O que é que a noite revela que o dia oculta? ou até “O que pode trazer a noite que de dia não é tão visível ? É a partir destas interrogações que o Centro de Estudos Cinematográficos (CEC) propõe, ao longo de três segundas-feiras de julho, o ciclo «O Outro Lado da Noite», na Casa do Cinema de Coimbra. Um programa que nasceu de uma reflexão partilhada durante a Queima das Fitas de Coimbra sobre o que acontece quando a escuridão não é ausência, mas condição de visibilidade.
O ciclo parte de uma pergunta aparentemente simples sobre a noite e a vergonha, sobre o que une e o que separa as pessoas num espaço de festa colectiva, para se tornar uma interrogação mais funda: sobre o tempo, o sacrifício, a deriva e o destino. Três filmes portugueses, três modos de habitar a noite.
«Verão Danado», de Pedro Cabeleira (2017, 128′, M/16), abre o ciclo a 13 de julho, às 21h30. Longa-metragem de estreia filmada praticamente sem orçamento, com uma câmera emprestada e atores recém-saídos da Escola Superior de Teatro e Cinema, o filme recebeu Menção Honrosa em Locarno e é hoje uma referência incontornável do cinema português contemporâneo. Em «mosaico», com dezenas de personagens que entram e saem, aparecem, desaparecem e voltam a aparecer, casa um realismo muito imediato e muito autêntico com longas cenas em transe, sem lição de moral a propor, arrastando o espectador para um vórtice onde «perdição» e «salvação» mal se distinguem, onde a juventude é uma coisa em suspensão. A primeira longa-metragem de Pedro Cabeleira teve seleção nos festivais de Locarno e Mar del Plata e conta com a direção de fotografia de Leonor Teles, Urso de Ouro em Berlim em 2016.
A 20 de julho, hora a anunciar, «António Um Dois Três», de Leonardo Mouramateus (Portugal/Brasil, 2017, 95′). Um jovem foge de casa e procura refúgio onde o tempo e o espaço se tornam elásticos. O filme distribui a mesma história por três perspectivas, como se a realidade só pudesse ser aproximada por oblíquas. Na 23.ª edição dos Caminhos do Cinema Português, o filme conquistou o Prémio de Melhor Longa-Metragem e o Prémio do Júri de Imprensa CISION, que reconheceu a sua «arquitectura narrativa original», «a relação orgânica entre personagens e narrativa» e «o facto de o filme não seguir um modelo ou referência óbvios».
O ciclo encerra a 27 de julho, hora a anunciar, com «Noite Escura», de João Canijo (2004, 112′, M/16). Inspirado em «Ifigénia em Áulis» de Eurípides e reunindo a habitual família de atores de Canijo, o filme apresenta-nos uma família que vê o seu destino traçado quando o pai se envolve numa dívida com a máfia russa. Os diálogos misturam Eurípides com frases do português vernáculo diretamente colhidas numa experiência de cariz sociológico ou etnográfico, e os actores dão corpo a essa realidade meticulosamente encenada. Se há um exemplo de cinema em Portugal dedicado ao trabalho dos e para os actores, ele existe e é dirigido por João Canijo. «Noite Escura» é um filme fundamental, não só na obra do próprio Canijo,mas por marcar o princípio de uma reflexão sobre o país adaptando o texto intemporal das tragédias clássicas. O elenco do filme composto por Rita Blanco, Beatriz Batarda, Cleia Almeida, Anabela Moreira e Fernando Luís excedem-se numa entrega que, vinte anos depois, continua a não ter paralelo.Integrou a Seleção Un Certain Regard em Cannes em 2004, o filme venceu o Prémio de Melhor Longa-Metragem na XII edição dos Caminhos do Cinema Português.
As sessões realizam-se na Casa do Cinema de Coimbra (Estúdio 2, Av. Sá da Bandeira, 33), com entrada livre para sócios do Centro de Estudos Cinematográficos e dos Caminhos do Cinema Português. Os Bilhetes custam 6€ (normal) e 5€ (reduzido, para estudantes, seniores, desempregados, membros de entidades parceiras). Bilhetes online em casacinemacoimbra.bol.pt
Sobre o Centro de Estudos Cinematográficos
O CEC é a secção cultural mais antiga da Associação Académica de Coimbra, fundada em 1958, dedica-se à promoção da sétima arte. Organiza ciclos de cinema ao longo do ano e colabora regularmente com o Festival Caminhos do Cinema Português.

