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A Instalação do Medo, um filme de Ricardo Leite

Dia 31 de Outu­bro ás 00h00, o Mini-Audi­tó­rio Sal­ga­do Zenha/AAC irá abrir por­tas para a apre­sen­ta­ção da cur­ta-metra­gem A ins­ta­la­ção do medo (2017), tra­ba­lho cine­ma­to­grá­fi­co de Ricar­do Lei­te galar­do­a­do em Feve­rei­ro com o Pré­mio Sophia Estu­dan­te atrí­bui­do pela Aca­de­mia Por­tu­gue­sa de Cine­ma.
A entra­da é gra­tui­ta e estão todos con­vi­da­dos.

Sinopse
A mulher escon­de o seu filho na casa de banho, quan­do ouve a bate­rem à por­ta.

Abre a Por­ta vê dois homens, “Bom dia, minha senho­ra, vie­mos para ins­ta­lar o medo.”

Elenco

Mar­ga­ri­da Morei­ra, Nuno Janei­ro, Cân­di­do Fer­rei­ra e Ber­nar­do Morei­ra.

Rea­li­za­ção: Ricar­do Lei­te

Ass. De Rea­li­za­ção: Bru­no Medei­ros

Ano­ta­ção: Sara Sil­va

Argu­men­to: (Guião) Ricar­do Lei­te, (Livro) Rui Zink.

Pro­du­ção: Arman­da Oli­vei­ra

Ass. De Pro­du­ção: Andreia Ribei­ro

Pro­du­tor exe­cu­ti­vo: Edu­ar­do Lel­lo

Pro­du­tor super­vi­sor: Ricar­do Lei­te

Direc­ção de Foto­gra­fia: Cláu­dio Oli­vei­ra

Programa Oradores Convidados do IV Simpósio Fusões no Cinema

Docen­tes, inves­ti­ga­do­res, ora­do­res con­vi­da­dos, espe­ci­a­lis­tas e artis­tas de dife­ren­tes áre­as anali­sam, nes­te IV Sim­pó­sio Inter­na­ci­o­nal, as atu­ais prá­ti­cas artís­ti­cas e edu­ca­ti­vas, os novos papéis dos dife­ren­tes agen­tes envol­vi­dos na dinâ­mica cri­a­tiva e ope­ra­tiva da arte, da edu­ca­ção e da cul­tura hoje.
Já se encon­tra dis­po­ní­vel o pro­gra­ma das comu­ni­ca­ções de ora­do­res con­vi­da­dos do IV Sim­pó­sio Inter­na­ci­o­nal Fusões no Cine­ma. O sim­pó­sio decor­rerá nos dias 17 e 18 de novem­bro de 2017, em São João da Madei­ra, com o apoio da Câma­ra Muni­ci­pal de São João da Madei­ra, sen­do co-orga­ni­za­do pelo fes­ti­val Cami­nhos do Cine­ma Por­tu­guês e pela Uni­da­de de Desen­vol­vi­men­to dos Cen­tros Locais de Apren­di­za­gem (UMCLA) da Uni­ver­si­da­de Aber­ta.

A ses­são de aber­tu­ra está mar­ca­da para as 17h30min do dia 17 de novem­bro, con­tan­do com a par­ti­ci­pa­ção de Jor­ge Sequei­ra (Pre­si­den­te da Câma­ra Muni­ci­pal de São João da Madei­ra), Domin­gos Caei­ro (Vice-Rei­tor da Uni­ver­si­da­de Aber­ta), José Antó­nio Morei­ra (Coor­de­na­dor Exe­cu­ti­vo UMCLA) e Vítor Fer­rei­ra (Dire­tor do Cami­nhos Film Fes­ti­val). Com exi­bi­ção de cur­tas-metra­gens, con­fe­rên­ci­as sobre as demais vari­e­da­des do cine­ma e sua ins­tru­men­ta­li­za­ção, o 4º Sim­pó­sio ter­mi­na com a con­fe­rên­cia de encer­ra­men­to, que con­ta­rá com a pre­sen­ça de Gerar­do Oje­da Cas­tañe­da da Escu­e­la de Altos Estu­di­os em Comu­ni­ca­ción Edu­ca­ti­va e do Ins­ti­tu­to Lati­no­a­me­ri­ca­no de la Comu­ni­ca­ción Edu­ca­ti­va.

