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JASMINE

No dia 14 de Dezem­bro às 22:00, inte­gra­do no Ciclo Fusões no Cine­ma, será pro­je­ta­do o fil­me; “Jas­mi­ne” Base­a­do em rela­tos pes­so­ais, o fil­me con­ta uma impro­vá­vel his­tó­ria de amor e revo­lu­ção. O ani­ma­dor e docu­men­ta­ris­ta Alain recon­ta a sua his­tó­ria com a ira­ni­a­na Jas­mi­ne, que mudou a sua vida para sem­pre.

É exibido no Mini-Auditório Salgado Zenha com Entrada Livre.

Ven­ce­dor do César de Melhor Cur­ta-Metra­gem de Ani­ma­ção, Alain Ughet­to rea­li­zou a ani­ma­ção ​Jas­mine” em 2013, fil­me que aca­bou indi­ca­do ao Pré­mio do Cine­ma Euro­peu de Melhor Ani­ma­ção.

Ficha Técnica

Data de lan­ça­men­to: 2013 (1h 10min)
Direc­ção: Alain Ughet­to
Elen­co: Jean-Pier­re Dar­rous­sin, Fan­za­neh Ram­zi
Géne­ro: Ani­ma­ção
Naci­o­na­li­da­de: Fran­ce­sa

JASMINE de Alain Ughetto

 

Ensaio sobre a Cegueira de Fernando Meirelles

Uma iné­di­ta e inex­pli­cá­vel epi­de­mia de ceguei­ra atin­ge uma cida­de. Cha­ma­da de “ceguei­ra bran­ca”, já que as pes­so­as atin­gi­das ape­nas pas­sam a ver uma super­fí­cie lei­to­sa, a doen­ça sur­ge ini­ci­al­men­te em um homem no trân­si­to e, pou­co a pou­co, se espa­lha pelo país. À medi­da que os afe­ta­dos são colo­ca­dos em qua­ren­te­na e os ser­vi­ços ofe­re­ci­dos pelo Esta­do come­çam a falhar as pes­so­as pas­sam a lutar por suas neces­si­da­des bási­cas, expon­do seus ins­tin­tos pri­má­ri­os. Nes­ta situ­a­ção a úni­ca pes­soa que ain­da con­se­gue enxer­gar é a mulher de um médi­co (Juli­an­ne Moo­re), que jun­ta­men­te com um gru­po de inter­nos ten­ta encon­trar a huma­ni­da­de per­di­da.

É exi­bi­do no Mini-Audi­tó­rio Sal­ga­do Zenha no pró­xi­mo dia 9 de Novem­bro às 22:00. A entra­da é livre.

Introdução Histórica

Fil­ma­do em Toron­to (Cana­dá), São Pau­lo e Osas­co (Bra­sil) e Mon­te­vi­déu no Uru­guai, des­de o prin­ci­pio o dire­tor optou por não focar em que país a his­tó­ria se pas­sa, esta foi uma das exi­gên­ci­as do autor do livro José Sara­ma­go (prê­mio Nobel de lite­ra­tu­ra) ao rotei­ris­ta Don McKel­lar (do fil­me Vio­li­no ver­me­lho) que adap­tou o tex­to.

A his­tó­ria come­ça quan­do ocor­re uma epi­de­mia de ceguei­ra na cida­de, de for­ma inex­pli­cá­vel não se sabe quan­to tem­po irá durar e de onde vêm, afe­tan­do a visão das pes­so­as, que come­çam a ver ape­nas man­chas bran­cas, por isso à doen­ça come­ça a ser cha­ma­da de “ceguei­ra bran­ca”.

O pri­mei­ro infec­ta­do (Yusu­ke Ise­va) aca­ba por per­der a visão enquan­to con­duz no trân­si­to caó­ti­co da cida­de, sem som­bra de dúvi­da fil­mar numa rua movi­men­ta­da do cen­tro de São Pau­lo, paran­do um car­ro em horá­rio de rush deve ter sido um gran­de desa­fio para Fer­nan­do Mei­rel­les que con­se­gue uma ten­são inte­res­san­te ao colo­car o “cego” andan­do pelo meio dos car­ros.

