A Academia, o Estudante e a sua Irreverência

cDe 1 de Abril a 6 de Maio, o Cen­tro de Estu­dos Cine­ma­to­grá­fi­cos irá exi­bir  diver­sas obras cine­ma­to­grá­fi­cas con­tem­po­râ­ne­as que melhor retra­tam os estu­dan­tes e a sua irre­ve­rên­cia, inse­ri­do no Pro­gra­ma Cul­tu­ral da Quei­ma das Fitas 2014.

O movi­men­to estu­dan­til sem­pre foi pau­ta­do pela irre­ve­rên­cia, boi­co­tes e mani­fes­ta­ções.
A agi­ta­ção soci­al da déca­da de 60, as suces­si­vas cri­ses nas uni­ver­si­da­des por­tu­gue­sas mar­ca­ram o rumo do País e des­po­le­ta­ram o ati­vis­mo juve­nil e a sua poli­ti­za­ção.
O objec­ti­vo des­te Ciclo de Cine­ma é cla­ro, revi­si­tar algu­mas lutas mar­can­tes por par­te dos estu­dan­tes, a intro­du­ção da mulher do mun­do aca­dé­mi­co, a agi­ta­ção estu­dan­til de Maio de 68, em Paris, os anos de con­vul­são estu­dan­til 1962 e 69, em Coim­bra e até às lutas con­tra o con­for­mis­mo da ins­ti­tui­ção esco­lar. Assim, ao lon­go de cin­co sema­nas ire­mos assis­tir a obras cine­ma­to­grá­fi­cas con­tem­po­râ­ne­as e assi­na­lar os 45 anos do 17 de Abril de 1969, dia em que o Pre­si­den­te da Direc­ção Geral da Asso­ci­a­ção Aca­dé­mi­ca de Coim­bra, Alber­to Mar­tins, foi impe­di­do de usar da pala­vra.

Programação:

Aber­tu­ra do ciclo com um dos fil­mes con­tem­po­râ­ne­os que apre­sen­ta mais refe­rên­ci­as cine­ma­to­grá­fi­cas clás­si­cas quan­to a lutas e revol­tas cul­tu­rais. Mas não são umas lutais quais­quer: são pro­ta­go­ni­za­das por estu­dan­tes, pela cama­da mais jovem da soci­e­da­de euro­peia e sedo­sa por abrir os hori­zon­tes aca­dé­mi­cos, reben­tan­do com os valo­res tra­di­ci­o­nais enrai­za­dos na nos­sa soci­e­da­de. Uma apren­di­za­gem entre os conhe­ci­men­tos euro­peus e ame­ri­ca­nos, numa con­ver­sa aber­ta entre cul­tu­ra e revo­lu­ção ence­ta­da pelos estu­dan­tes.

dreamers1 de Abril — Os Sonha­do­res de Ber­nar­do Ber­to­luc­ci
Títu­lo Ori­gi­nal: The Dre­a­mers
Rea­li­za­ção: Ber­nar­do Ber­to­luc­ci
Argu­men­to: Gil­bert Adair
Elen­co: Micha­el Pitt, Eva Gre­en, Louis Gar­rel
Dura­ção: 114’
Ano: 2003
Sinop­se: Os tumul­tos polí­ti­cos ocor­ri­dos em Paris em Maio de 68 são o cená­rio onde decor­re a his­tó­ria de três jovens cine­as­tas. Matthew, um jovem ame­ri­ca­no que vai estu­dar para Paris, tor­na-se ami­go de Theo e Isa­bel­le, dois irmãos fran­ce­ses que par­ti­lham o mes­mo gos­to pelo cine­ma.
Ao mes­mo tem­po que esta­la a agi­ta­ção estu­dan­til de Maio de 68, os três ami­gos desen­vol­vem uma rela­ção dife­ren­te de tudo o que Matthew algu­ma vez tinha expe­ri­men­ta­do…
Pen­sa-se que a mai­o­ria dos jovens adul­tos que estu­dam no ensi­no supe­ri­or são alhei­os ao que se pas­sa à sua vol­ta. Em ‘The Edu­ka­tors’ com­pro­va-se que é a par­tir da clas­se estu­dan­til que os ide­ais se come­çam a for­mar, onde o diá­lo­go polí­ti­co come­ça a sur­gir e a luta pelos desíg­ni­os come­ça.

