Balanço de 2010 \ O Ano da Secção.

Fin­dan­do o ano é tem­po de efec­tu­ar balan­ços. O Cen­tro de Estu­dos Cine­ma­to­grá­fi­cos está nes­te momen­to a meio do man­da­do que nos últi­mos anos mais acti­vi­da­des rea­li­zou para­le­la­men­te ao gran­de even­to cul­tu­ral da Aca­de­mia Coim­brã que é o Fes­ti­val Cami­nhos do Cine­ma Por­tu­guês.

Pode não pare­cer, mas toda a pre­pa­ra­ção de um even­to com tal enver­ga­du­ra neces­si­ta de um ano intei­ro de tra­ba­lho, em que são defi­ni­das as par­ce­ri­as, as acti­vi­da­des, as iden­ti­da­des grá­fi­cas, os cola­bo­ra­dos, …, enfim todo o cami­nho que per­mi­tiu que este ano cer­ca de 9100 espec­ta­do­res tives­sem direi­to a todo o cine­ma Por­tu­guês ao lon­go de dez dias no Tea­tro Aca­dé­mi­co de Gil Vicen­te. Da Ani­ma­ção à Lon­ga Metra­gem, peque­nos e graú­dos aju­da­ram a fazer a mai­or fes­ta de Cine­ma Por­tu­guês de sem­pre.

Mui­tos foram os cami­nhos que per­mi­ti­ram que a sec­ção não fos­se do ano, mas sim que fos­se o ano da sec­ção se afir­mar nova­men­te como cen­tro pro­du­tor de audi­o­vi­su­al, quer ao lon­go do actu­al man­da­to, que o rela­tó­rio de acti­vi­da­des é aqui ane­xa­do, como no final do ante­ri­or man­da­to que em auto-ges­tão, pro­du­ziu um epi­só­dio pilo­to do pro­gra­ma de cine­ma “Os Sus­pei­tos do Cos­tu­me”, rea­li­zou a pós-pro­du­ção da média metra­gem de Rodri­go Seco Lopes e José Fer­nan­des.

Além da re-acti­va­ção da pro­du­ção além cami­nhos, foi tam­bém um ano em que se reac­ti­vou a for­ma­ção inter­na e fei­ta de for­ma mais con­tí­nua e menos inten­si­va. Nes­ta for­ma­ção em téc­ni­ca e pro­du­ção de vídeo foram abor­da­das temá­ti­cas téc­ni­cas, assim como exer­cí­ci­os prác­ti­cos de mon­ta­gem e pro­du­ção de vídeo.

Sobre o Artigo d’”A Cabra” : “DG/AAC negoceia estatuto para alunos de secções culturais”

Na edição do Jornal A Cabra expressa-se que “(…) se calhar, será difícil quantificar o trabalho que se faz numa secção, por exemplo, como o Centro de Estudos Cinematográficos.” Miguel Portugalagradecemos em nome da secção a visão de trabalho inquantificável que a DG/AAC possui sobre o trabalho da mesma! Será necessário acrescentar inqualificável?”

Filme do desassossego, novo filme de João Botelho

O cine­as­ta por­tu­guês João Bote­lho estreia no pró­xi­mo dia 29 de Setem­bro, no Cen­tro Cul­tu­ral de Belém (CCB), o seu novo e mui­to aguar­da­do «Fil­me do Desas­sos­se­go», uma lei­tu­ra da obra de Ber­nar­do Soa­res.
Dadas as carac­te­rís­ti­cas intrín­se­cas da geni­al obra, é opi­nião cor­ren­te que se tra­ta de algo intrans­po­ní­vel para o cine­ma. João Bote­lho, num lon­go e mui­to pes­so­al pro­jec­to, ousou de for­ma pou­co con­ven­ci­o­nal apre­sen­tar ao públi­co por­tu­guês a sua visão.
O fil­me, que con­ta com as par­ti­ci­pa­ções de Cláu­dio Sil­va, Rita Blan­co, Ale­xan­dra Len­cas­tre, Miguel Gui­lher­me, Cata­ri­na Wal­lens­tein, Cae­ta­no Velo­so, Lula Pena e a fadis­ta Car­mi­nho; não será exi­bi­do, por exi­gên­cia do rea­li­za­dor, em qual­quer sala de cine­ma nos cen­tros comer­ci­ais. A estreia no Bra­sil ocor­re­rá na 34ª Mos­tra Inter­na­ci­o­nal de Cine­ma de São Pau­lo (Bra­sil) que ocor­re­rá entre 22 de Outu­bro e 4 de Novem­bro.