Logo a epi­de­mia vai se espa­lhan­do por todo o país, come­çan­do pelas pes­so­as que tive­ram con­ta­to com este pri­mei­ro per­so­na­gem.

Con­for­me vão sen­do con­ta­gi­a­dos pela mis­te­ri­o­sa epi­de­mia, o gover­no decre­ta que devem ser afas­ta­dos do con­ví­vio da soci­e­da­de e colo­ca­dos sobre qua­ren­te­na numa espé­cie de hos­pi­tal para que não afe­tem o res­tan­te da popu­la­ção.

Como a espo­sa do médi­co não é afe­ta­da pela doen­ça, ela fin­ge estar cega para ir jun­to com seu mari­do, com o intui­to de poder cui­dar da sua saú­de e uma vez iso­la­dos ela se sujei­ta a tra­tar dele como se fos­se uma cri­an­ça.

O foco do fil­me não esta em mos­trar a cau­sa da doen­ça ou sua cura, mas sim o des­mo­ro­nar com­ple­to da soci­e­da­de que, per­de tudo aqui­lo que con­si­de­ra civi­li­za­do.

No fil­me as pes­so­as doen­tes come­çam a lutar pelas suas neces­si­da­des mais bási­cas, expon­do os seus ins­tin­tos pri­mi­ti­vos e resul­tan­do num colap­so da soci­e­da­de, con­for­me vai aumen­tan­do o núme­ro de pes­so­as cegas len­ta­men­te o ser­vi­ço do Esta­do come­ça a falhar.

A dire­ção de foto­gra­fia faz um tra­ba­lho impe­cá­vel, abu­san­do às vezes dos tons cla­ros na tela como se o espec­ta­dor esti­ves­se sofren­do da “ceguei­ra bran­ca”, só o sim­ples fato de ver a região do minho­cão em São Pau­lo toda devas­ta­da, cober­ta de lixo, fezes, papéis, como se o mun­do tives­se para­do a bei­ra de um caos e nenhum ser huma­no sobre­vi­vi­do, vale a pena ser vis­to.

Após algum tem­po essa mes­ma sujei­ra pode ser nota­da no hos­pi­tal, com a fal­ta de higi­e­ne, aten­di­men­to médi­co e comi­da, neces­si­da­des bási­cas de qual­quer ser huma­no, a his­tó­ria vai fican­do mais ten­sa ao mos­trar a cru­el­da­de que o ser huma­no con­se­gue impor aos demais em situ­a­ções cri­ti­cas.

Curi­o­si­da­de: O autor José Sara­ma­go foi con­vi­da­do para assis­tir ao lan­ça­men­to do fil­me, mas por não se encon­trar em bom esta­do de saú­de, os médi­cos reco­men­da­ram que não via­jas­se, assim Fer­nan­do Mei­rel­les foi até sua casa em Lis­boa para lhe apre­sen­tar o fil­me.

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA01

Prémios

FESTIVAL DE CANNES
Indi­ca­ção: Pal­ma de Ouro – Fer­nan­do Mei­rel­les

A Instalação do Medo, um filme de Ricardo Leite

Dia 31 de Outu­bro ás 00h00, o Mini-Audi­tó­rio Sal­ga­do Zenha/AAC irá abrir por­tas para a apre­sen­ta­ção da cur­ta-metra­gem A ins­ta­la­ção do medo (2017), tra­ba­lho cine­ma­to­grá­fi­co de Ricar­do Lei­te galar­do­a­do em Feve­rei­ro com o Pré­mio Sophia Estu­dan­te atrí­bui­do pela Aca­de­mia Por­tu­gue­sa de Cine­ma.
A entra­da é gra­tui­ta e estão todos con­vi­da­dos.

Sinopse
A mulher escon­de o seu filho na casa de banho, quan­do ouve a bate­rem à por­ta.

Abre a Por­ta vê dois homens, “Bom dia, minha senho­ra, vie­mos para ins­ta­lar o medo.”