260x365_519ebb567461d8 de Abril — Os edu­ka­do­res de Hans Wein­gart­ner
Títu­lo Ori­gi­nal: Die fet­ten Jah­re sind vor­bei
Rea­li­za­ção: Hans Wein­gart­ner
Argu­men­to: Hans Wein­gart­ner, Katha­ri­na Held
Elen­co: Burghart Klauß­ner, Dani­el Brühl, Julia Jents­ch, Lau­ra Sch­midt, Oli­ver Bröc­ker, Peer Mar­tiny, Petra Zie­ser, Sebas­ti­an Butz, Sti­pe Erceg
Pro­du­ção: Anto­nin Svo­bo­da, Hans Wein­gart­ner
Dura­ção: 126’
Ano: 2004
Sinop­se: Jan (Dani­el Brühl, de Adeus Lênin!), Peter (Sti­pe Erceg) e Jule (Julia Jents­ch) são três ami­gos inse­pa­rá­veis. Jan e Peter divi­dem o mes­mo apar­ta­men­to e uma mili­tân­cia polí­ti­ca bas­tan­te ori­gi­nal. Acre­di­tan­do que é indis­pen­sá­vel assu­mir algu­ma ati­tu­de para mudar o mun­do, os dois rapa­zes fazem bem mais do que par­ti­ci­par de todas as pas­se­a­tas anti­glo­ba­li­za­ção do calen­dá­rio. Clan­des­ti­na­men­te, inva­dem man­sões vazi­as, mudam de lugar todos os móveis e dei­xam atrás um mis­te­ri­o­so bilhe­te: “Seus dias de abun­dân­cia estão con­ta­dos”, assi­nan­do-o como “Os Edu­ka­do­res”. Para­le­la­men­te, Jule enca­ra pri­va­ções finan­cei­ras des­de que bateu seu car­ro no Mer­ce­des de um rica­ço, o empre­sá­rio Har­den­berg (Burghart Klauß­ner), e foi con­de­na­da a res­sar­ci-lo pelo carís­si­mo con­ser­to, o que ela con­si­de­ra uma tre­men­da injus­ti­ça.

Base­a­do no famo­so con­to da Prin­ce­sa de Clé­ves, que tam­bém Mano­el de Oli­vei­ra se terá influ­en­ci­a­do em ‘A Car­ta’, esta é uma das obras mais sin­gu­la­res de Hono­ré. Des­ta vez, mos­tra-nos o ambi­en­te estu­dan­til de den­tro, des­de a clas­se pro­fis­si­o­nal dos pro­fes­so­res e a sua influên­cia apai­xo­nan­te no con­tex­to estu­dan­til. Uma obra poé­ti­ca, de influên­cia qua­se oní­ri­ca, de recu­sa e cedên­cia a con­cei­tos tão bási­cos como o amor.

MV5BMTY2MTM0MjMxNF5BMl5BanBnXkFtZTcwOTU0MTAxMw@@._V1_SY317_CR4,0,214,317_22 de Abril — A Bela Junie de Chris­tophe Hono­ré
Títu­lo Ori­gi­nal: La bel­le per­son­ne
Rea­li­za­dor: Chris­tophe Hono­ré
Dura­ção: 90’
Ano: 2009
Sinop­se: Junie (Léa Sey­doux) é uma garo­ta de 16 anos que se mudou após a mor­te de sua mãe. Ela pas­sa a estu­dar na mes­ma tur­ma que seu pri­mo Matthi­as (Este­ban Car­va­jal-Ale­gria), que a apre­sen­ta aos demais cole­gas. Todos os garo­tos logo dese­jam sair com June, mas ela esco­lhe o mais cala­do de todos, Otto Clè­ves (Gré­goi­re Leprin­ce-Rin­guet). Porém logo Junie des­co­bre o gran­de amor de sua vida: Nemours (Louis Gar­rel), seu pro­fes­sor de ita­li­a­no.

 

O fute­bol repre­sen­tou um impor­tan­te papel num dos pou­cos gri­tos de revol­ta que con­se­gui­ram esca­par ao lápis azul da cen­su­ra.
O movi­men­to estu­dan­til e cri­ses aca­dé­mi­cas pelo pon­to de vis­ta dos joga­do­res da Aca­dé­mi­ca e a for­ma como estes con­tri­buí­ram e se envol­ve­ram na luta enquan­to estu­dan­tes e Homens. Assim, os prin­ci­pais des­ta­ques da nar­ra­ti­va são os anos de con­vul­são estu­dan­til 1962 e 69, os quais se com­ple­men­tam com o epi­só­dio de 1974, em que, como con­sequên­cia da revo­lu­ção de 25 de Abril e os seus valo­res con­du­to­res, a Sec­ção de Fute­bol da AAC é extin­ta.