Fon­te

Brothers — Entre Irmãos — 2009

Tommy, Gra­ce, Sam. Brothers apre­sen­ta-nos três per­so­na­gens de uma tra­di­ci­o­nal famí­lia ame­ri­ca­na de for­tes con­tras­tes. Sam (Jake Gyl­le­nhall) é um mili­tar lou­va­do que está pres­tes a par­tir para o Afe­ga­nis­tão. Gra­ce (Nata­lie Port­man) é a espo­sa de Sam, com as suas duas filhas, Isa­bel­le e Gra­ce, vê par­tir o seu mari­do para uma mis­são mili­tar, ao pas­so que nos é apre­sen­ta­do Tommy (Tobey Magui­re, nome­a­do para um glo­bo de ouro). Tommy é o irmão de Sam aca­ba­do de sair em liber­da­de con­di­ci­o­nal, sol­tei­rão e irres­pon­sá­vel. É uma famí­lia de con­tras­tes, mol­da­da pela guer­ra do Viet­nam, onde o pai de ambos lutou pelos inte­res­ses ame­ri­ca­nos, com as reper­cus­sões clás­si­cas dos trau­mas de guer­ra des­car­re­ga­dos em ambi­en­te fami­li­ar desen­vol­ven­do-se as dife­ren­ças que exis­tem entre Sam e Tommy. Este é o mote de Brothers, os lados e os con­tras­tes de cada famí­lia e a capa­ci­da­de de nos des­cons­truir­mos e renas­cer­mos.

Intro­du­zin­do um pou­co nar­ra­ti­va des­te fil­me, Sam par­te para o Afe­ga­nis­tão em mis­são mili­tar pou­co após o regres­so de Tommy à soci­e­da­de. Tommy é vis­to como um boé­mio que nada lhe inte­res­sa, até que suce­de uma tra­gé­dia que afec­ta toda a famí­lia, a que­da do heli­cóp­te­ro de Sam, onde todos os “mari­nes” são dados como mor­tos. Toda a famí­lia sofre com a per­ca de Sam, mas esta é a dei­xa de Tommy para res­sus­ci­tar e se mos­trar como ele­men­to cen­tral e reu­ni­fi­ca­dor de uma famí­lia des­tro­ça­da por tama­nha efe­mé­ri­de. Tommy aju­da a sua cunha­da, a supe­rar as difi­cul­da­des em casa, remo­de­lan­do a cozi­nha e simul­ta­ne­a­men­te apro­xi­man­do-se de Gra­ce, até ao momen­to que se bei­jam. Tommy pas­sa a ser o ele­men­to que intro­duz ale­gria e vida à nar­ra­ti­va nes­ta altu­ra, ao con­trá­rio do que suce­dia no ini­cio des­ta lon­ga-metra­gem ain­da que não seja a expres­si­vi­da­de des­te que muda, mas sim todas as reac­ções das per­so­na­gens peran­te ele. Sam por outro lado, é nova­men­te intro­du­zi­do como um pri­si­o­nei­ro de guer­ra jun­ta­men­te com o seu con­ter­râ­neo Joe Wil­lis (Patrick Flu­e­ger) onde sofrem as repre­sá­li­as de um gru­po tali­bã até que Sam é for­ça­do a trair o seu país e a si mes­mo. As cenas no Afe­ga­nis­tão con­tem uma for­te car­ga dra­má­ti­ca mui­to pre­sen­te na foto­gra­fia do fil­me, tor­nan­do-o den­so, tal e qual o espí­ri­to da per­so­na­gem. Esta trai­ção leva Sam a cons­tan­te­men­te pro­cu­rar a trai­ção em todos os ele­men­tos da sua famí­lia, que em ciú­mes do seu irmão, não supor­ta toda a dinâ­mi­ca que ele con­se­guiu cri­ar numa famí­lia onde ele já não se encon­tra inse­ri­do psi­co­lo­gi­ca­men­te.