Elenco

Mar­ga­ri­da Morei­ra, Nuno Janei­ro, Cân­di­do Fer­rei­ra e Ber­nar­do Morei­ra.

Rea­li­za­ção: Ricar­do Lei­te

Ass. De Rea­li­za­ção: Bru­no Medei­ros

Ano­ta­ção: Sara Sil­va

Argu­men­to: (Guião) Ricar­do Lei­te, (Livro) Rui Zink.

Pro­du­ção: Arman­da Oli­vei­ra

Ass. De Pro­du­ção: Andreia Ribei­ro

Pro­du­tor exe­cu­ti­vo: Edu­ar­do Lel­lo

Pro­du­tor super­vi­sor: Ricar­do Lei­te

Direc­ção de Foto­gra­fia: Cláu­dio Oli­vei­ra

O Barão de Edgar Pêra

No ano de 1943, duran­te a II Guer­ra Mun­di­al, a pro­du­to­ra ame­ri­ca­na Vale­rie Lew­ton che­gou a Por­tu­gal e casou-se com um actor por­tu­guês que lhe deu a conhe­cer o con­to “O Barão”, escri­to por Bran­qui­nho da Fon­se­ca. Vale­rie viu nele a his­tó­ria per­fei­ta para um fil­me de ter­ror, come­çan­do, em segre­do, as fil­ma­gens numa fábri­ca do Bar­rei­ro.

Quan­do a PIDE sou­be da exis­tên­cia do fil­me, man­dou des­truir os nega­ti­vos. A equi­pa téc­ni­ca foi repa­tri­a­da e os acto­res por­tu­gue­ses depor­ta­dos para o Tar­ra­fal, na ilha de San­ti­a­go, Cabo Ver­de, onde mor­re­ram tor­tu­ra­dos na “fri­gi­dei­ra”.

Em 2005, foram des­co­ber­tas duas bobi­nas e o guião do fil­me nos arqui­vos do cine­clu­be do Bar­rei­ro. Atra­vés delas o rea­li­za­dor Edgar Pêra deci­diu fazer o “rema­ke” do fil­me ori­gi­nal, con­tan­do a his­tó­ria de um barão tirâ­ni­co que ater­ro­ri­za a popu­la­ção das mon­ta­nhas do Bar­ro­so, no Nor­te de Por­tu­gal.

É exi­bi­do no Mini-Audi­tó­rio Sal­ga­do Zenha no pró­xi­mo dia 31 de Outu­bro à meia-noi­te . A entra­da é livre.

Introdução Histórica

A his­tó­ria de um vam­pi­ro mari­al­va que ater­ro­ri­za­va os habi­tan­tes duma região mon­ta­nho­sa. O Barão é um cama­leão emo­ci­o­nal. Ora se apre­sen­ta dócil, ou iras­cí­vel, um homem-java­li, «uma pura bes­ta». Vive um amor apri­si­o­na­do, den­tro e fora de si. Um amor ina­tin­gí­vel. Um ide­al cor­rom­pi­do. Ida­li­na, cri­a­da aris­to­cra­ta pai­ra pelo cas­te­lo…

O pará­gra­fo aci­ma é o resu­mo ofi­ci­al de apre­sen­ta­ção de “O Barão”, o novo fil­me de Edgar Pêra é umas das mais sin­gu­la­res estrei­as do ano. A pelí­cu­la adap­ta uma his­tó­ria de Bran­qui­nho da Fon­se­ca e é uma via­gem ao Por­tu­gal dos anos 40, pen­sa­da que se tives­se sido fil­ma­da na pró­pria altu­ra.

O regis­to é expres­si­o­nis­ta e góti­co e a pelí­cu­la, pro­ta­go­ni­za­da por Nuno Melo, é uma metá­fo­ra a qual­quer dita­du­ra.