futebol causas24 de Abril — Fute­bol de Cau­sas de Ricar­do Antu­nes Mar­tins + Mas­ter Ses­si­on: ‘A repre­sen­ta­ção das Cri­ses Aca­dé­mi­cas no Cine­ma’
Rea­li­za­ção: Ricar­do Antu­nes Mar­tins
Pro­du­tor: Antó­nio Fer­rei­ra e Tathi­a­ni Saci­lot­to
Direc­ção de Foto­gra­fia: Lee Fuze­ta
Músi­ca Ori­gi­nal: Luís Pedro Madei­ra
Pro­du­ção Exe­cu­ti­va: Antó­nio Fer­rei­ra
Che­fe de pro­du­ção: Inês Pra­ze­res
Mon­ta­gem: Lee Fuze­ta
Pro­du­to­ra: PERSONA NON GRATA
Ano: 2009
Ori­gem: Por­tu­gal
Sinop­se: O regi­me dita­to­ri­al vigen­te em Por­tu­gal, esten­deu-se duran­te gran­de par­te do sécu­lo XX. Coim­bra, como gran­de pólo uni­ver­si­tá­rio, viveu momen­tos de gran­de ten­são e incon­for­mis­mo, nos quais o seu movi­men­to aca­dé­mi­co de gran­de mobi­li­za­ção e agi­ta­ção, aca­ba­ram por desen­ca­de­ar e espo­le­tar soci­al­men­te o espí­ri­to da neces­si­da­de colec­ti­va de fazer cair o regi­me. Um dos prin­ci­pais mei­os de divul­ga­ção e pro­pa­gan­da dos estu­dan­tes e dos ide­ais revo­lu­ci­o­ná­ri­os e rei­vin­di­ca­ti­vos aca­dé­mi­cos resi­diu na sua equi­pa de fute­bol, a Asso­ci­a­ção Aca­dé­mi­ca de Coim­bra, como for­ma de fazer che­gar a men­sa­gem e cons­ci­en­ci­a­li­zar o mai­or núme­ro de pes­so­as. A Aca­dé­mi­ca trans­for­mou-se numa ban­dei­ra viva da luta estu­dan­til e deu voz ao acor­dar de um povo, sen­do o seu ‘toque a reu­nir’. Foi de res­to com o luto aca­dé­mi­co, em ple­na ‘cri­se de 69’, que se viveu o pon­to mais alto da posi­ção de for­ça estu­dan­til com a pre­sen­ça da Aca­dé­mi­ca na final da Taça de Por­tu­gal, na qual os joga­do­res, tam­bém eles estu­dan­tes e par­te acti­va na mili­tân­cia da cau­sa estu­dan­til, ade­ri­ram ao pro­jec­to, tor­nan­do aque­la final no Está­dio Naci­o­nal no mai­or comí­cio de sem­pre con­tra o regi­me. Este docu­men­tá­rio pre­ten­de mos­trar o movi­men­to estu­dan­til e cri­ses aca­dé­mi­cas pelo pon­to de vis­ta dos joga­do­res da Aca­dé­mi­ca e a for­ma como estes con­tri­buí­ram e se envol­ve­ram na luta enquan­to estu­dan­tes e Homens. As figu­ras cen­trais do docu­men­tá­rio serão con­co­mi­tan­te­men­te os diri­gen­tes estu­dan­tis e os joga­do­res da déca­da de 60, direc­ta­men­te envol­vi­dos no pro­ces­so.

E se as lutas aca­dé­mi­cas tam­bém se pas­sa­rem den­tro de nós? Este é um fil­me que nos mos­tra pri­mor­di­al­men­te dois pila­res de luta: a intro­du­ção da mulher do mun­do aca­dé­mi­co, ao mes­mo tem­po do seu fas­cí­nio pela sua liber­da­de de um mun­do à sua espe­ra. Esta­mos nos anos 1960s, onde a nos­sa pro­ta­go­nis­ta faz tudo para con­se­guir entrar em Oxford. Mas depois, o que será mais impor­tan­te: a vida aca­dé­mi­ca per se, ou a vida cul­tu­ral como um todo?

MV5BMTg4NjgzOTc0MF5BMl5BanBnXkFtZTcwOTc2OTE3Mg@@._V1_SX214_29 de Abril — Edu­ca­ção de Lone Scher­fig
Títu­lo Ori­gi­nal: Na Edu­ca­ti­on
Rea­li­za­dor: Lone Scher­fig
Argu­men­to: Lynn Bar­ber
Inter­pre­ta­ção: Carey Mul­li­gan, Peter Sars­ga­ard, Alfred Moli­na
Dura­ção: 100’
Ano: 2009
Sinop­se: Jenny (Carey Mul­li­gan), uma estu­dan­te bri­lhan­te que tem pres­sa de viver a vida adul­ta, conhe­ce David (Peter Sars­ga­ard), um homem ele­gan­te e mais velho. Ele a con­vi­da para conhe­cer o seu mun­do vibran­te, cheio de ami­gos de alta clas­se, clu­be de jazz, e leva Jenny a des­co­brir a pró­pria sexu­a­li­da­de. Será que ela vai dei­xar esse roman­ce atra­pa­lhar os seus pla­nos de estu­dar em Oxford, con­fir­man­do o receio de sua ori­en­ta­do­ra (Emma Thomp­son)? Um fil­me cati­van­te gra­ças à inte­li­gên­cia ao char­me e ao esti­lo da Ingla­ter­ra na déca­da de 1960.

