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2º Ciclo de Cinema de Terror Internacional “Temores”

Foi no ano de 2013 que pela pri­mei­ra vez expe­ri­men­tá­mos o con­cei­to de ‘Temo­res’, que levou o espec­ta­dor a uma via­gem tene­bro­sa pelo cine­ma de ter­ror inter­na­ci­o­nal. O cine­ma hoje, maxi­me a apre­sen­ta­ção de obras cine­ma­to­grá­fi­cas con­tem­po­râ­ne­as, tem sido pau­ta­do pela desis­tên­cia pau­la­ti­na de espec­ta­do­res e da sua cor­res­pon­den­te des­lo­ca­ção às salas de exi­bi­ção. Hoje vemos mui­tas vezes salas de pro­jec­ção com pou­cos ou nenhuns ele­men­tos na audi­ên­cia. Isso deve-se ao fac­to de que, pre­sen­te­men­te, mui­tas serem as obras que reme­tem o seu públi­co à indi­fe­ren­ça, a um géne­ro de sono­lên­cia cine­ma­to­grá­fi­ca e iner­te. O cine­ma exi­bi­do na mai­o­ria das salas hoje em dia aca­ba por res­pei­tar deter­mi­na­dos parâ­me­tros pré-defi­ni­dos por valo­res, acre­di­ta­mos nós, desa­de­qua­dos à soci­e­da­de de hoje. O espec­ta­dor pro­cu­ra algo ino­va­dor, que lhe tra­ga sen­ti­men­tos novos, que des­per­te em si um desen­ca­de­ar de emo­ções con­ca­te­na­das no seu ínti­mo, atra­vés de uma espé­cie de catar­se, nes­te caso atra­vés do medo ou ter­ror. Será, por isso, o ter­ror a linha ori­en­ta­do­ra da pro­gra­ma­ção des­te nos­so ciclo, vis­to já ter sido tes­ta­do na pri­mei­ra edi­ção do ‘Temo­res’, cujo resul­ta­do final foi mais que satis­fa­tó­rio. O objec­ti­vo é inequí­vo­co: ter um fio con­du­tor pro­fí­cuo a tra­zer o espec­ta­dor às exi­bi­ções, ao mes­mo tem­po que o ins­truí­mos com uma rea­li­da­de dis­tin­ta daque­la que está habi­tu­a­do nas salas comer­ci­ais. Assim, fize­mos uma selec­ção de cine­ma de índo­le naci­o­nal e inter­na­ci­o­nal den­tro da temá­ti­ca ter­ror, fazen­do com que o espec­ta­dor tenha uma noção do cine­ma numa pers­pec­ti­va bem mais ampla e não exclu­si­va­men­te ame­ri­ca­na-comer­ci­al, repor­tan­do-nos ao mes­mo tem­po a uma temá­ti­ca não des­ti­na­da a pre­ten­sos nichos. As obras pro­gra­ma­das foram alvo de exce­len­tes crí­ti­cas e comen­tá­ri­os do públi­co, ten­do par­ti­ci­pa­do nos mais pres­ti­gi­a­dos fes­ti­vais de cine­ma, fican­do assim lan­ça­do o rep­to de qua­li­da­de da pro­gra­ma­ção cine­ma­to­grá­fi­ca defi­ni­da em pro­jec­to.

Ten­do noção que este ciclo será, de algu­ma for­ma, iti­ne­ran­te, rea­li­za­rá as suas ses­sões tan­to no Polo II da Uni­ver­si­da­de de Coim­bra, como no Polo III. Esta iti­ne­rân­cia é fun­da­men­tal para levar asso­ci­a­ções cul­tu­rais como a nos­sa, refém de con­di­ci­o­na­lis­mo geo­grá­fi­cos, a toda a comu­ni­da­de estu­dan­til. Ten­tá­mos equi­li­brar aqui­lo que defi­ni­mos como essen­ci­al mos­trar, com a noção da sen­si­bi­li­da­de artís­ti­ca exis­ten­te e pro­e­mi­nen­te nes­ses polos de estu­do. Des­ta fei­ta, con­se­gui­re­mos tam­bém levar estu­dan­tes de outros polos ou ins­ti­tu­tos a estas zonas aca­dé­mi­cas tão pou­co explo­ra­da no pla­no das acti­vi­da­des cul­tu­rais
fora do âmbi­to do que ali se leci­o­na. Ape­sar de não esque­cer­mos que o esco­po da mai­o­ria dos estu­dan­tes seja a sua for­ma­ção aca­dé­mi­ca, rei­te­ra­mos a neces­si­da­de cons­tan­te de o apro­xi­mar às mais vari­a­das expe­ri­ên­ci­as artís­ti­cas. Sen­do o cine­ma uma ‘arte nova’, den­tro da his­tó­ria geral da arte, tor­nar-se-á mais aces­sí­vel para aque­les que pre­ten­dem a colo­car as noções de esté­ti­ca e bele­za (isto de uma for­ma super­fi­ci­al ao comum ciné­fi­lo) à luz de con­cei­tos revis­tos da arte e do cine­ma. ‘Temo­res II’, será então a pos­si­bi­li­da­de de todos assis­ti­rem a uma mos­tra inter­na­ci­o­nal de cine­ma de hor­ror, dis­tin­ta des­de logo pela sua pro­gra­ma­ção.