Elenco

  • Leo­nor Keil
  • Mar­cos Bar­bo­sa
  • Mari­na Albu­quer­que
  • Miguel Ser­mão
  • Nuno Melo
  • Vítor Cor­reia

Equipa técnica

Argu­men­to: Edgar Pêra  ·  Luí­sa Cos­ta Gomes

Direc­ção de Foto­gra­fia: Luís Bran­qui­nho

Mon­ta­gem: João Gomes: Tia­go Antu­nes  ·  Edgar Pêra

Músi­ca: Vozes Da Rádio

Pro­du­ção: Cine­ma­te

Pro­du­to­ra: Ana Cos­ta

Rea­li­za­ção: Edgar Pêra

Som: Tia­go Rapo­si­nho

Prémios nos XVIII Caminhos do Cinema Português (2011)

PRÉMIO MELHOR ARGUMENTO ADAPTADO | Luí­sa Cos­ta Gomes e Edgar Pêra por O Barão
PRÉMIO MELHOR FOTOGRAFIA | Luís Bran­qui­nho por O Barão
PRÉMIO MELHOR CARATERIZAÇÃO | Jor­ge Bra­gada por O Barão
PRÉMIO MELHOR MONTAGEM | Tia­go Antu­nes por O Barão

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Comboio de Sal e Açúcar” de Licínio Azevedo

Com­boio de Sal e Açú­car é um wes­tern afri­ca­no que che­ga às salas por­tu­gue­sas a 28 de setem­bro. Roda­do em Moçam­bi­que numa co-pro­du­ção inter­na­ci­o­nal lide­ra­da por Por­tu­gal, o fil­me já pas­sou por mais de 20 fes­ti­vais, ten­do estre­a­do em Locar­no e arre­ca­da­do pré­mi­os em Joa­nes­bur­go e Cai­ro, nas cate­go­ri­as de Melhor Fil­me e Melhor Rea­li­za­dor. Vai estre­ar ain­da este ano nos Esta­dos Uni­dos, Suí­ça e Fran­ça. É exi­bi­do no Mini-Audi­tó­rio Sal­ga­do Zenha no pró­xi­mo dia 12 de Outu­bro às 22:00. A entra­da é livre.

Um Wes­tern Afri­ca­no

Um com­boio. 400 qui­ló­me­tros em linhas sabo­ta­das. Dois capi­tães lutam pelo amor de Rosa. Entre fei­ti­ça­ria e ata­ques cons­tan­tes, um com­boio com cen­te­nas de pes­so­as é obri­ga­do a inú­me­ras para­gens até che­gar ao seu des­ti­no. Uma via­gem que decor­re a 5km/h atra­vés de luxu­ri­an­tes pai­sa­gens afri­ca­nas, onde o peri­go esprei­ta antes da pró­xi­ma esta­ção.

Introdução Histórica

1964, em Moçam­bi­que, então uma coló­nia por­tu­gue­sa, as for­ças da guer­ri­lha da FRELIMO — Fren­te de Liber­ta­ção de Moçam­bi­que — ini­ci­am uma guer­ra pela auto­de­ter­mi­na­ção do país. Dez anos depois, a FRELIMO assu­miu o gover­no do país. O novo gover­no, sob a pre­si­dên­cia de Samo­ra Machel, esta­be­le­ceu um Esta­do uni­par­ti­dá­rio base­a­do em prin­cí­pi­os mar­xis­tas. Come­ça pou­co depois uma lon­ga guer­ra civil, sus­ten­ta­da pela Rodé­sia e pela Áfri­ca do Sul, paí­ses vizi­nhos com gover­nos de mino­ri­as bran­cas, que na altu­ra não que­ri­am que o gover­no revo­lu­ci­o­ná­rio moçam­bi­ca­no ser­vis­se de exem­plo na região. As for­ças opo­si­ci­o­nis­tas ao Gover­no inti­tu­lam-se Resis­tên­cia Naci­o­nal Moçam­bi­ca­na (RENAMO). Esta guer­ra leva o país à rui­na com a qua­se total des­trui­ção da agri­cul­tu­ra e das infra-estru­tu­ras ter­res­tres. É só no iní­cio dos anos 90 que o país ini­cia refor­mas estru­tu­rais e vol­ta a ter paz. Actu­al­men­te, Moçam­bi­que vol­ta a ser asso­la­do pela vio­lên­cia, ten­do havi­do vári­os con­fron­tos arma­dos no cen­tro e no nor­te do país.

