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The BLING RING – 2013

Sofia Coppola tem-nos revelado, ao longo dos anos, formas diferentes de ver o cinema. Criou um género muito próprio, habituando assim um nicho de cinéfilos a um certo tipo de linguagem ora artística, ora controversa. Do inesquecível e inabalável ‘Virgens Suicidas’ (1999), ao dos seus últimos ‘Marie Antoinette’ (2006), parece que nos testa a nós, espectadores, ao mesmo tempo que ensaia os seus limites de realizadora.

‘Bling Ring’ apresenta-nos um novo modelo para Coppola: aborda uma realidade juvenil inconformada em Los Angeles, que cumula práticas de crimes de pequena ou média gravidade (furtos a casa de celebridades). O motivo é aquele que une a maioria dos jovens de todo o mundo, que é a tentativa da integração. O mundo em que se tentam integrar é distinto, mas a verdade é que o motivo e toda moral se encontra lá com toda a precisão: bullying, drogas, máscaras sociais e até o facebook. Coppola parece que agarra o primeiro tema que lhe apareceu à mão e o filmou sem hesitar, parecendo – do ponto de vista de um apreciador da realizadora – que ela de alguma forma se identifica com esta realidade de tentar ser aquilo que não é. Integrando-se forçosamente no mundo da fama, do poder, do dinheiro.

Um filme baseado num artigo de uma revista cor-de-rosa, mostra-nos então o dia-a-dia destes jovens larápios, que têm uma vida de sonho do ponto de vista social. Sofia Coppola rasga-nos um sorriso irónico, por vezes, à base educacional destes jovens, que apesar de toda esta vida luxuosa, têm uma base educacional vergonhosa (ora na escuma das escolas de LA, ora tendo ensino em casa sob a égide do livro ‘O Segredo’, tão em voga hoje em dia).


Deve-se alertar, porém, que este não é um típico filme-crítica. Este não é, de todo, um filme difícil. É um filme que se vê de braços cruzados com uma facilidade incómoda, tal qual o desembaraço dos protagonistas em entrar nas casas dos ditos famosos (Paris Hilton, Orlando Bloom, Lindsay Lohan, etc): utilizando o Google como arma de assalto, buscando moradas e encontrando portas abertas pelos próprios proprietários. É portanto um filme sem qualquer tipo de acção, sem suspense, sem mensagem escondida: tem um início preciso, um meio conciso e um final sucintamente esperado pelo espectador. Não é Sofia Coppola! Sofia não é esta realizadora que mistura hiphop, discotecas nocturnas, adolescentes aborrecidos, Paris Hilton e saltos altos com calças apertadas! Esta não é uma crítica escondida a Hollywood como em ‘Somewhere’ (2010), em que o nosso complexo protagonista Johny Marco sofre de uma crise existencial. Em ‘Bling Ring’ não corremos em busca de banda sonora como em ‘Virgens Suicidas’ (lembrar o eterno ‘Playground Love’ de Air). O sumo do último filme de Coppola é uma moral juvenil como muitos outros, não trazendo nada de novo e sendo um pouco decepcionante para quem, como eu, gosta da realizadora.

Talvez o nome do filme ‘Bling Ring’, seja o som do badalo para chamar Sofia Coppola de volta para o caminho da realização.

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J.R.P.

Gaiola Dourada – 2013 ↗

‘Gaiola Dourada’ (‘La cage dorée’), de Ruben Alves, retrata a história de Maria (Rita Blanco) e José (Joaquim de Almeida), um casal português, uma porteira e um faz-tudo, que há 30 anos emigrou para Paris em busca de uma vida melhor do ponto de vista laboral e social. Comum a esta biografia encontrar-se-ão uma série de portugueses, que tentaram procurar um trabalho assalariado estável, acabando por construir a sua vida nessa França multicultural. Maria e José serão, então, uma caricatura de todos esses casais que nos anos 1970 escaparam da fúria revolucionária, de um país sempre à beira do precipício, tendo dentro de si o espírito dos egrégios avós, mas filhos assumidamente franceses e repugnando toda uma cultura da qual se envergonham, no caso Paula e Pedro. A primeira, noiva de um francês de gema, o segundo um adolescente que se tenta integrar no ensino secundário, onde ser filho de português é motivo de crítica.

Tudo se altera aquando da recepção de uma notificação sucessória: o irmão de José falecera e este poderá receber uma avultada herança, sob a condição de regressar para Portugal a título definitivo. Este é o mote do enredo: a dialéctica cultural estereotipada entre Portugal e França.

Aquando do início da publicidade de ‘Gaiola Dourada’ com o seu trailer, uma coisa seria certa: tratar-se-ia de uma filme sobre chavões e lugares-comuns. O golpe de sucesso estava também anunciado, pois a sua estreia fora marcada para início de Agosto, altura em que Portugal recebe de braços abertos os seus emigrantes que facilmente se identificam com tal obra, rindo-se de si próprios sem saber.

