Arquivo de etiquetas: entrada livre

Estive em Lisboa e Lembrei de Você um Filme de José Barahona

Sérgio, um modesto funcionário da Companhia Industrial de Cataguases, Minas Gerais (Brasil), sofre uma reviravolta na sua vida: a sua mulher enlouquece, ele perde o emprego e a custódia do filho.
Decide emigrar para Lisboa, a conselho dos amigos, em busca de oportunidades de trabalho para recompor a sua vida. Ao chegar, Sérgio é confrontado com a dura realidade da imigração; o dia-a-dia e o contraste cultural vão revelar um lugar diferente daquele com que sonhara.
Este filme cujo argumento foi adaptado do romance homónimo do premiado escritor brasileiro Luiz Ruffato será exibido no dia 26 de Outubro às 22:00. A entrada no Mini-Auditório Salgado Zenha é livre. 

Introdução Histórica

Sérgio de Souza Sampaio (Paulo Azevedo) nasceu em Minas Gerais, quando, por força das circunstâncias, se vê sem emprego, sem a mulher e sem o filho, resolve dar uma volta à sua vida e emigrar para Portugal. É assim que chega a Lisboa, em busca de oportunidades de trabalho e cheio de esperança numa vida melhor. Mas o que ele vai encontrar é algo muito diferente do idealizado: os empregos escasseiam e as poucas vagas que sobram são mal remuneradas. Longe da família e do país que o viu nascer, vai ter de enfrentar a solidão, o desprezo e a estranheza de um povo muito diferente do seu.

Co-produção entre Brasil e Portugal, “Estive em Lisboa e Lembrei de Você” é a adaptação cinematográfica do romance homónimo de Luiz Ruffato. A realização e argumento fica a cargo de José Barahona (“Buenos Aires Hora Zero”, “O Manuscrito Perdido”), cineasta português radicado no Brasil.

SOBRE O REALIZADOR

Nasceu em Lisboa em 1969 e reside atualmente no Rio de Janeiro, Brasil. José Barahona realizou diversos documentários e curtas-metragens desde 1995, altura em que se formou em Lisboa na Escola Superior de Teatro e Cinema, tendo concretizado os seus estudos em Cuba e em Nova Iorque. Como realizador o seu trabalho transita num território híbrido em que documentário e ficção se misturam: os seus documentários têm, muitas vezes, dispositivos ficcionais, e as suas ficções uma relação muito estreita com o documental. Nesse sentido destacam-se o documentário longa-metragem O Manuscrito Perdido (2010), vencedor, entre outros, do Prémio TV Brasil de Melhor Longa-metragem na 15ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico (RJ). Foi publicado um livro sobre o filme com a chancela Selo Tordesilhas, com prefácio de Nelson Pereira dos Santos e o documentário Milho (Prémio CineEco
em Movimento, CineEco, Seia, Portugal, 2009). Realizou também a curta-metragem
Pastoral (2004), conquistando os prémios de Melhor Curta-Metragem no Caminhos do Cinema Português (Coimbra, 2005) e a Menção Honrosa no Fantasporto (Porto, 2005).
Estive em Lisboa e Lembrei de Você é a sua primeira longa-metragem de ficção.

ENTREVISTA A JOSÉ BARAHONA

Foi após a leitura do livro de Luiz Rufatto que decidiste fazer o filme Estive em Lisboa e Lembrei de Você? O que mais te cativou e inspirou no livro?