Esti­ve em Lichin­ga, capi­tal da Pro­vín­cia do Nias­sa, últi­mo pon­to onde os com­boi­os para­vam antes da fron­tei­ra com o Malawi, seu des­ti­no final.

A cida­de esta­va iso­la­da do res­to do país por via rodo­viá­ria. A che­ga­da dos com­boi­os era cada vez mais espa­ça­da e uma enor­me mul­ti­dão reu­nia-se na esta­ção para os rece­ber.

Tive a opor­tu­ni­da­de de ver uma des­sas che­ga­das e o esta­do ter­rí­vel daque­les que desem­bar­ca­vam, sema­nas depois do iní­cio da via­gem em que arris­ca­vam as suas vidas.

— Licí­nio Aze­ve­do

ENTREVISTA COM LICÍNIO AZEVEDO

O Com­boio de Sal e Açú­car exis­tiu real­men­te?

Duran­te a guer­ra civil em Moçam­bi­que, que aca­bou em ‘92, eu ouvia mui­tas his­tó­ri­as sobre este com­boio, no nor­te do país, his­tó­ri­as mara­vi­lho­sas. Não havia nada no país, nem mes­mo açú­car para o chá, sen­do que antes Moçam­bi­que era um gran­de pro­du­tor de açú­car. Nes­sa épo­ca, che­ga­vas a um café, pedi­as um chá, e dizi­am-te: “Há chá… Mas não há açú­car.” Então as mulhe­res, no nor­te do país, des­co­bri­ram uma manei­ra astu­ta para sus­ten­tar as suas famí­li­as. Com­pra­vam sal no lito­ral moçam­bi­ca­no e depois via­ja­vam 700 km até ao Malawi, no inte­ri­or do con­ti­nen­te. Uma via­gem que hoje leva menos de um dia, na épo­ca podia levar até três meses. Leva­vam sal para ven­der no Malawi e com o resul­ta­do com­pra­vam açú­car, depois regres­sa­vam e ven­di­am o açú­car, e com isso sus­ten­ta­vam a famí­lia por vári­os meses. Depois, toca de via­jar outra vez.

Este com­boio leva­va pas­sa­gei­ros?

Duran­te a guer­ra não era supos­to, mas as pes­so­as via­ja­vam volun­ta­ri­a­men­te, sem pagar bilhe­te, em vagões aber­tos, com uma anti­aé­rea e com uma escol­ta mili­tar. Era um com­boio que par­tia uma vez de três em três meses, quan­do as con­di­ções per­mi­ti­am. Depois há uma par­te de fic­ção, a exis­tên­cia de um bar­co de pes­ca gigan­te…

Se a acção se pas­sa no nor­te do país, por­que não fil­mar lá?

O nor­te do país está total­men­te modi­fi­ca­do, moder­ni­za­do e, actu­al­men­te, em guer­ra. Por isso optá­mos pelo sul de Moçam­bi­que, onde as linhas fér­re­as e esta­ções ain­da cor­res­pon­dem ao perío­do da his­tó­ria, tal como as loco­mo­ti­vas que nelas cir­cu

lam… Fil­má­mos na linha que vai de Mapu­to para a Sua­zi­lân­dia e para a Áfri­ca do Sul mas tive­mos um gran­de tra­ba­lho de deco­ra­ção para dar outros tons às esta­ções tal como recu­pe­rar as máqui­nas e vagões de escol­ta que já esta­vam desac­ti­va­dos.

Por­que não fizes­te um docu­men­tá­rio?