Será conhe­ci­do em bre­ve o pro­gra­ma para as pro­pos­tas de tra­ba­lhos apre­sen­ta­das que serão ava­li­a­das num pro­cesso de revi­são cega por pares (blind-revi­ew), de modo a garan­tir a isen­ção e impar­ci­a­li­dade da ava­li­a­ção. Os tra­ba­lhos sub­me­ti­dos e acei­tes para comu­ni­ca­ção serão publi­ca­dos na Revis­ta de Lin­gua­gem do Cine­ma e do Audi­o­vi­sual do Latec-UFRJ num núme­ro espe­cial de 2017. O pra­zo para a rece­ção de pro­pos­tas de comu­ni­ca­ções decor­re até 27 de outu­bro.

Conhe­ça o pro­gra­ma e ora­do­res con­vi­da­dos em https://caminhos.info/simposio/programa-oradores-convidados/

+ em: Pro­gra­ma Ora­do­res Con­vi­da­dos do IV Sim­pó­sio Fusões no Cine­ma

Abertas as inscrições para a 7ª edição do Cinemalogia

A 7ª edi­ção do Cine­ma­lo­gia apre­sen­ta-se ao públi­co num for­ma­to mais com­pac­to, 80 horas, per­mi­tin­do que mais pes­so­as pos­sam usu­fruir des­te pro­jec­to peda­gó­gi­co. O cor­po docen­te con­ta com pro­fis­si­o­nais da séti­ma arte que têm par­ti­ci­pa­ções impor­tan­tes em obras cine­ma­to­grá­fi­cas por­tu­gue­sas, sen­do eles André Bada­lo, João Sil­va (Jor­ri), Manu­el Pin­to Bar­ros, Pedro Lopes, Lili­a­na Las­pril­la, Tomás Bal­ta­zar e Pau­lo Cunha. O pla­no cur­ri­cu­lar é com­pos­to por algu­mas eta­pas ful­crais de um pla­no de pro­du­ção cine­ma­to­grá­fi­ca, tais como o argu­men­to, a gra­má­ti­ca cine­ma­to­grá­fi­ca, a ges­tão e pla­ne­a­men­to, a roda­gem e os módu­los de pós-pro­du­ção: mon­ta­gem de som e ima­gem, cor­rec­ção de cor e ban­da sono­ra.
Até 11 de novem­bro a orga­ni­za­ção man­tém con­di­ções espe­ci­ais de ins­cri­ção com pre­ços a par­tir dos 150€.  Todos os deta­lhes sobre a séti­ma edi­ção estão dis­po­ní­veis em www.caminhos.info/cinemalogia

+ em: Aber­tas as ins­cri­ções para a 7ª edi­ção do Cine­ma­lo­gia

O Barão de Edgar Pêra

No ano de 1943, duran­te a II Guer­ra Mun­di­al, a pro­du­to­ra ame­ri­ca­na Vale­rie Lew­ton che­gou a Por­tu­gal e casou-se com um actor por­tu­guês que lhe deu a conhe­cer o con­to “O Barão”, escri­to por Bran­qui­nho da Fon­se­ca. Vale­rie viu nele a his­tó­ria per­fei­ta para um fil­me de ter­ror, come­çan­do, em segre­do, as fil­ma­gens numa fábri­ca do Bar­rei­ro.

Quan­do a PIDE sou­be da exis­tên­cia do fil­me, man­dou des­truir os nega­ti­vos. A equi­pa téc­ni­ca foi repa­tri­a­da e os acto­res por­tu­gue­ses depor­ta­dos para o Tar­ra­fal, na ilha de San­ti­a­go, Cabo Ver­de, onde mor­re­ram tor­tu­ra­dos na “fri­gi­dei­ra”.