Houve vários aspetos que me cativaram assim que li o livro. Primeiro o facto de o livro ser apresentado, na introdução, como um depoimento dado por Sérgio de Souza Sampaio, o protagonista, ao autor em Lisboa e de o livro ser dedicado a um amigo de Ruffato que lhe apresentou o Sérginho. Depois dessa nota introdutória, o que se segue é uma suposta transcrição da entrevista dada por Sérgio na
primeira pessoa. Isso dá ao relato um “selo” de verosimilhança. Mas … trata-se de um romance. Sérgio
é uma pessoa real? Não sei. Não importa. Ele é um personagem de um livro. Ora em cinema isso seria,
se fizéssemos uma transposição literal, aquilo que chamamos de “falso documentário”. Poderíamos imaginar uma entrevista feita por alguém, num plano clássico de depoimento de documentário em
que um ator representaria esse relato. Imaginei imediatamente que esse relato seria entrecortado com a reconstituição ficcional de algumas das cenas do livro criando assim um híbrido entre o “falso documentário” e a ficção. Talvez até mesmo encontrar alguém em Cataguases, cidade natal de Sérginho, que quisesse vir para Lisboa e usar a sua vinda, suas motivações e sonhos como âncora do filme. Isso não veio a acontecer pois a crise estava à porta em 2010/11, e o que acontecia era que os brasileiros que estavam em Lisboa começavam a pensar no seu regresso.

Depois o facto de eu, e muitos portugueses, sempre convivermos com pessoas com histórias de vida semelhantes: a imigração de pessoas menos qualificadas que trabalham em Lisboa e noutras cidades de Portugal em restaurantes, bares, cafés, na construção civil, etc. Mas eu tinha muita curiosidade de saber como era a vida deles antes de chegarem a Lisboa. Disso eu pouco sabia. Se por um lado houve muitos brasileiros que vieram para Lisboa já com trabalho assegurado como publicitários, arquitetos ou outras profissões, inclusive no audiovisual, estas pessoas mais humildes sonhavam com um Portugal e uma Lisboa onde poderiam construir uma vida melhor. Isso intrigava-me desde há muito. Foi preciso começar a trabalhar no Brasil e a conhecer mais de perto a sua realidade para perceber que a miséria no Brasil é muito mais profunda e desumana que em Portugal. Quando estamos em Portugal temos tendência a pensar que as coisas estão muito mal, que a vida é muito difícil economicamente, que é o pior país do mundo. Não é. Mesmo com a crise em Portugal, e mesmo com todos os progressos alcançados pelas políticas sociais dos últimos governos no Brasil, infelizmente a miséria no Brasil é infinitamente superior à existente em Portugal. O grau de pobreza, de escravidão, de fome e de exploração do homem pelo homem, as desigualdades e o abismo social entre ricos e pobres é muito maior!
E finalmente eu quis fazer deste livro um filme porque ele é de certa forma um espelho de mim próprio. Dadas todas as distâncias que referi anteriormente, eu estava nesse momento a chegar ao Brasil

como imigrante por causa da crise portuguesa e por causa da paralisia total na produção de cinema que se deu nessa época. Essa deslocação, o estar fora do meu lugar é algo com que me identificava.
Eu poderia descobrir o passado do protagonista no Brasil, e retratar o estranhamento dele na cidade onde vivi quase toda a minha vida.

Dizes que ao chegar a Lisboa a personagem se debateu com uma realidade diferente daquela que sonhara. Com que Lisboa sonhava ele?

Não sei bem… não sei bem com o que sonhamos quando partimos do nosso lugar para um lugar que não o nosso. Há um mito de Lisboa, “a magnífica” no imaginário brasileiro. O lugar onde tudo começou, as origens, a arquitetura dos velhos prédios lisboetas que se parece com as cidades coloniais no Brasil. A Europa, em geral, como um lugar mais tranquilo, pacifico. Para os indígenas o começo do fim.
O que chega ao Brasil não é a decadência social, económica e política que está a acontecer em Portugal. Isso é uma coisa que acontece muito. O “quintal do vizinho é sempre melhor que o meu”. É preciso
viver num determinado lugar para percebermos os problemas que aí existem. Mas para os brasileiros e portugueses, em geral, acho que existe a sensação que, por causa da língua e das relações históricas,
será mais fácil encontrar o nosso lugar ao fazer essa troca de país. Os brasileiros, por terem sempre recebido e até sido invadidos pelos portugueses, por terem graus de parentesco familiar (quase todos
os brasileiros têm alguma ascendência portuguesa próxima), pensam que serão bem recebidos em Portugal. De alguma forma Portugal para os brasileiros é um lugar onde também podem pertencer. O que muitas vezes não é tão simples assim. Além disso quando se vai para fora do nosso país perdemos as nossas referências. E falo no plural, por mim, pelo Sérgio e pelos muitos imigrantes que encontrei e
entrevistei na pesquisa para este e outros filmes. Os amigos, a família e a cultura ficam para trás. Não é fácil… Nunca é muito fácil. E há toda uma série de problemas que podem acontecer… No fundo todos procuramos uma vida melhor. Poder trabalhar e sustentar as nossas famílias. Esse é o ponto central daquilo que se procura, um sonho de uma vida melhor, num novo lugar onde se possa pertencer.