Na épo­ca ain­da ten­tei mas os pro­du­to­res dizi­am “Você é malu­co! Quem é que vai colo­car dinhei­ro para equi­pa­men­to e tudo mais, para fazer uma via­gem de três meses? Ain­da mor­rem, e depois não há fil­me.” Logo que a guer­ra aca­bou, a pri­mei­ra coi­sa que fiz foi apa­nhar esse com­boio. Fiz a via­gem vári­as vezes, entre­vis­tan­do os tra­ba­lha­do­res dos Cami­nhos-de-Fer­ro, as mulhe­res que tro­ca­vam o sal pelo açú­car, os mili­ta­res… E escre­vi um livro — Com­boio de Sal e Açú­car. Para mim, tudo o que não é fei­to no momen­to, em cine­ma, dei­xa de ser docu­men­tá­rio. Não gos­to de fazer docu­men­tá­ri­os sobre o pas­sa­do, gos­to de fazer sobre o que está a acon­te­cer. Para mim, tudo o que já acon­te­ceu, pas­sa a ser fic­ção.

O teu livro come­ça com uma fra­se: “Aque­les que nos ata­ca­vam eram ter­rí­veis, mas aque­les que nos pro­te­gi­am por vezes eram pio­res”. Qual é o sig­ni­fi­ca­do sim­bó­li­co do com­boio?

É como um micro­cos­mos onde coe­xis­tem muçul­ma­nos, cris­tãos e ani­mis­tas, numa atmos­fe­ra de trai­ções, ata­ques e mor­te, mas tam­bém de espe­ran­ça reno­va­da. “Quan­do o sol nas­ce todas as espe­ran­ças se reno­vam”, já dizia o meu velho Hemingway. E assim se vai man­ten­do o equi­lí­brio, por­que den­tro do com­boio todos os pas­sa­gei­ros arris­cam as suas vidas. Duran­te a guer­ra temos ten­dên­cia a dife­ren­ci­ar os bons dos maus, mas isso nem sem­pre é fácil. Aque­les que ata­cam o com­boio são ter­rí­veis mas por vezes, aque­les que o deve­ri­am pro­te­ger, são mui­to pio­res. No fil­me a Rosa tes­te­mu­nha a dura rea­li­da­de da guer­ra e por isso ouvi­mo-la dizer essa fra­se…

Estes per­so­na­gens são reais?

Alguns são leve­men­te base­a­dos em per­so­na­gens reais, outros são com­ple­ta­men­te fic­ci­o­nais, como o per­so­na­gem prin­ci­pal, Tai­ar. Nes­te fil­me há três gru­pos de per­so­na­gens: os mili­ta­res que pro­te­gem e con­tro­lam o com­boio, entre os quais há os bons e os maus; os tra­ba­lha­do­res dos cami­nhos-de-fer­ro que per­mi­tem que o com­boio siga o seu cami­nho e que são a intel­li­gent­sia; e os civis, sobre­tu­do mulhe­res, que via­jam e que repre­sen­tam a luta huma­na mais bási­ca: a sobre­vi­vên­cia.

Como defi­nes a rela­ção entre Tai­ar e Salo­mão?

O Tai­ar é um tenen­te com uma men­ta­li­da­de moder­na, cien­tí­fi­ca, que estu­dou numa aca­de­mia mili­tar na Ucrâ­nia, ex-União Sovié­ti­ca e que tem um pen­sa­men­to dife­ren­te por ser jovem, tenen­te e ter rece­bi­do for­ma­ção fora do país. O seu anta­go­nis­ta é o alfe­res Salo­mão que ganhou a sua paten­te na guer­ra. É um gran­de com­ba­ten­te mas tem uma visão mais fecha­da. Sen­te-se dono do mun­do, dono das mulhe­res, do com­boio…

Exis­te um lado mági­co nes­ta guer­ra?