Nata­lie Port­man e Jake Gyl­le­nhall em Brothers (2009)

Do pon­to de vis­ta téc­ni­co, Jim She­ri­dan apre­sen­ta-nos um rema­ke de Brø­dre (Susa­ne Bier, 2004), um fil­me dina­marquês, um fil­me sobre os trau­mas psi­co­ló­gi­cos e as con­sequên­ci­as que os con­fli­tos mili­ta­res têm sobre os sol­da­dos e suas famí­li­as. Não con­se­guin­do supe­rar a cri­a­ti­vi­da­de do fil­me ori­gi­nal, tam­bém não se apre­sen­ta como um mau rema­ke, sen­do notó­ria a sen­si­bi­li­da­de visu­al ao lon­go do fil­me. A foto­gra­fia de Fre­de­rick Elmes é con­gru­en­te com os esta­dos de espí­ri­to das per­so­na­gens, sen­do tra­ba­lha­da ao deta­lhe. Exem­plos dis­so são as cenas em que a rela­ção de Tommy e Gra­ce é fru­tu­o­sa, esta­be­le­cen­do-se uma ima­gem vibran­te e sua­ve e tam­bém as cenas no Afe­ga­nis­tão, em que o deta­lhe de uma ima­gem áspe­ra, pou­co satu­ra­da nos rele­ga para a fri­e­za do con­fli­to arma­do e dos ins­tin­tos bási­cos do ser huma­no enquan­to ani­mal. A exce­len­te ban­da sono­ra de Tho­mas New­man esta­be­le­ce um exce­len­te para­le­lo com o visu­al ao lon­go des­ta nar­ra­ti­va, acom­pa­nhan­do todo o dra­ma­tis­mo exis­ten­te de for­ma con­gru­en­te, colo­can­do a tri­lha com­pos­ta com a cola­bo­ra­ção de Bono (Win­ter), como a cere­ja em cima de um bolo. Toda a soma dos actos de Sam após o seu regres­so aca­ba num gran­de ecran pre­to musi­ca­do, dei­xan­do o espec­ta­dor reflec­tir sobre a obra cine­ma­to­grá­fi­ca.

7.6/10

Cineasta francês Claude Chabrol faleceu aos 80 anos

O cine­as­ta fran­cês Clau­de Cha­brol, fale­ceu hoje, em Paris, aos 80 anos. Em decla­ra­ções à Lusa a actriz e rea­li­za­do­ra Inês de Medei­ros lem­bra um homem que “tinha um amor abso­lu­to pela vida e pelo cine­ma”.
“Para mim ele repre­sen­ta sobre­tu­do o amor abso­lu­to pelo cine­ma. Tinha uma neces­si­da­de abso­lu­ta de fil­mar, de retra­tar uma cer­ta soci­e­da­de”, apon­tou, a pro­pó­si­to do desa­pa­re­ci­men­to des­ta impor­tan­te figu­ra da Nou­vel­le Vague fran­ce­sa, a par de rea­li­za­do­res como Fran­çois Truf­faut e Jean-Luc Godard.Inês de Medei­ros des­ta­cou a “vas­ta obra” dei­xa­da por Clau­de Cha­brol e tam­bém o fac­to do cine­as­ta se ter espe­ci­a­li­za­do em temá­ti­cas mui­to pró­pri­as, como a da cru­el­da­de no seio fami­li­ar, e nos mei­os soci­ais mais fecha­dos”.

Ele era tam­bém um bon vivant, gos­ta­va de comer bem e de beber bem. Ama­va tan­to a vida como o cine­ma”, des­cre­veu a auto­ra do docu­men­tá­rio “Car­tas a uma dita­du­ra” (2006).