Este filme dá-nos a oportunidade de olhar a comunidade de emigrantes de um ponto de vista muito especial, que é o deles mesmos. Porém, aquilo que pensamos que é um filme sobre lugares-comum torna-se, em si mesmo, um lugar-comum. Lamentavelmente não consegue ser aquilo que pretende, não chega a ser uma abordagem sobre a comunidade emigrante, não chega a ser uma comédia original, não é um filme tipicamente português, nem francês. Arrisco dizer que é um filme de linhas americanas ‘à comédia romântica’ sobre portugueses a fazerem-se passar por franceses. Claro que se destacará sempre o papel de Rita Blanco, que nos leva a crer que o filme ainda valerá o sacrifício de assistir aos restantes actores terrivelmente mal dirigidos. A banda sonora também se destaca pela positiva, do início até ao seu final enfadonho.

Existem uma série de obras cinematográficas que abordam lugares-comuns, mas sem caírem no ridículo de se tornarem num. Os retratos sociais, sejam eles sérios (vide ‘This Is England’, de Shane Meadows, ou mesmo ‘Kids’ de Larry Clark) ou com uma conotação mais cómica e assumidamente comercial (‘Almost Famous’ de Cameron Crow), são difíceis de abordar. Mas haverá sempre espaço para filmes de verão sobre emigrantes como estes, que farão coincidir com os outdoors das instituições bancárias, também eles a receber o dinheiro desses nossos fieis heróis do mar, com paladar a bacalhau e saudade desta nação valente.

O que francamente se deve reconhecer deste filme é que tem levado portugueses a ver cinema português, independentemente da qualidade discutível do mesmo. E isso é admirável.

J.R.P.

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Brothers – Entre Irmãos – 2009

Tommy, Grace, Sam. Brothers apresenta-nos três personagens de uma tradicional família americana de fortes contrastes. Sam (Jake Gyllenhall) é um militar louvado que está prestes a partir para o Afeganistão. Grace (Natalie Portman) é a esposa de Sam, com as suas duas filhas, Isabelle e Grace, vê partir o seu marido para uma missão militar, ao passo que nos é apresentado Tommy (Tobey Maguire, nomeado para um globo de ouro). Tommy é o irmão de Sam acabado de sair em liberdade condicional, solteirão e irresponsável. É uma família de contrastes, moldada pela guerra do Vietnam, onde o pai de ambos lutou pelos interesses americanos, com as repercussões clássicas dos traumas de guerra descarregados em ambiente familiar desenvolvendo-se as diferenças que existem entre Sam e Tommy. Este é o mote de Brothers, os lados e os contrastes de cada família e a capacidade de nos desconstruirmos e renascermos.

Introduzindo um pouco narrativa deste filme, Sam parte para o Afeganistão em missão militar pouco após o regresso de Tommy à sociedade. Tommy é visto como um boémio que nada lhe interessa, até que sucede uma tragédia que afecta toda a família, a queda do helicóptero de Sam, onde todos os “marines” são dados como mortos. Toda a família sofre com a perca de Sam, mas esta é a deixa de Tommy para ressuscitar e se mostrar como elemento central e reunificador de uma família destroçada por tamanha efeméride. Tommy ajuda a sua cunhada, a superar as dificuldades em casa, remodelando a cozinha e simultaneamente aproximando-se de Grace, até ao momento que se beijam. Tommy passa a ser o elemento que introduz alegria e vida à narrativa nesta altura, ao contrário do que sucedia no inicio desta longa-metragem ainda que não seja a expressividade deste que muda, mas sim todas as reacções das personagens perante ele. Sam por outro lado, é novamente introduzido como um prisioneiro de guerra juntamente com o seu conterrâneo Joe Willis (Patrick Flueger) onde sofrem as represálias de um grupo talibã até que Sam é forçado a trair o seu país e a si mesmo. As cenas no Afeganistão contem uma forte carga dramática muito presente na fotografia do filme, tornando-o denso, tal e qual o espírito da personagem. Esta traição leva Sam a constantemente procurar a traição em todos os elementos da sua família, que em ciúmes do seu irmão, não suporta toda a dinâmica que ele conseguiu criar numa família onde ele já não se encontra inserido psicologicamente.

Natalie Portman e Jake Gyllenhall em Brothers (2009)

Do ponto de vista técnico, Jim Sheridan apresenta-nos um remake de Brødre (Susane Bier, 2004), um filme dinamarquês, um filme sobre os traumas psicológicos e as consequências que os conflitos militares têm sobre os soldados e suas famílias. Não conseguindo superar a criatividade do filme original, também não se apresenta como um mau remake, sendo notória a sensibilidade visual ao longo do filme. A fotografia de Frederick Elmes é congruente com os estados de espírito das personagens, sendo trabalhada ao detalhe. Exemplos disso são as cenas em que a relação de Tommy e Grace é frutuosa, estabelecendo-se uma imagem vibrante e suave e também as cenas no Afeganistão, em que o detalhe de uma imagem áspera, pouco saturada nos relega para a frieza do conflito armado e dos instintos básicos do ser humano enquanto animal. A excelente banda sonora de Thomas Newman estabelece um excelente paralelo com o visual ao longo desta narrativa, acompanhando todo o dramatismo existente de forma congruente, colocando a trilha composta com a colaboração de Bono (Winter), como a cereja em cima de um bolo. Toda a soma dos actos de Sam após o seu regresso acaba num grande ecran preto musicado, deixando o espectador reflectir sobre a obra cinematográfica.

7.6/10