Exis­te na guer­ra como exis­te na pró­pria vida quo­ti­di­a­na dos moçam­bi­ca­nos. Não diria exac­ta­men­te magia mas uma rela­ção com os ante­pas­sa­dos, com os espí­ri­tos…. Em Moçam­bi­que, duran­te a guer­ra civil, hou­ve uma ter­cei­ra for­ça arma­da, que esta­va ao lado do gover­no da FRELIMO, que eram os Napa­ra­mas, um exér­ci­to de homens à pro­va de balas, invul­ne­rá­veis, que luta­vam nus e usa­vam armas tra­di­ci­o­nais, arco e fle­cha, cata­nas, não usa­vam armas de fogo. Bas­ta­va que o ini­mi­go sou­bes­se da apro­xi­ma­ção dos Napa­ra­mas e reti­ra­va. Até que um dia mata­ram Manu­el Antó­nio, o coman­dan­te dos Napa­ra­mas, com 150 tiros. E aí dis­se­ram: “Viram, não é à pro­va de bala.” Mas logo apa­re­ceu uma jus­ti­fi­ca­ção: o ini­mi­go havia envi­a­do uma fei­ti­cei­ra, uma mulher lin­dís­si­ma, que o sedu­ziu, levan­do-o a fazer amor com ela antes de com­ba­ter. Eles tinham de cum­prir um ritu­al, não podi­am comer comi­da com sal duran­te três dias antes de ir para com­ba­te, e não podi­am fazer amor. Ele fez amor e por isso foi mor­to. Esta foi a expli­ca­ção dada pela popu­la­ção. A magia faz assim par­te da vida quo­ti­di­a­na, e em Áfri­ca, não há guer­ra sem magia.

E algum per­so­na­gem encar­na essa magia?

Sete Manei­ras, o coman­dan­te res­pon­sá­vel pela pro­tec­ção do com­boio, é um fei­ti­cei­ro à pro­va de bala que na sua juven­tu­de teve a ini­ci­a­ção tra­di­ci­o­nal dos makon­des no nor­te de Moçam­bi­que. Para ser adul­to tem que se matar um leão com arco e fle­cha. Sete Manei­ras, como pas­sou por essa ini­ci­a­ção, con­se­gue falar com os pás­sa­ros, trans­for­man­do-se mes­mo num para fazer reco­nhe­ci­men­to. Já o coman­dan­te ini­mi­go, Xipo­co (“fan­tas­ma” em lín­gua xan­ga­na), tam­bém se trans­for­ma em maca­co para fazer o mes­mo.

Como foi rodar todos os dias com 13 vagões?

Fan­tás­ti­co e infer­nal. Impos­sí­vel sem o apoio incon­di­ci­o­nal dos Cami­nhos de Fer­ro de Moçam­bi­que. Duran­te a roda­gem, o enge­nhei­ro de som fez um tra­ba­lho extra­or­di­ná­rio com ele, com os sons das rodas a ran­ger, da loco­mo­ti­va a tra­ba­lhar… Naque­le tem­po nun­ca podi­am des­li­gar o motor da loco­mo­ti­va, por­que depois podia não pegar, então trans­por­tá­mos essa rea­li­da­de para o fil­me. O som do com­boio é um som per­ma­nen­te, uma ban­da sono­ra fun­da­men­tal que foi pon­tu­a­da pelo Schwal­ba­ch com ins­tru­men­tos tra­di­ci­o­nais afri­ca­nos, tam­bo­res e com a mbi­ra para pon­tu­ar as cenas de amor.

Por­que dizes que este fil­me é um wes­tern?

Eu ado­ro wes­tern, é o meu géne­ro pre­fe­ri­do, e o fil­me tem um pou­co essa estru­tu­ra. Nos fil­mes de cow­boy o ban­di­do sem­pre anda em qua­dri­lha, então Salo­mão tem os seus segui­do­res, e Tai­ar tam­bém tem os seus. É como o Zor­ro e o Ton­to, tem o Tai­ar que é o Zor­ro e tem o Ton­to que é o índio de lado, que é o adjun­to dele e que no final assu­me o papel do Tai­ar. O Ton­to pas­sa a ser o Zor­ro. Sem­pre com­pa­ro os dois com o meu wes­tern pre­fe­ri­do, Sha­ne, fil­me do Geor­ge Ste­vens, de 1951. Tam­bém há o fac­to de ter­mos roda­do nas pai­sa­gens do sul de Moçam­bi­que, que são mag­ní­fi­cas e que nes­ta épo­ca do ano cor­res­pon­dem tam­bém aos fil­mes como os de John Ford, em que o cow­boy apa­re­ce naque­la pla­ní­cie com o capim alto, ama­re­lo… e que na pós-pro­du­ção ain­da lhe con­fe­ri­mos uma tem­pe­ra­tu­ra de cor mais quen­te. É o pri­mei­ro wes­tern afri­ca­no moder­no. Quem gos­ta de fil­mes wes­tern vai-se encon­trar nes­te fil­me.