Em 2005, foram des­co­ber­tas duas bobi­nas e o guião do fil­me nos arqui­vos do cine­clu­be do Bar­rei­ro. Atra­vés delas o rea­li­za­dor Edgar Pêra deci­diu fazer o “rema­ke” do fil­me ori­gi­nal, con­tan­do a his­tó­ria de um barão tirâ­ni­co que ater­ro­ri­za a popu­la­ção das mon­ta­nhas do Bar­ro­so, no Nor­te de Por­tu­gal.

É exi­bi­do no Mini-Audi­tó­rio Sal­ga­do Zenha no pró­xi­mo dia 31 de Outu­bro à meia-noi­te . A entra­da é livre.

Introdução Histórica

A his­tó­ria de um vam­pi­ro mari­al­va que ater­ro­ri­za­va os habi­tan­tes duma região mon­ta­nho­sa. O Barão é um cama­leão emo­ci­o­nal. Ora se apre­sen­ta dócil, ou iras­cí­vel, um homem-java­li, «uma pura bes­ta». Vive um amor apri­si­o­na­do, den­tro e fora de si. Um amor ina­tin­gí­vel. Um ide­al cor­rom­pi­do. Ida­li­na, cri­a­da aris­to­cra­ta pai­ra pelo cas­te­lo…

O pará­gra­fo aci­ma é o resu­mo ofi­ci­al de apre­sen­ta­ção de “O Barão”, o novo fil­me de Edgar Pêra é umas das mais sin­gu­la­res estrei­as do ano. A pelí­cu­la adap­ta uma his­tó­ria de Bran­qui­nho da Fon­se­ca e é uma via­gem ao Por­tu­gal dos anos 40, pen­sa­da que se tives­se sido fil­ma­da na pró­pria altu­ra.

O regis­to é expres­si­o­nis­ta e góti­co e a pelí­cu­la, pro­ta­go­ni­za­da por Nuno Melo, é uma metá­fo­ra a qual­quer dita­du­ra.

Elenco

  • Leo­nor Keil
  • Mar­cos Bar­bo­sa
  • Mari­na Albu­quer­que
  • Miguel Ser­mão
  • Nuno Melo
  • Vítor Cor­reia

Equipa técnica

Argu­men­to: Edgar Pêra  ·  Luí­sa Cos­ta Gomes

Direc­ção de Foto­gra­fia: Luís Bran­qui­nho

Mon­ta­gem: João Gomes: Tia­go Antu­nes  ·  Edgar Pêra

Músi­ca: Vozes Da Rádio

Pro­du­ção: Cine­ma­te

Pro­du­to­ra: Ana Cos­ta

Rea­li­za­ção: Edgar Pêra

Som: Tia­go Rapo­si­nho

Prémios nos XVIII Caminhos do Cinema Português (2011)

PRÉMIO MELHOR ARGUMENTO ADAPTADO | Luí­sa Cos­ta Gomes e Edgar Pêra por O Barão
PRÉMIO MELHOR FOTOGRAFIA | Luís Bran­qui­nho por O Barão
PRÉMIO MELHOR CARATERIZAÇÃO | Jor­ge Bra­gada por O Barão
PRÉMIO MELHOR MONTAGEM | Tia­go Antu­nes por O Barão

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Estive em Lisboa e Lembrei de Você um Filme de José Barahona

Sér­gio, um modes­to fun­ci­o­ná­rio da Com­pa­nhia Indus­tri­al de Cata­gua­ses, Minas Gerais (Bra­sil), sofre uma revi­ra­vol­ta na sua vida: a sua mulher enlou­que­ce, ele per­de o empre­go e a cus­tó­dia do filho.
Deci­de emi­grar para Lis­boa, a con­se­lho dos ami­gos, em bus­ca de opor­tu­ni­da­des de tra­ba­lho para recom­por a sua vida. Ao che­gar, Sér­gio é con­fron­ta­do com a dura rea­li­da­de da imi­gra­ção; o dia-a-dia e o con­tras­te cul­tu­ral vão reve­lar um lugar dife­ren­te daque­le com que sonha­ra.
Este fil­me cujo argu­men­to foi adap­ta­do do roman­ce homó­ni­mo do pre­mi­a­do escri­tor bra­si­lei­ro Luiz Ruf­fa­to será exi­bi­do no dia 26 de Outu­bro às 22:00. A entra­da no Mini-Audi­tó­rio Sal­ga­do Zenha é livre. 