temores2

PROGRAMAÇÃO

TAXIDERMIA– 2006 – 91’
Este fil­me acom­pa­nha três gera­ções de homens de uma mes­ma famí­lia hún­ga­ra. Três seres apar­te, cada um deles com uma estra­nha rela­ção com o seu pró­prio cor­po. Ven­del Moros­go­ványi é um mili­tar de bai­xa paten­te que exte­ri­o­ri­za as suas neces­si­da­des sexu­ais da melhor (e mais ori­gi­nal) for­ma que pode, viven­do numa ansi­e­da­de obses­si­va na quin­ta do
seu supe­ri­or. O seu filho, Kál­mán Bala­tony ren­deu a sua com­pul­são por comi­da em con­cur­sos inter­na­ci­o­nais. Do seu casa­men­to com Gizi Aczél, tam­bém ela uma cam­peã de comi­da, nas­ce Lajos, um escan­ze­la­do taxi­der­mis­ta, con­de­na­do a cui­dar o seu pai imó­vel e dos seus três gatos.

LES YEUX SANS VISAGE – 1960 – 88’
Nos arre­do­res de Paris, Dr. Génes­si­er é um cirur­gião bri­lhan­te e famo­so que se sen­te tre­men­da­men­te  res­pon­sá­vel pelo ter­rí­vel aci­den­te de car­ro onde a sua filha, Chris­ti­a­ne, saiu des­fi­gu­ra­da. Aju­da­do pela sua assis­ten­te, Loui­se, o cirur­gião rap­ta jovens mulhe­res para remo­ver-lhes o ros­to e enxer­tar na cabe­ça da sua ama­da filha, que usa uma mas­ca­ra mol­da­da à cara onde a úni­ca for­ma de comu­ni­car é atra­vés dos olhos que pra­ti­ca­men­te não pis­cam. As jovens mulhe­res aca­bam por mor­rer, não obs­tan­te do falhar do seu pro­jec­to. No entan­to, Dr. Génes­si­er está lon­ge de cru­zar os bra­ços, cus­te as vidas que cus­tar.

Kimyô na sâka­su – 2005 – 108’
“Kimyô na Sâka­su” (“Estra­nho Cir­co”) é um fil­me per­tur­ba­dor, doen­tio, bizar­ro, mas tam­bém abso­lu­ta­men­te ori­gi­nal de Shi­on Sono. As atu­a­ções, a dire­ção e a foto­gra­fia são mag­ní­fi­cas e o rotei­ro ousa­do é impre­vi­sí­vel, tem mui­tos pon­tos de vira­gem no seu argu­men­to, sen­do por vezes incon­clu­si­vo. O dire­tor de esco­la abu­sa sexu­al­men­te de sua filha, Mit­su­ko, após esta o ter sur­pre­en­di­do a fazer sexo com sua mãe. Sayu­ri, a mãe, por sua vez, tes­te­mu­nha o abu­so e pas­sa a sen­tir ciú­mes de sua filha. O pro­ta­go­nis­ta ago­ra pas­sa a ter rela­ções com ambas, enquan­to a famí­lia se vai dete­ri­o­ran­do pelo inces­to, sui­cí­dio e homi­cí­dio.

Ti pia­ce Hit­ch­cock? – 2005 – 93’
Numa visi­ta ao vide­o­clu­be de seu bair­ro, Giu­lio ouve uma con­ver­sa entre duas mulhe­res, Sasha e Fede­ri­ca. Apa­ren­te­men­te, elas con­ver­sam sobre o fil­me Pac­to Sinis­tro (1951), de Alfred Hit­ch­cock. Giu­lio não se per­ce­be que as duas se sedu­zem e tro­cam núme­ros de tele­fo­ne. Ao che­gar em casa, ele des­co­bre que Sasha mora num apar­ta­men­to do outro lado da
rua e tes­te­mu­nha uma dis­cus­são entre esta e a sua mãe. No dia seguin­te, a mãe de Sasha é encon­tra­da mor­ta. Giu­lio acre­di­ta ter des­co­ber­to uma cons­pi­ra­ção e ini­cia uma inves­ti­ga­ção que irá dei­xá-lo à bei­ra da lou­cu­ra.

