­ma na Aca­de­mia de Coim­bra é a seguin­te:

3 de Outu­bro
— Selec­ção Pre­mi­a­dos CINANIMA 2016

10 de Outu­bro
— “10 Anos do Estú­dio de Ani­ma­ção da Aca­de­mia de Belas Artes” — Áus­tria

17 de Outu­bro
— “CSC Ani­ma­zi­o­ne — Cen­tro Spe­ri­men­ta­le di Cine­ma­to­gra­fia Pie­mon­te — Nati­o­nal Scho­ol” — Itá­lia

24 de Outu­bro
— “Best of KAFF — Kecsk­mét Ani­ma­ti­on Film Fes­ti­val” — Hun­gria