Introdução Histórica

Sér­gio de Sou­za Sam­paio (Pau­lo Aze­ve­do) nas­ceu em Minas Gerais, quan­do, por for­ça das cir­cuns­tân­ci­as, se vê sem empre­go, sem a mulher e sem o filho, resol­ve dar uma vol­ta à sua vida e emi­grar para Por­tu­gal. É assim que che­ga a Lis­boa, em bus­ca de opor­tu­ni­da­des de tra­ba­lho e cheio de espe­ran­ça numa vida melhor. Mas o que ele vai encon­trar é algo mui­to dife­ren­te do ide­a­li­za­do: os empre­gos escas­sei­am e as pou­cas vagas que sobram são mal remu­ne­ra­das. Lon­ge da famí­lia e do país que o viu nas­cer, vai ter de enfren­tar a soli­dão, o des­pre­zo e a estra­nhe­za de um povo mui­to dife­ren­te do seu.

Co-pro­du­ção entre Bra­sil e Por­tu­gal, “Esti­ve em Lis­boa e Lem­brei de Você” é a adap­ta­ção cine­ma­to­grá­fi­ca do roman­ce homó­ni­mo de Luiz Ruf­fa­to. A rea­li­za­ção e argu­men­to fica a car­go de José Baraho­na (“Bue­nos Aires Hora Zero”, “O Manus­cri­to Per­di­do”), cine­as­ta por­tu­guês radi­ca­do no Bra­sil.

SOBRE O REALIZADOR

Nas­ceu em Lis­boa em 1969 e resi­de atu­al­men­te no Rio de Janei­ro, Bra­sil. José Baraho­na rea­li­zou diver­sos docu­men­tá­ri­os e cur­tas-metra­gens des­de 1995, altu­ra em que se for­mou em Lis­boa na Esco­la Supe­ri­or de Tea­tro e Cine­ma, ten­do con­cre­ti­za­do os seus estu­dos em Cuba e em Nova Ior­que. Como rea­li­za­dor o seu tra­ba­lho tran­si­ta num ter­ri­tó­rio híbri­do em que docu­men­tá­rio e fic­ção se mis­tu­ram: os seus docu­men­tá­ri­os têm, mui­tas vezes, dis­po­si­ti­vos fic­ci­o­nais, e as suas fic­ções uma rela­ção mui­to estrei­ta com o docu­men­tal. Nes­se sen­ti­do des­ta­cam-se o docu­men­tá­rio lon­ga-metra­gem O Manus­cri­to Per­di­do (2010), ven­ce­dor, entre outros, do Pré­mio TV Bra­sil de Melhor Lon­ga-metra­gem na 15ª Mos­tra Inter­na­ci­o­nal do Fil­me Etno­grá­fi­co (RJ). Foi publi­ca­do um livro sobre o fil­me com a chan­ce­la Selo Tor­de­si­lhas, com pre­fá­cio de Nel­son Perei­ra dos San­tos e o docu­men­tá­rio Milho (Pré­mio Cine­E­co
em Movi­men­to, Cine­E­co, Seia, Por­tu­gal, 2009). Rea­li­zou tam­bém a cur­ta-metra­gem
Pas­to­ral (2004), con­quis­tan­do os pré­mi­os de Melhor Cur­ta-Metra­gem no Cami­nhos do Cine­ma Por­tu­guês (Coim­bra, 2005) e a Men­ção Hon­ro­sa no Fan­tas­por­to (Por­to, 2005).
Esti­ve em Lis­boa e Lem­brei de Você é a sua pri­mei­ra lon­ga-metra­gem de fic­ção.

ENTREVISTA A JOSÉ BARAHONA

Foi após a lei­tu­ra do livro de Luiz Rufat­to que deci­dis­te fazer o fil­me Esti­ve em Lis­boa e Lem­brei de Você? O que mais te cati­vou e ins­pi­rou no livro?


