SNATCH – Porcos e Diamantes

Esta sema­na vol­ta­mos a publi­car uma crí­ti­ca cine­ma­to­grá­fi­ca do sócio João Vaz Sil­va, des­ta vez sobre o fil­me Snat­ch — Por­cos e Dia­man­tes de Guy Richie, pre­sen­te no núme­ro 28 da revis­ta Apo­ka­lip­se (2001).

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Guy Richie é o nome do rea­li­za­dor bri­tâ­ni­co reco­nhe­ci­do por «Um Mal Nun­ca Vem Só», uma inte­res­san­te pri­mei­ra obra. Guy Richie é tam­bém o nome do cida­dão bri­tâ­ni­co conhe­ci­do por ser o actu­al com­pa­nhei­ro sen­ti­men­tal de Madon­na. «Snat­ch» é o nome do segun­do fil­me de Richie no qual este adop­ta o mes­mo esque­ma uti­li­za­do no ante­ri­or, isto é, mui­tas per­so­na­gens de carac­te­rís­ti­cas duvi­do­sas ati­ra­das para o sub­mun­do lon­dri­no num jogo de gato e rato reple­to de humor e vio­lên­cia. Ora, tal opção não o pre­ju­di­ca mini­ma­men­te e reve­la-se bas­tan­te efi­caz.

De fac­to, se «Um Mal Nun­ca Vem Só» pas­sou um pou­co des­per­ce­bi­do no cir­cui­to comer­ci­al, este «Snat­ch» pare­ce que­rer inver­ter a ten­dên­cia. Bas­ta dizer que no elen­co figu­ra o nome de Brad Pitt e que o núme­ro de cópi­as dis­po­ní­veis no nos­so país é bas­tan­te supe­ri­or, Tur­co (Jason Statham) é um empre­sá­rio de boxe clan­des­ti­no envol­vi­do com dois homens de res­pei­to: “Mona de Tijo­lo” (Alan Ford), o ter­rí­vel patrão do cri­me orga­ni­za­do e Mic­key O´Neill (Brad Pitt), um com­ba­ten­te ciga­no. “Mona de Tijo­lo” for­ça o Tur­co a con­ven­cer Mic­key a entrar num com­ba­te vici­a­do, mas o ciga­no, que quer uma cara­va­na nova para a mãe, não é fácil de con­ven­cer.

Entre­tan­to, Pri­mo Avi (Den­nis Fari­na), um mafi­o­so ame­ri­ca­no desem­bar­ca em Lon­dres para encon­trar um dia­man­te vali­o­so que Fran­kie “Qua­tro Dedos” (Beni­cio Del Toro) não lhe entre­gou. A Con­fu­são está lan­ça­da.
Uti­li­za­do com veí­cu­lo um dia­man­te de 84 qui­la­tes, «Snat­ch» par­te para uma atri­bu­la­da odis­seia atra­vés das máfia ingle­sa ten­do como cená­rio o mun­do dos com­ba­tes de boxe clan­des­ti­nos. O fil­me mis­tu­ra gangs­ters mafi­o­sos, ciga­nos irlan­de­ses, rus­sos pode­ro­sos e viga­ris­tas negros (e cobar­des) numa tra­ma bas­tan­te coe­ren­te. Guy Rit­chie apos­ta for­te na cari­ca­tu­ra ao com­por­ta­men­to das per­so­na­gens o que lhe per­mi­te um alto grau de comi­ci­da­de. Ao mes­mo tem­po lan­ça pis­tas para unir os dife­ren­tes qua­dros da acção à tra­ma prin­ci­pal que envol­ve o dia­man­te.

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O úni­co gran­de defei­to de «Snat­ch» é o fac­to de recor­rer dema­si­a­do a idei­as de outras obras do géne­ro (leia-se «Pulp-Fic­ti­on» e Cães Dana­dos»). Há situ­a­ções niti­da­men­te decal­ca­das dos fil­mes de Quen­tin Taran­ti­no além de as cenas de luta serem core­o­gra­fa­das ao esti­lo de John Woo. Não obs­tan­te, o segun­do fil­me de Rit­chie pro­cu­ra mais a recri­a­ção do que o plá­gio. A pri­mei­ra gran­de dife­ren­ça vai para o espa­ço físi­co: Lon­dres subs­ti­tui a cida­de de Nova Ior­que. Depois, a rea­li­za­ção e a pró­pria mon­ta­gem reve­lam-se bas­tan­te dis­tin­tas das “taran­ti­nes­cas”, assen­tan­do mais um rit­mo fre­né­ti­co e em ima­gens vir­tu­ais mar­can­tes, fru­to de tra­ba­lhos ante­ri­o­res de Guy Rit­chie nos mean­dros da publi­ci­da­de e dos vide­o­clips. À excep­ção da per­so­na­gem Tony “Den­tes de Bala” (inter­pre­ta­da pelo ex-fute­bo­lis­ta Vin­nie Jones) que se asse­me­lha um pou­co à de Samu­el L. Jack­son em «Pulp Fic­ti­on», todas as outras são com­ple­ta­men­te ori­gi­nais. Curi­o­sa é apa­ri­ção de Brad Pitt que se reve­la ful­cral e sur­giu por ini­ci­a­ti­va do pró­prio que che­gou a bai­xar o seu cachet habi­tu­al para entrar no fil­me.
Sota­ques imper­cep­tí­veis, por­cos que comem car­ne huma­na e um cão que chia são alguns dos mui­tos ele­men­tos que pro­por­ci­o­nam cer­ca de duas horas de boa dis­po­si­ção. «Snat­ch» cons­ti­tui um ver­da­dei­ro delí­rio cine­ma­to­grá­fi­co que, apoi­a­do num sem núme­ro de influên­ci­as, resul­ta bem como entre­te­ni­men­to.

João Vaz Sil­va