O Ciclo encer­ra com um dos fil­mes mais para­dig­má­ti­cos da déca­da de 80, cri­an­do um enor­me con­sen­so à sua vol­ta. Um pro­fes­sor de lite­ra­tu­ra luta con­tra o con­for­mis­mo da ins­ti­tui­ção esco­lar e pelo inte­res­se dos seus alu­nos.
“Oh, Cap­tain, my Cap­tain”. São estas as pri­mei­ras pala­vras de Kea­ting os seus alu­nos. Kea­ting entra na pri­mei­ra aula a asso­bi­ar e leva os alu­nos até o cor­re­dor onde diz essas pala­vras inau­gu­rais. Ele tem uma abor­da­gem direc­ta, sem rodei­os. Logo de iní­cio, apre­sen­ta o essen­ci­al da sua men­sa­gem: “Car­pe diem. Apro­vei­tem o dia”.

260x365_519ebdc8a462c6 de Maio — Clu­be dos Poe­tas Mor­tos de Peter Weir
Títu­lo ori­gi­nal: Dead Poets Soci­ety
Rea­li­za­dor: Peter Weir.
Pro­du­to­res: Ste­ven Haft, Paul Jun­ger e Tony Tho­mas.
Pro­du­ção: Tou­chs­to­ne pic­tu­res, Sil­ver Scre­en Part­ners IV, Witt-Tho­mas Pro­duc­ti­on.
Argu­men­to: Tom Shul­man
Inter­pre­ta­ção: Ethan Haw­ke, Robert Sean Leo­nard e Robin Wil­li­ams
Ano: 1989
Ori­gem: Esta­dos Uni­dos da Amé­ri­ca
Dura­ção: 128’
Sinop­se: Quan­do John Kea­ting é admi­ti­do como novo pro­fes­sor de Inglês num pres­ti­gi­a­do e con­ser­va­dor colé­gio inter­no nor­te-ame­ri­ca­no, na déca­da de 50, os seus méto­dos de ensi­no pou­co con­ven­ci­o­nais irão revo­lu­ci­o­nar as tra­di­ci­o­nais prá­ti­cas cur­ri­cu­la­res. Com o seu talen­to e sabe­do­ria, Kea­ting ins­pi­ra os seus alu­nos a per­se­guir as suas pai­xões indi­vi­du­ais e tor­nar as suas vidas extra­or­di­ná­ri­as. Mas o sui­cí­dio de um dos alu­nos, mem­bro do “clu­be” que orga­ni­za­ram em cola­bo­ra­ção com o pro­fes­sor Kea­ting, vai aba­lar o “clu­be” e os seus mem­bros e obri­gar à iden­ti­fi­ca­ção dos cul­pa­dos. Kea­ting é expul­so da esco­la…

Convocatória de Plenário

Nos ter­mos do arti­go 17.º do Regu­la­men­to Inter­no, a Mesa do Ple­ná­rio do Cen­tro de Estu­dos Cine­ma­to­grá­fi­cos da Asso­ci­a­ção Aca­dé­mi­ca de Coim­bra (CEC/AAC) con­vo­ca todos os sóci­os ordi­ná­ri­os para um Ple­ná­rio a rea­li­zar-se no dia 27 de Mar­ço de 2014, pelas 19h00, no Mini-Audi­tó­rio Sal­ga­do Zenha, com a seguin­te ordem de tra­ba­lhos:

Pon­to 1
Mar­ca­ção de Elei­ções, de acor­do com a alí­nea a) do n.º 1 do arti­go 17.º

Pon­to 2
Dis­cus­são e Apro­va­ção do Regu­la­men­to Elei­to­ral, de acor­do com o n.º 6 do arti­go 13.

Pon­to 3
Outros Assun­tos.

De acor­do com o pon­to 1 do arti­go 18.º do Regu­la­men­to Inter­no, o Ple­ná­rio fun­ci­o­na­rá à hora mar­ca­da com quó­rum de 50 %. Caso tal não acon­te­ça, fun­ci­o­na­rá meia hora caso este­jam pre­sen­tes pelo menos 10% do núme­ro máxi­mo de votan­tes regis­ta­do nos últi­mos dois atos elei­to­rais para os órgãos da sec­ção.