Hou­ve vári­os aspe­tos que me cati­va­ram assim que li o livro. Pri­mei­ro o fac­to de o livro ser apre­sen­ta­do, na intro­du­ção, como um depoi­men­to dado por Sér­gio de Sou­za Sam­paio, o pro­ta­go­nis­ta, ao autor em Lis­boa e de o livro ser dedi­ca­do a um ami­go de Ruf­fa­to que lhe apre­sen­tou o Sér­gi­nho. Depois des­sa nota intro­du­tó­ria, o que se segue é uma supos­ta trans­cri­ção da entre­vis­ta dada por Sér­gio na
pri­mei­ra pes­soa. Isso dá ao rela­to um “selo” de vero­si­mi­lhan­ça. Mas … tra­ta-se de um roman­ce. Sér­gio
é uma pes­soa real? Não sei. Não impor­ta. Ele é um per­so­na­gem de um livro. Ora em cine­ma isso seria,
se fizés­se­mos uma trans­po­si­ção lite­ral, aqui­lo que cha­ma­mos de “fal­so docu­men­tá­rio”. Pode­ría­mos ima­gi­nar uma entre­vis­ta fei­ta por alguém, num pla­no clás­si­co de depoi­men­to de docu­men­tá­rio em
que um ator repre­sen­ta­ria esse rela­to. Ima­gi­nei ime­di­a­ta­men­te que esse rela­to seria entre­cor­ta­do com a recons­ti­tui­ção fic­ci­o­nal de algu­mas das cenas do livro cri­an­do assim um híbri­do entre o “fal­so docu­men­tá­rio” e a fic­ção. Tal­vez até mes­mo encon­trar alguém em Cata­gua­ses, cida­de natal de Sér­gi­nho, que qui­ses­se vir para Lis­boa e usar a sua vin­da, suas moti­va­ções e sonhos como ânco­ra do fil­me. Isso não veio a acon­te­cer pois a cri­se esta­va à por­ta em 2010/11, e o que acon­te­cia era que os bra­si­lei­ros que esta­vam em Lis­boa come­ça­vam a pen­sar no seu regres­so.

Depois o fac­to de eu, e mui­tos por­tu­gue­ses, sem­pre con­vi­ver­mos com pes­so­as com his­tó­ri­as de vida seme­lhan­tes: a imi­gra­ção de pes­so­as menos qua­li­fi­ca­das que tra­ba­lham em Lis­boa e nou­tras cida­des de Por­tu­gal em res­tau­ran­tes, bares, cafés, na cons­tru­ção civil, etc. Mas eu tinha mui­ta curi­o­si­da­de de saber como era a vida deles antes de che­ga­rem a Lis­boa. Dis­so eu pou­co sabia. Se por um lado hou­ve mui­tos bra­si­lei­ros que vie­ram para Lis­boa já com tra­ba­lho asse­gu­ra­do como publi­ci­tá­ri­os, arqui­te­tos ou outras pro­fis­sões, inclu­si­ve no audi­o­vi­su­al, estas pes­so­as mais humil­des sonha­vam com um Por­tu­gal e uma Lis­boa onde pode­ri­am cons­truir uma vida melhor. Isso intri­ga­va-me des­de há mui­to. Foi pre­ci­so come­çar a tra­ba­lhar no Bra­sil e a conhe­cer mais de per­to a sua rea­li­da­de para per­ce­ber que a misé­ria no Bra­sil é mui­to mais pro­fun­da e desu­ma­na que em Por­tu­gal. Quan­do esta­mos em Por­tu­gal temos ten­dên­cia a pen­sar que as coi­sas estão mui­to mal, que a vida é mui­to difí­cil eco­no­mi­ca­men­te, que é o pior país do mun­do. Não é. Mes­mo com a cri­se em Por­tu­gal, e mes­mo com todos os pro­gres­sos alcan­ça­dos pelas polí­ti­cas soci­ais dos últi­mos gover­nos no Bra­sil, infe­liz­men­te a misé­ria no Bra­sil é infi­ni­ta­men­te supe­ri­or à exis­ten­te em Por­tu­gal. O grau de pobre­za, de escra­vi­dão, de fome e de explo­ra­ção do homem pelo homem, as desi­gual­da­des e o abis­mo soci­al entre ricos e pobres é mui­to mai­or!
E final­men­te eu quis fazer des­te livro um fil­me por­que ele é de cer­ta for­ma um espe­lho de mim pró­prio. Dadas todas as dis­tân­ci­as que refe­ri ante­ri­or­men­te, eu esta­va nes­se momen­to a che­gar ao Bra­sil