CARRIE – 1976 – 98’
Car­rie é um fil­me nor­te-ame­ri­ca­no de ter­ror, lan­ça­do em 1976 e diri­gi­do por Bri­an De Pal­ma. É base­a­do no roman­ce homó­ni­mo de Stephen King. Car­ry Whi­te uma jovem que não faz ami­gos em vir­tu­de de morar em qua­se total iso­la­men­to com a sua mãe, que é uma pre­ga­do­ra reli­gi­o­sa que se tor­na cada vez mais tres­lou­ca­da. Car­rie sem­pre foi menos­pre­za­da
pelos seus cole­gas, sem dar a opor­tu­ni­da­de a nin­guém de saber os pode­res para­nor­mais que a jovem pos­sui e mui­to menos de sua capa­ci­da­de vin­gan­ça quan­do fica reple­ta de ódio.

Akma­reul boat­da – 2010 – 141’
Numa noi­te de neve, a sua mais recen­te víti­ma é a atra­en­te Ju-Yeon, filha de um che­fe da polí­cia refor­ma­do e noi­va de Soo-hyun, um agen­te espe­ci­al de eli­te. Seden­to de vin­gan­ça, Soo-hyun deci­de per­se­guir o assas­si­no mes­mo que ao fazê-lo se tor­ne tam­bém ele um mons­tro. E quan­do final­men­te o con­se­gue apa­nhar, entre­gá-lo às auto­ri­da­des é a últi­ma coi­sa que lhe pas­sa pela cabe­ça. A linha entre o bem e o mal des­va­ne­ce-se nes­te dia­bó­li­co e maqui­a­vé­li­co jogo do gato e do rato.

PEE MAK – 2013 – 115’
A teia do argu­men­to gira em tor­no do casal amo­ro­so e apai­xo­na­do, Mak e Nak, que sem­pre  fize­ram de tudo para esta­rem um ao lado do outro enfren­ta­do quais­quer obs­tá­cu­los de for­ma sur­pre­en­den­te. Mak é mui­to ingé­nuo e cân­di­do, dan­do ori­gem ao fil­me a momen­tos cómi­cos, prin­ci­pal­men­te quan­to à sua per­cep­ção do mun­do para­nor­mal. Já Nak é uma
mulher lin­da e com um ar mis­te­ri­o­so, reser­van­do com o seu ros­to todos os segre­dos.

LOS OJOS DE JULIA – 2010 — 118’ 
Júlia, uma mulher que sofre de uma doen­ça dege­ne­ra­ti­va nos olhos. Esta encon­tra a sua irmã gémea Sara, que se encon­tra­va cega devi­do ao mes­mo pro­ble­ma de saú­de, enfor­ca­da na cave da sua casa. Ape­sar de tudo apon­tar para que se tra­te de sui­cí­dio, Júlia deci­de inves­ti­gar o que lhe pare­ce intui­ti­va­men­te ter sido um homi­cí­dio, pene­tran­do num mun­do
obs­cu­ro que pare­ce escon­der uma mis­te­ri­o­sa pre­sen­ça. À medi­da que Júlia come­ça a des­ven­dar a ter­rí­vel ver­da­de acer­ca da mor­te da irmã, a sua visão vai-se dete­ri­o­ran­do, até que uma série de mor­tes e desa­pa­re­ci­men­tos inex­pli­cá­veis se cru­zam no seu cami­nho…

MARIA – 2014 – 23’
Quan­do a mulher mor­re duran­te o par­to, Arsé­nio recor­re a um ritu­al nefas­to com a espe­ran­ça de ter a filha que não che­gou a conhe­cer.

DÉDALO – 2014 – 10’25’’
Den­tro do Cargueiro/Refinaria Espa­ci­al DÉDALO, Sie­na ten­ta sobre­vi­ver a uma infes­ta­ção de cri­a­tu­ras dia­bó­li­cas. Uma cur­ta-metra­gem com aspi­ra­ção e ins­pi­ra­ção de fic­ção cien­ti­fi­ca e ter­ror.

O BARÃO — 2011 — 105′
A his­tó­ria de um vam­pi­ro mari­al­va que ater­ro­ri­za­va os habi­tan­tes duma região mon­ta­nho­sa. O Barão é um cama­leão emo­ci­o­nal. Tan­to se apre­sen­ta dócil, ou iras­cí­vel, um homem-java­li, “uma pura bes­ta”. Vive um amor apri­si­o­na­do, den­tro e fora de si. Um amor ina­tin­gí­vel. Um ide­al cor­rom­pi­do. Ida­li­na, cri­a­da aris­to­cra­ta pai­ra pelo cas­te­lo…

Meu Querido Mês de Agosto” exibido em Nova Iorque

O fil­me «Aque­le Que­ri­do Mês de Agos­to», do cine­as­ta por­tu­guês Miguel Gomes, estre­ou este mês em Nova Ior­que, depois de ter rece­bi­do vári­os elo­gi­os na impren­sa nova-ior­qui­na que o con­si­de­rou um ino­va­dor “pós-docu­men­tá­rio”. A 17 de Setem­bro será exi­bi­do em Bos­ton, no Har­vard Film Archi­ves, jun­ta­men­te com outros fil­mes de Miguel Gomes.