Inês de Medei­ros real­çou igual­men­te o “tra­ba­lho extra­or­di­ná­rio” de Clau­de Cha­brol com algu­mas actri­zes, dan­do o exem­plo de Isa­bel­le Hup­pert, com quem tra­ba­lhou mui­to no final da vida, em fil­mes como “La Cére­mo­nie”, onde con­tra­ce­na com a actriz fran­ce­sa San­dri­ne Bon­nai­re.

Des­ta­cou ain­da a impor­tân­cia do rea­li­za­dor nas­ci­do em Paris, a 24 de Julho de 1930, no qua­dro do movi­men­to da Nou­vel­le Vague, “mas com um tra­ba­lho numa ver­ten­te mais roma­nes­ca”.

Sobre as influên­ci­as de Cha­brol no cine­ma por­tu­guês, Inês de Medei­ros ava­li­ou que “é per­cep­tí­vel” em rea­li­za­do­res como Fer­nan­do Lopes, “num cer­to olhar sobre a média e alta bur­gue­sia e até os segre­dos fami­li­a­res”.

Clau­de Cha­brol rea­li­zou, entre outros, no iní­cio da car­rei­ra, nos anos 1950, “Le Beau Ser­ge”, “Les Cou­sins”, “À Dou­ble Tour”, e na últi­ma déca­da “A Dama de Hon­ra”, “A Comé­dia do Poder” e “A Rapa­ri­ga cor­ta­da em dois”.

Sati­ris­ta incan­sá­vel

Apre­ci­a­dor da boa cozi­nha, de per­so­na­gens “mons­tru­o­sos” e de lite­ra­tu­ra, Cha­brol sim­bo­li­za “o cine­ma à fran­ce­sa”, ao mes­mo tem­po psi­co­ló­gi­co e soci­al, qua­se sem­pre com uma mar­ca sar­cás­ti­ca.

A sua vas­ta obra, cheia de iro­nia, dis­se­ca sem con­ces­sões, por vezes com cru­e­za e fero­ci­da­de, as zonas mais obs­cu­ras e abjec­tas da alma huma­na, mas tam­bém o deses­pe­ro dos seres huma­nos apa­nha­dos pela fata­li­da­de e apri­si­o­na­dos nos jogos de poder”, dis­se sobre ele Véro­ni­que Cay­la, pre­si­den­te do Cen­tro Naci­o­nal do Cine­ma, em Paris.

Em mui­tos dos seus fil­mes, fez incur­sões pela pro­vín­cia, usan­do uma cru­e­za iró­ni­ca para des­cre­ver os escân­da­los e segre­dos de famí­lia, denun­ci­an­do a hipo­cri­sia des­ti­na­da a pre­ser­var a res­pei­ta­bi­li­da­de de facha­da.

Para o minis­tro da cul­tu­ra fran­cês, Fré­dé­ric Mit­ter­rand, Cha­brol era “um ana­lis­ta sub­til e feroz”, dota­do de um “olhar ao mes­mo tem­po mali­ci­o­so e ful­mi­nan­te”. “Era um incon­for­mis­ta por exce­lên­cia, um mes­tre da iro­nia”, dis­se.

Um seu pre­de­ces­sor no gover­no fran­cês, Jack Lang, des­cre­veu-o assim: “Nin­guém melhor do que ele sou­be ence­nar a hipo­cri­sia de uma cer­ta bur­gue­sia”.

Ape­sar de os fil­mes de Clau­de Cha­brol terem conhe­ci­do um gran­de suces­so entre o públi­co, não foi mui­to recom­pen­sa­do ao lon­go da car­rei­ra, excep­to por um Urso de Ouro atri­buí­do em Ber­lim em 1959 pelo fil­me “Les Cou­sins”, o pré­mio Jean Vigo, e o Gran­de Pré­mio do Fes­ti­val de Locar­no, por “Le Beau Ser­ge” (1957).

Esta últi­ma pelí­cu­la foi a pri­mei­ra que assi­nou e a que teve algu­ma impor­tân­cia para o sur­gi­men­to da Nou­vel­le Vague.

Cineclube Universitário de Coimbra