como imi­gran­te por cau­sa da cri­se por­tu­gue­sa e por cau­sa da para­li­sia total na pro­du­ção de cine­ma que se deu nes­sa épo­ca. Essa des­lo­ca­ção, o estar fora do meu lugar é algo com que me iden­ti­fi­ca­va.
Eu pode­ria des­co­brir o pas­sa­do do pro­ta­go­nis­ta no Bra­sil, e retra­tar o estra­nha­men­to dele na cida­de onde vivi qua­se toda a minha vida.

Dizes que ao che­gar a Lis­boa a per­so­na­gem se deba­teu com uma rea­li­da­de dife­ren­te daque­la que sonha­ra. Com que Lis­boa sonha­va ele?

Não sei bem… não sei bem com o que sonha­mos quan­do par­ti­mos do nos­so lugar para um lugar que não o nos­so. Há um mito de Lis­boa, “a mag­ní­fi­ca” no ima­gi­ná­rio bra­si­lei­ro. O lugar onde tudo come­çou, as ori­gens, a arqui­te­tu­ra dos velhos pré­di­os lis­bo­e­tas que se pare­ce com as cida­des colo­ni­ais no Bra­sil. A Euro­pa, em geral, como um lugar mais tran­qui­lo, paci­fi­co. Para os indí­ge­nas o come­ço do fim.
O que che­ga ao Bra­sil não é a deca­dên­cia soci­al, eco­nó­mi­ca e polí­ti­ca que está a acon­te­cer em Por­tu­gal. Isso é uma coi­sa que acon­te­ce mui­to. O “quin­tal do vizi­nho é sem­pre melhor que o meu”. É pre­ci­so
viver num deter­mi­na­do lugar para per­ce­ber­mos os pro­ble­mas que aí exis­tem. Mas para os bra­si­lei­ros e por­tu­gue­ses, em geral, acho que exis­te a sen­sa­ção que, por cau­sa da lín­gua e das rela­ções his­tó­ri­cas,
será mais fácil encon­trar o nos­so lugar ao fazer essa tro­ca de país. Os bra­si­lei­ros, por terem sem­pre rece­bi­do e até sido inva­di­dos pelos por­tu­gue­ses, por terem graus de paren­tes­co fami­li­ar (qua­se todos
os bra­si­lei­ros têm algu­ma ascen­dên­cia por­tu­gue­sa pró­xi­ma), pen­sam que serão bem rece­bi­dos em Por­tu­gal. De algu­ma for­ma Por­tu­gal para os bra­si­lei­ros é um lugar onde tam­bém podem per­ten­cer. O que mui­tas vezes não é tão sim­ples assim. Além dis­so quan­do se vai para fora do nos­so país per­de­mos as nos­sas refe­rên­ci­as. E falo no plu­ral, por mim, pelo Sér­gio e pelos mui­tos imi­gran­tes que encon­trei e
entre­vis­tei na pes­qui­sa para este e outros fil­mes. Os ami­gos, a famí­lia e a cul­tu­ra ficam para trás. Não é fácil… Nun­ca é mui­to fácil. E há toda uma série de pro­ble­mas que podem acon­te­cer… No fun­do todos pro­cu­ra­mos uma vida melhor. Poder tra­ba­lhar e sus­ten­tar as nos­sas famí­li­as. Esse é o pon­to cen­tral daqui­lo que se pro­cu­ra, um sonho de uma vida melhor, num novo lugar onde se pos­sa per­ten­cer.