Ghost Dog: The Way of the Samurai

O CEC apre­sen­ta nes­ta sema­na mais uma das suas crí­ti­cas cine­ma­to­grá­fi­cas das revis­tas Apo­ka­lip­se. Publi­ca­mos um tex­to do sócio Bru­no Dias sobre o fil­me “Ghost Dog: The Way of the Samu­rai” do rea­li­za­dor Jim Jar­mus­ch, no núme­ro 29, da Revis­ta Apo­ka­lip­se (2001).

 

Ghost Dog, 1999

MV5BNDI0NTkzNDMxNV5BMl5BanBnXkFtZTYwODA1MDY5._V1_SX214_O fil­me ini­cia-se com músi­ca rap que com­bi­na bem com a flui­dez dos pla­nos-sequên­cia pica­dos que mos­tram a cida­de e se mis­tu­ram com outros pla­nos-sequên­cia con­tra-pica­dos onde se vê pom­bos a esvo­a­çar. Um dos “afi­lha­dos” esta­va com Loui­se (Tri­cia Ves­sey), que era a sobri­nha do “padri­nho” Ray Var­go inter­pre­ta­do por Henry Sil­va. Tinha de ser por isso cas­ti­ga­do e para exe­cu­tar esses cas­ti­gos Louie (John Tor­mey) tinha o Ghost Dog. Louie não enten­dia mui­to bem a dedi­ca­ção de Whi­ta­ker para con­si­go, sabia ape­nas que ela se devia ao fac­to de em tem­pos ele o ter sal­vo das mãos de uns racis­tas que o esta­vam a espan­car. Whi­ta­ker vive só para si e para o seu senhor. A sua mis­são enquan­to samu­rai é defen­der e ser­vir o seu senhor. A sua efi­cá­cia e des­cri­ção tor­nam-no qua­se insubs­ti­tuí­vel para Louie.

O códi­go dos “padri­nhos” exi­ge no entan­to que o estra­nho que matou um deles seja puni­do. Ao deci­di­rem assim vão pro­vo­car uma fusão entre dois mun­dos dis­tan­tes até ai liga­dos tenu­a­men­te por pom­bos cor­reio. A comu­ni­ca­ção entre Louie e Ghost Dog é fei­ta atra­vés des­ses pom­bos. Whi­ta­ker é pra­ti­ca­men­te invi­sí­vel para eles pois o seu mes­tre não sabe sequer onde ele mora.
São os ita­li­a­nos que ini­ci­am as hos­ti­li­da­des. As acções desen­ca­de­a­das por eles são total­men­te desor­ga­ni­za­das e ama­do­ras indo ao pon­to de matar o homem erra­do. Aca­bam, na inca­pa­ci­da­de de atin­gi­rem o seu objec­ti­vo, por mata­rem os pom­bos dele. Quan­do Whi­ta­ker che­ga ao ter­ra­ço onde mora­va encon­tra ape­nas o silên­cio, des­trui­ção e o vazio. O seu col­chão esta­va man­cha­do com o san­gue de um pom­bo que nela jazia.

download (1)O lan­ce deles esta­va rea­li­za­do, era ago­ra a vez de Ghost Dog. À inép­cia e pai­xão dos pri­mei­ros vai Whi­ta­ker opor a fri­e­za do seu méto­do e a sua efi­ci­ên­cia abso­lu­ta que são exem­plar­men­te mos­tra­dos na for­ma como ele eli­mi­na Sonny Vale­rio (Cliff Gor­man). Ghost Dog apon­ta a mira laser da sua arma na tes­ta de Sonny, que se aper­ce­be de uma luz ver­me­lha vin­da do ralo do lava­tó­rio. Dis­pa­ra então um tiro que pas­sa atra­vés do cano do lava­tó­rio atin­gin­do-o, pro­por­ci­o­nan­do um pla­no vio­len­to mas com uma bele­za per­tur­ban­te da mis­tu­ra do bran­co da bacia e do ver­me­lho do san­gue.

Com a invi­si­bi­li­da­de que o carac­te­ri­za e uma arma mais sofis­ti­ca­da Whi­ta­ker pre­ci­pi­ta-se sobre aque­les que per­tur­ba­ram a sua paz. O cume da sua repre­sá­lia dá-se no assas­si­na­to Ray Var­go de uma for­ma sim­ples e fria. Ray quan­do vê Ghost Dog entrar na sua sala levan­ta-se da pol­tro­na, abo­toa o cole­te e pre­pa­ra-se para ir ter uma con­ver­sa de cava­lhei­ros com ele, e espe­ra que este o reco­nhe­ça, tal como nós, como um sím­bo­lo de poder. É hábi­to dizer que para ser­mos con­vin­cen­tes no papel de lide­res ou reis, os que nos acom­pa­nham tem de nos tra­tar como tal. Até esse momen­to todos os seus “afi­lha­dos” o tra­ta­vam assim. É Whi­ta­ker que igno­ran­do esse esta­tu­to esti­lha­ça a ordem apa­ren­te­men­te sóli­da daque­la famí­lia.