LICÍNIO AZEVEDO

Licí­nio Aze­ve­do é cine­as­ta e escri­tor moçam­bi­ca­no. Faz par­te da gera­ção de cine­as­tas for­ma­da no Ins­ti­tu­to Naci­o­nal de Cine­ma de Moçam­bi­que, nos anos que se segui­ram à Inde­pen­dên­cia, com a inter­ven­ção de dife­ren­tes rea­li­za­do­res, entre eles Ruy Guer­ra, Godard e Jean Rou­ch. Como escri­tor e como cine­as­ta, a sua obra é estrei­ta­men­te liga­da à rea­li­da­de do país e aos diver­sos momen­tos da sua con­tur­ba­da evo­lu­ção. Entre o docu­men­tá­rio e a fic­ção, Licí­nio mis­tu­ra ambos os géne­ros, ins­pi­ran­do-se sem­pre em acon­te­ci­men­tos nar­ra­ti­vos e per­so­na­gens cati­van­tes.

Filmografia Seleccionada

2016
COMBOIO DE SAL E AÇÚCAR
93’, Fic­ção

2012
VIRGEM MARGARIDA
90’, Fic­ção

2010
A ILHA DOS ESPÍRITOS
63’, Docu­men­tá­rio

2007
HÓSPEDES DA NOITE
53’, Docu­men­tá­rio

2006
O GRANDE BAZAR
56’, Fic­ção

2005
ACAMPAMENTO DE DESMINAGEM
60’, Docu­men­tá­rio

2003
MÃOS DE BARRO52’,
Docu­men­tá­rio

2002
DESOBEDIÊNCIA
92’, Ficção/Documentário

2001
A PONTE
52’, Docu­men­tá­rio

ELENCO

Tai­ar
Matam­ba Joa­quim

Rosa
Mela­nie de Vales Rafa­el

Salo­mão
Thi­a­go Jus­ti­no

Sete Manei­ras
Antó­nio Nipi­ta

Mari­a­mu
Sabi­na Fon­se­ca

Jose­fi­no
Horá­cio Gui­am­ba

Pure­za
Celes­te Baloi

Amé­lia
Her­me­lin­da Sime­la

Adri­a­no Gil
Mário Mab­jaia

Celes­te Cara­ve­la
Vic­tor Rapo­so

Omar Ima­ni
Abdil Juma

Ascên­cio
Absa­lão Nar­du­e­la

Her­cu­la­no
Tune­cas Xavi­er

Dan­ger Man
Mário Valen­te

Bai­o­ne­ta
Absa­lão Maci­el

Cani­ve­te
Car­los Nove­la

Calis­to Con­fi­an­ça
Abdul Satar

Coman­dan­te Xipo­co
Alvim Cos­sa

 

EQUIPA

Direc­tor de Foto­gra­fia
Fré­dé­ric Ser­ve

Enge­nhei­ro de Som
Phi­lip­pe Fab­bri

Sound Design & Mis­tu­ras
Matthew James
Kiko Fer­raz

Mon­ta­gem
Wil­lem Dias

Direc­ção de Arte
Andrée du Pre­ez

Figu­ri­nis­ta
Isa­bel Peres

Ban­da Sono­ra Ori­gi­nal de
Joni Schwal­ba­ch

Adap­ta­do do livro homó­ni­mo por
Luis Car­los Patra­quim

Argu­men­to de
Licí­nio Aze­ve­do
Tere­sa Perei­ra

Um fil­me de
Licí­nio Aze­ve­do

Pro­du­zi­do por
Pan­do­ra da Cunha Tel­les & Pablo Ira­o­la

Co-pro­du­zi­do por
Licí­nio Aze­ve­do , Phi­lip­pe Avril , Beto Rodri­gues, Tati­a­na Sager , Eli­as Ribei­ro & John Tren­go­ve