Pro­cu­ras­te pes­so­as que tinham his­tó­ri­as seme­lhan­tes às des­cri­tas no livro. Como foi essa pes­qui­sa?
Na ver­da­de eu fiz o cami­nho inver­so que o Luiz Ruf­fa­to fez. Ele deve ter encon­tra­do essas pes­so­as e trans­for­mou-as em per­so­na­gens do seu livro. Ou jun­tou his­tó­ri­as e cons­truiu as per­so­na­gens a par­tir
de vári­as pes­so­as com vidas seme­lhan­tes. Eu pro­cu­rei pes­so­as que tives­sem his­tó­ri­as de vida pare­ci­das com as que Ruf­fa­to des­cre­ve e trans­for­mei-as em per­so­na­gens do fil­me. Na ver­da­de, eu não que­ria que isso fos­se notó­rio no fil­me, mas isso vem um pou­co da minha expe­ri­ên­cia no docu­men­tá­rio.
A úni­ca dife­ren­ça é que em cena, mui­tas vezes, essas pes­so­as que repre­sen­tam elas pró­pri­as em vez de falar para mim, fora do qua­dro, falam para o Sér­gio. Por isso tam­bém ele é um espe­lho de mim
pró­prio. Por vezes, eu fica­va com o lugar do Pau­lo Aze­ve­do, o actor que inter­pre­ta o Sér­gio, e fica­va per­to dele e per­gun­ta­va coi­sas, ou segre­da­va ao seu ouvi­do as per­gun­tas que ele pode­ria fazer. Enfim,
o fil­me é mui­to híbri­do por­que mis­tu­ra mui­tas téc­ni­cas do docu­men­tá­rio e da fic­ção, ence­nan­do o docu­men­tá­rio como sem­pre fiz nos meus outros fil­mes. Não é mui­to impor­tan­te o pro­ces­so. Impor­ta que o resul­ta­do final é um tra­ba­lho con­jun­to para o qual todos con­tri­buí­ram. Não tem nada a ver com uma apro­xi­ma­ção à rea­li­da­de. A rea­li­da­de de um fil­me é o fil­me quan­do é vis­to.


Come­ças­te a tua pro­cu­ra em Cata­gua­ses, no entan­to não encon­tras­te nin­guém que tives­se par­ti­do.
Qual foi o pas­so seguin­te?

Encon­trar o ator per­fei­to para encar­nar o Sér­gio: o Pau­lo Aze­ve­do.

No iní­cio pen­sas­te em fazer um docu­men­tá­rio sobre o livro. O que te levou a mudar de ideia?


No iní­cio, pen­sei que iria usar mais a lin­gua­gem do que habi­tu­al­men­te cha­ma­mos docu­men­tá­rio. No entan­to, fui aban­do­nan­do a ideia a meio do pro­ces­so. Mas ape­nas apa­ren­te­men­te, como dis­se antes.
O fil­me pare­ce fic­ção, mas tem mui­to de docu­men­tal. Há um momen­to em que os fil­mes se liber­tam dos seus auto­res. Pelo menos, isso acon­te­ce comi­go e acon­te­ceu-me nes­te fil­me. O fil­me toma vida pró­pria, como se pedis­se para ser fei­to de uma deter­mi­na­da manei­ra, com uma deter­mi­na­da lin­gua­gem que já não somos nós que con­tro­la­mos. Ape­nas vamos atrás do fil­me e do que e
deman­da. Não sei expli­car… é como se cri­as­se a sua pró­pria dinâ­mi­ca da qual já não se pode esca­par. Isso é bom, por­que sig­ni­fi­ca que estás a tra­ba­lhar em algo con­sis­ten­te, algo que tomou um rumo mui­to deter­mi­na­do no qual as esco­lhas do rea­li­za­dor são de for­ma a seguir um rumo tra­ça­do. É o fil­me, são as ima­gens e os sons que ao serem mani­pu­la­dos na fil­ma­gem e na mon­ta­gem tomam for­ma que para o meu olhar só pode­ria ser aque­la.

Tra­ta-se de uma his­tó­ria bas­tan­te atu­al. A ida dos pobres para a Euro­pa. Que para­le­lis­mo fazes com a recen­te ques­tão dos refu­gi­a­dos?