O caos dai resul­tan­te, bem espe­lha­do na face de Loui­se Var­go quan­do Ghost Dog se vira para ela depois do assas­sí­nio de Ray, pre­ci­sa de ter o seu fim. Sob pena de ser a cau­sa da extin­ção do clã se nada se fizer. Para isso é neces­sá­rio um novo líder para reor­ga­ni­zar as estru­tu­ras de poder. Temos então no fim um due­lo ao esti­lo do velho oes­te com direi­to a uma cita­ção ciné­fi­la ao fil­me “High Noon”. Tra­ta-se porém de uma sub­ver­são, pois no Oes­te o due­lo final seria o pon­to de inten­si­da­de máxi­ma onde a des­tre­za e a cora­gem dos “cow­boys” seria pos­ta à pro­va. Nada dis­so acon­te­ce aqui, pois Ghost Dog sim­ples­men­te ati­ra com a sua arma para o chão. A sua con­di­ção de samu­rai impe­de-o de aten­tar con­tra o seu senhor, e é exac­ta­men­te Louie que está à sua fren­te. Este porém não tem pro­ble­mas de cons­ci­ên­cia em ati­rar con­tra ele dei­xan­do-o esten­di­do na estra­da a escor­rer san­gue tal como ante­ri­or­men­te tinham fica­do os seus pom­bos.

images (3)Este fil­me baseia-se essen­ci­al­men­te na inca­pa­ci­da­de de com­pre­en­der os códi­gos pelos quais os outros se regem. Dis­so resul­tou a vio­lên­cia entre Whi­ta­ker e o clã ita­li­a­no; as difi­cul­da­des de comu­ni­ca­ção entre o ven­de­dor de gela­dos Ray­mond, inter­pre­ta­do por Isa­a­ch De Ban­ko­lé, e Whi­ta­ker por fala­rem lín­guas dife­ren­tes. O fac­to do pró­prio Ghost Dog con­si­de­rar esse homem o seu melhor ami­go mos­tra bem a soli­dão e dedi­ca­ção des­te para com o seu mes­tre. Porém entre Ghost Dog e Ray­mond essa falha de comu­ni­ca­ção é com­pen­sa­da por ges­tos de ami­za­de que per­mi­tem que eles se enten­dam. Whi­ta­ker só tem uma rela­ção nor­mal com uma rapa­ri­ga cha­ma­da Pear­li­ne (Camil­le Win­bush) que esta­be­le­ce con­tac­to com ele.

Ao lon­go do fil­me enquan­to se desen­vol­vem as peri­pé­ci­as vamos assis­tin­do a uma par­ti­da de xadrez entre Ghost Dog e Ray­mond. Ambos jogam segun­do as mes­mas regras, o que lhes per­mi­te enten­de­rem-se e des­fru­tar do jogo sem desen­ten­di­men­tos.
Está assim sub­ja­cen­te a este fil­me uma metá­fo­ra sobre a impos­si­bi­li­da­de de enten­di­men­to entre os seres huma­nos se estes não par­ti­lha­rem entre si um res­pei­to e com­pre­en­são mutuo pela cul­tu­ra e tra­di­ção uns dos outros.

Bru­no Dias

SNATCH – Porcos e Diamantes

Esta sema­na vol­ta­mos a publi­car uma crí­ti­ca cine­ma­to­grá­fi­ca do sócio João Vaz Sil­va, des­ta vez sobre o fil­me Snat­ch — Por­cos e Dia­man­tes de Guy Richie, pre­sen­te no núme­ro 28 da revis­ta Apo­ka­lip­se (2001).

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Guy Richie é o nome do rea­li­za­dor bri­tâ­ni­co reco­nhe­ci­do por «Um Mal Nun­ca Vem Só», uma inte­res­san­te pri­mei­ra obra. Guy Richie é tam­bém o nome do cida­dão bri­tâ­ni­co conhe­ci­do por ser o actu­al com­pa­nhei­ro sen­ti­men­tal de Madon­na. «Snat­ch» é o nome do segun­do fil­me de Richie no qual este adop­ta o mes­mo esque­ma uti­li­za­do no ante­ri­or, isto é, mui­tas per­so­na­gens de carac­te­rís­ti­cas duvi­do­sas ati­ra­das para o sub­mun­do lon­dri­no num jogo de gato e rato reple­to de humor e vio­lên­cia. Ora, tal opção não o pre­ju­di­ca mini­ma­men­te e reve­la-se bas­tan­te efi­caz.