Na edi­ção da sema­na pas­sa­da da revis­ta «The New Yor­ker», o crí­ti­co Richard Brody des­cre­ve a segun­da lon­ga-metra­gem de Miguel Gomes como “dis­tin­ta­men­te moder­na, com um popu­lis­mo sin­ce­ro e cla­ri­vi­den­te”. “A sua paci­ên­cia e aten­ção ter­na aos hábi­tos, tra­di­ções e saber mis­tu­ram-se com uma soci­o­lo­gia da migra­ção e da xeno­fo­bia e um olhar de gra­vu­ris­ta para a pai­sa­gem cir­cun­dan­te”, escre­veu a «New Yor­ker».
Tam­bém o suple­men­to de artes do jor­nal «New York Times» dedi­cou uma pági­na aos “pós-docu­men­tá­ri­os” de Gomes e outros rea­li­za­do­res den­tro do mes­mo géne­ro, como C.W. Win­ter. “Aque­le Que­ri­do Mês de Agos­to é ao mes­mo tem­po um musi­cal, um diá­rio de bor­do, um melo­dra­ma fami­li­ar qua­se inces­tu­o­so, um retra­to etno­grá­fi­co das tra­di­ções popu­la­res por­tu­gue­sas e das suas pró­pri­as sua pró­pria pro­du­ção caó­ti­ca”, refe­re o arti­go de Den­nis Lim.
A 17 de Setem­bro o fil­me será exi­bi­do mais a nor­te, em Bos­ton, no Har­vard Film Archi­ves, jun­ta­men­te com outros fil­mes de Miguel Gomes, como «A Cara Que Mere­ces» e «Entre­tan­to». Para este ciclo na cine­ma­te­ca de Har­vard, cha­ma­do “A Ima­gi­na­ção Musi­cal de Miguel Gomes”, está anun­ci­a­da a pre­sen­ça do jovem rea­li­za­dor, nas­ci­do em 1972, que irá dar uma “mas­ter class”.
O direc­tor da cine­ma­te­ca, Haden Guest, afir­ma que Gomes é “um dos rea­li­za­do­res mais bri­lhan­te­men­te ino­va­do­res den­tro do géne­ro pós-docu­men­tá­rio”.
“Nos últi­mos anos, Por­tu­gal rea­pa­re­ceu como um esti­mu­lan­te novo des­ti­no no cam­bi­an­te e sem­pre impre­vi­sí­vel mapa do cine­ma mun­di­al, um impor­tan­te cen­tro de algu­mas das cor­ren­tes mais ino­va­do­ras den­tro da rea­li­za­ção con­tem­po­râ­nea”, refe­re. Jun­ta­men­te com Pedro Cos­ta e João Pedro Rodri­gues, adi­an­ta, estão a explo­rar a tra­di­ção por­tu­gue­sa de “cine­ma radi­cal”, como antes o fize­ram Pau­lo Rocha ou João César Mon­tei­ro, que recen­te­men­te foi alvo de um ciclo em Bos­ton em Nova Ior­que.
Gomes foi crí­ti­co de cine­ma, antes de diri­gir uma série de cur­tas-metra­gens. «Aque­le Que­ri­do Mês de Agos­to», roda­do na aldeia de Arga­nil, com­bi­na a his­tó­ria fic­ci­o­na­da de uma famí­lia de músi­cos com um docu­men­tá­rio sobre os fes­ti­vais de verão de músi­ca popu­lar e outros hábi­tos da região, e ain­da com um rela­to das difi­cul­da­des de pro­du­ção do fil­me.
“No cora­ção de Por­tu­gal, ser­ra­no, o mês de Agos­to mul­ti­pli­ca os popu­la­res e as acti­vi­da­des. Regres­sam à ter­ra, lan­çam fogue­tes, con­tro­lam fogos, can­tam kara­o­ke, ati­ram-se da pon­te, caçam java­lis, bebem cer­ve­ja, fazem filhos. Se o rea­li­za­dor e a equi­pa do fil­me tives­sem ido direc­ta­men­te ao assun­to, resis­tin­do aos bai­la­ri­cos, redu­zir-se-ia a sinop­se: «Aque­le Que­ri­do Mês de Agos­to acom­pa­nha as rela­ções sen­ti­men­tais entre pai, filha e o pri­mo des­ta, músi­cos numa ban­da de bai­le»”, lê-se na sinop­se do fil­me.

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