Os refu­gi­a­dos, mais do que uma vida melhor, pro­cu­ram a sobre­vi­vên­cia. É um caso ain­da mais extre­mo. Uma guer­ra é algo sem expli­ca­ção e jus­ti­fi­ca­ção. No entan­to, sei ago­ra que mui­tas pes­so­as no Bra­sil vivem em luga­res de “qua­se-guer­ra”, que é o que acon­te­ce nas fave­las con­tro­la­das pelo trá­fi­co no Rio de Janei­ro, por exem­plo. Quan­do o trá­fi­co proí­be as pes­so­as de sair de casa num deter­mi­na­do dia, quan­do as pes­so­as não vão tra­ba­lhar num outro dia por cau­sa dos tiro­tei­os entre as vári­as fações rivais, isso é viver debai­xo de uma guer­ra. Conhe­ço pes­so­as que vivem essa situ­a­ção.
Então pode não ser tão dife­ren­te assim. E nós devía­mos ter essa cons­ci­ên­cia ao rece­ber os bra­si­lei­ros em Por­tu­gal. Todos os paí­ses deve­ri­am estar de bra­ços aber­tos uns para os outros em situ­a­ções de catás­tro­fe como a que se pas­sa ago­ra na Síria e com a che­ga­da de milha­res de pes­so­as à Euro­pa São ver­go­nho­sas as bar­rei­ras que se cri­am! Mas é uma rea­li­da­de. O que exis­te em comum é que, ao che­ga­rem e ao serem aco­lhi­dos (o que nem sem­pre acon­te­ce), eles vão pas­sar pelas mes­mas difi­cul­da­des que todos os outros imi­gran­tes pas­sam. Estes movi­men­tos de pes­so­as entre paí­ses (o Bra­sil rece­beu mui­tos por­tu­gue­ses por cau­sa da cri­se em Por­tu­gal) devem ensi­nar-nos algo que já deve­ría­mos ter apren­di­do, mas que mui­tas pes­so­as pare­cem ain­da não saber: que o mun­do é um só lugar, e que os homens tra­çam linhas ima­gi­ná­ri­as a que cha­mam fron­tei­ras. Deve­mos apren­der a ser tole­ran­tes, a rece­ber quem pre­ci­sa de aju­da. Mas isto pare­ce um dis­cur­so tão bási­co e tão óbvio que por esta altu­ra não deve­ria neces­si­tar de ser fei­to.

Infe­liz­men­te, a into­le­rân­cia reli­gi­o­sa e cul­tu­ral, o pre­con­cei­to e a xeno­fo­bia ain­da exis­tem nes­te nos­so
mun­do. Acho que isso é bem paten­te nes­te fil­me. Eu pude viven­ci­ar isso em Por­tu­gal com ami­gos e fami­li­a­res bra­si­lei­ros. Era tam­bém sobre isso que que­ria falar. Se nos vir­mos nes­se espe­lho que é o
cine­ma, se nos rir­mos de nós pró­pri­os, tal­vez na pró­xi­ma opor­tu­ni­da­de em que nos defron­te­mos com deter­mi­na­das situ­a­ções se pos­sa agir de manei­ra dife­ren­te. Mui­tas vezes o pre­con­cei­to é incons­ci­en­te, está enrai­za­do. E uma coi­sa é brin­car com as dife­ren­ças cul­tu­rais com um sor­ri­so nos lábi­os, outra é a
des­cri­mi­na­ção fei­ta de uma for­ma mais vio­len­ta.
Estes pro­ble­mas já devi­am estar ultra­pas­sa­dos no Séc. XXI. Temos ques­tões mais impor­tan­tes para resol­ver, como a fome, a misé­ria, a pobre­za, a guer­ra e um pla­ne­ta à bei­ra de uma catás­tro­fe ambi­en­tal!

EQUIPA

Rea­li­za­ção e Argu­men­to – JOSÉ BARAHONA

Foto­gra­fia – DANIEL COSTA NEVES

Som – PEDRO EARP

Mon­ta­gem – JOSÉ BARAHONA e PATRÍCIA SARAMAGO

Edi­ção de som e mis­tu­ras – TIAGO MATOS

Músi­ca – FELIPE AYRES

Pro­du­ção – CAROLINA DIAS (Refi­na­ria Fil­mes – Bra­sil)

Co-Pro­du­ção – FERNANDO VENDRELL (David & Goli­as – Por­tu­gal) e MÔNICA BOTELHO (Mutu­ca Fil­mes – Bra­sil)