De fac­to, se «Um Mal Nun­ca Vem Só» pas­sou um pou­co des­per­ce­bi­do no cir­cui­to comer­ci­al, este «Snat­ch» pare­ce que­rer inver­ter a ten­dên­cia. Bas­ta dizer que no elen­co figu­ra o nome de Brad Pitt e que o núme­ro de cópi­as dis­po­ní­veis no nos­so país é bas­tan­te supe­ri­or, Tur­co (Jason Statham) é um empre­sá­rio de boxe clan­des­ti­no envol­vi­do com dois homens de res­pei­to: “Mona de Tijo­lo” (Alan Ford), o ter­rí­vel patrão do cri­me orga­ni­za­do e Mic­key O´Neill (Brad Pitt), um com­ba­ten­te ciga­no. “Mona de Tijo­lo” for­ça o Tur­co a con­ven­cer Mic­key a entrar num com­ba­te vici­a­do, mas o ciga­no, que quer uma cara­va­na nova para a mãe, não é fácil de con­ven­cer.

Entre­tan­to, Pri­mo Avi (Den­nis Fari­na), um mafi­o­so ame­ri­ca­no desem­bar­ca em Lon­dres para encon­trar um dia­man­te vali­o­so que Fran­kie “Qua­tro Dedos” (Beni­cio Del Toro) não lhe entre­gou. A Con­fu­são está lan­ça­da.
Uti­li­za­do com veí­cu­lo um dia­man­te de 84 qui­la­tes, «Snat­ch» par­te para uma atri­bu­la­da odis­seia atra­vés das máfia ingle­sa ten­do como cená­rio o mun­do dos com­ba­tes de boxe clan­des­ti­nos. O fil­me mis­tu­ra gangs­ters mafi­o­sos, ciga­nos irlan­de­ses, rus­sos pode­ro­sos e viga­ris­tas negros (e cobar­des) numa tra­ma bas­tan­te coe­ren­te. Guy Rit­chie apos­ta for­te na cari­ca­tu­ra ao com­por­ta­men­to das per­so­na­gens o que lhe per­mi­te um alto grau de comi­ci­da­de. Ao mes­mo tem­po lan­ça pis­tas para unir os dife­ren­tes qua­dros da acção à tra­ma prin­ci­pal que envol­ve o dia­man­te.

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O úni­co gran­de defei­to de «Snat­ch» é o fac­to de recor­rer dema­si­a­do a idei­as de outras obras do géne­ro (leia-se «Pulp-Fic­ti­on» e Cães Dana­dos»). Há situ­a­ções niti­da­men­te decal­ca­das dos fil­mes de Quen­tin Taran­ti­no além de as cenas de luta serem core­o­gra­fa­das ao esti­lo de John Woo. Não obs­tan­te, o segun­do fil­me de Rit­chie pro­cu­ra mais a recri­a­ção do que o plá­gio. A pri­mei­ra gran­de dife­ren­ça vai para o espa­ço físi­co: Lon­dres subs­ti­tui a cida­de de Nova Ior­que. Depois, a rea­li­za­ção e a pró­pria mon­ta­gem reve­lam-se bas­tan­te dis­tin­tas das “taran­ti­nes­cas”, assen­tan­do mais um rit­mo fre­né­ti­co e em ima­gens vir­tu­ais mar­can­tes, fru­to de tra­ba­lhos ante­ri­o­res de Guy Rit­chie nos mean­dros da publi­ci­da­de e dos vide­o­clips. À excep­ção da per­so­na­gem Tony “Den­tes de Bala” (inter­pre­ta­da pelo ex-fute­bo­lis­ta Vin­nie Jones) que se asse­me­lha um pou­co à de Samu­el L. Jack­son em «Pulp Fic­ti­on», todas as outras são com­ple­ta­men­te ori­gi­nais. Curi­o­sa é apa­ri­ção de Brad Pitt que se reve­la ful­cral e sur­giu por ini­ci­a­ti­va do pró­prio que che­gou a bai­xar o seu cachet habi­tu­al para entrar no fil­me.
Sota­ques imper­cep­tí­veis, por­cos que comem car­ne huma­na e um cão que chia são alguns dos mui­tos ele­men­tos que pro­por­ci­o­nam cer­ca de duas horas de boa dis­po­si­ção. «Snat­ch» cons­ti­tui um ver­da­dei­ro delí­rio cine­ma­to­grá­fi­co que, apoi­a­do num sem núme­ro de influên­ci­as, resul­ta bem como entre­te­ni­men­to.

João Vaz Sil­va

A RAIZ DO CORAÇÃO de Paulo Rocha

O CEC apre­sen­ta esta sema­na um tex­to do sócio João Vaz Sil­va. A crí­ti­ca cine­ma­to­grá­fi­ca ao fil­me A raiz do Cora­ção de Pau­lo Rocha este­ve pre­sen­te no núme­ro 29 da Revis­ta Apo­ka­lip­se (2001).

A RAIZ DO CORAÇÃO de Paulo Rocha

 

a-raiz-do-coracaoAntes de estre­ar o seu fil­me sobre o Por­to para a Capi­tal Euro­peia da Cul­tu­ra, Pau­lo Rocha apre­sen­ta «A Raiz do Cora­ção», uma obra cor­ro­si­va e trans­gres­so­ra roda­da em Lis­boa.

Acen­tu­an­do bem a pre­sen­ça de um gru­po de tra­ves­tis e drag que­ens, o rea­li­za­dor por­tu­en­se fil­ma uma espé­cie de musi­cal extre­ma­men­te colo­ri­do que par­te de uma ideia da sua auto­ria que con­ta já com mais de dez anos. O resul­ta­do é, na ver­da­de, sur­pre­en­den­te.

Decor­re o ano de 2010 e Lis­boa cele­bra as Fes­tas de Sto. Antó­nio. Ao mes­mo tem­po, Catão, polí­ti­co cor­rup­to, pros­se­gue a sua cam­pa­nha para a Câma­ra da Cida­de. Síl­via, um jovem tran­se­xu­al, con­ti­nua a resis­tir ao assé­dio do can­di­da­to ao poder. Enquan­to isso, um gru­po de tra­ves­tis tor­na-se víti­ma de uma cer­ra­da per­se­gui­ção poli­ci­al.

Apre­sen­ta­do como uma fan­ta­sia musi­cal, «A Raiz do Cora­ção» é um objec­to de cine­ma poli­ti­ca­men­te incor­rec­to e dota­do de uma enor­me cono­ta­ção sexu­al. A pre­do­mi­nân­cia das mino­ri­as mal­tra­ta­das é notó­ria num fil­me onde exis­tem pou­cas mulhe­res. Em des­ta­que, estão os tra­ves­tis, os res­pon­sá­veis pelo bulí­cio nas fes­tas da cida­de e, ao mes­mo tem­po, pelo seu carác­ter “irre­al”.

Em ter­mos visu­ais, «A Raiz do Cora­ção» é bas­tan­te mar­can­te: tan­to as cenas de exte­ri­or como as de inte­ri­or são cap­ta­das de for­ma ima­gi­na­ti­va e, ao con­trá­rio dos fil­mes ante­ri­o­res, recor­re mui­tas vezes a ima­gens em vídeo digi­tal. No que diz res­pei­to à ban­da-sono­ra, demons­tra ser essen­ci­al numa obra reple­ta de can­ções. Os temas que sur­gem no fil­me inter­pre­ta­dos pelos acto­res (e não só) têm letra de Regi­na Gui­ma­rães e músi­ca de José Mário Bran­co, o mes­mo que par­ti­ci­pa­ra no ante­ri­or «Rio do Ouro». Na ver­da­de, esta é uma obra que flui atra­vés da músi­ca e mes­mo as cenas de luta sur­gem core­o­gra­fa­das.

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Para dar às per­so­na­gens que com­põem este autên­ti­co bai­le de más­ca­ras, Pau­lo Rocha con­ta com um exten­so elen­co do qual se des­ta­ca cla­ra­men­te Luís Miguel Cin­tra que inter­pre­ta qua­tro per­so­na­gens – Catão, Sto. Antó­nio (o real e o impos­tor) e um tra­ves­ti negro. Na pele de Síl­via, encon­tra-se Joa­na Bár­cia e como Vicen­te, o polí­cia pro­vin­ci­a­no, está Mel­vil Pou­paud, um actor fran­cês que tra­ba­lhou com Raul Ruiz e Eric Roh­mer. A ine­vi­tá­vel Isa­bel Ruth sur­ge como Ju, a dona da Pho­to Fran­çai­se, lugar estra­té­gi­co para o negó­cio da por­no­gra­fia e chan­ta­gem polí­ti­ca.

A Raiz do Cora­ção” não é o melhor fil­me de Pau­lo Rocha ape­nas por ser dema­si­a­do pre­ten­si­o­so. Con­tu­do, cons­ti­tui mais um exce­len­te con­tri­bu­to para o cine­ma Por­tu­guês que con­se­gue, cada vez mais, mar­car a dife­ren­ça pela sua espe­ci­fi­ci­da­de e ino­va­ção cons­tan­tes. Quer a pre­to quer a cores mais vivas.

João Vaz Sil­va

Cineclube Universitário de Coimbra