Procuraste pessoas que tinham histórias semelhantes às descritas no livro. Como foi essa pesquisa?
Na verdade eu fiz o caminho inverso que o Luiz Ruffato fez. Ele deve ter encontrado essas pessoas e transformou-as em personagens do seu livro. Ou juntou histórias e construiu as personagens a partir
de várias pessoas com vidas semelhantes. Eu procurei pessoas que tivessem histórias de vida parecidas com as que Ruffato descreve e transformei-as em personagens do filme. Na verdade, eu não queria que isso fosse notório no filme, mas isso vem um pouco da minha experiência no documentário.
A única diferença é que em cena, muitas vezes, essas pessoas que representam elas próprias em vez de falar para mim, fora do quadro, falam para o Sérgio. Por isso também ele é um espelho de mim
próprio. Por vezes, eu ficava com o lugar do Paulo Azevedo, o actor que interpreta o Sérgio, e ficava perto dele e perguntava coisas, ou segredava ao seu ouvido as perguntas que ele poderia fazer. Enfim,
o filme é muito híbrido porque mistura muitas técnicas do documentário e da ficção, encenando o documentário como sempre fiz nos meus outros filmes. Não é muito importante o processo. Importa que o resultado final é um trabalho conjunto para o qual todos contribuíram. Não tem nada a ver com uma aproximação à realidade. A realidade de um filme é o filme quando é visto.


Começaste a tua procura em Cataguases, no entanto não encontraste ninguém que tivesse partido.
Qual foi o passo seguinte?

Encontrar o ator perfeito para encarnar o Sérgio: o Paulo Azevedo.

No início pensaste em fazer um documentário sobre o livro. O que te levou a mudar de ideia?


No início, pensei que iria usar mais a linguagem do que habitualmente chamamos documentário. No entanto, fui abandonando a ideia a meio do processo. Mas apenas aparentemente, como disse antes.
O filme parece ficção, mas tem muito de documental. Há um momento em que os filmes se libertam dos seus autores. Pelo menos, isso acontece comigo e aconteceu-me neste filme. O filme toma vida própria, como se pedisse para ser feito de uma determinada maneira, com uma determinada linguagem que já não somos nós que controlamos. Apenas vamos atrás do filme e do que e
demanda. Não sei explicar… é como se criasse a sua própria dinâmica da qual já não se pode escapar. Isso é bom, porque significa que estás a trabalhar em algo consistente, algo que tomou um rumo muito determinado no qual as escolhas do realizador são de forma a seguir um rumo traçado. É o filme, são as imagens e os sons que ao serem manipulados na filmagem e na montagem tomam forma que para o meu olhar só poderia ser aquela.

Trata-se de uma história bastante atual. A ida dos pobres para a Europa. Que paralelismo fazes com a recente questão dos refugiados?


Os refugiados, mais do que uma vida melhor, procuram a sobrevivência. É um caso ainda mais extremo. Uma guerra é algo sem explicação e justificação. No entanto, sei agora que muitas pessoas no Brasil vivem em lugares de “quase-guerra”, que é o que acontece nas favelas controladas pelo tráfico no Rio de Janeiro, por exemplo. Quando o tráfico proíbe as pessoas de sair de casa num determinado dia, quando as pessoas não vão trabalhar num outro dia por causa dos tiroteios entre as várias fações rivais, isso é viver debaixo de uma guerra. Conheço pessoas que vivem essa situação.
Então pode não ser tão diferente assim. E nós devíamos ter essa consciência ao receber os brasileiros em Portugal. Todos os países deveriam estar de braços abertos uns para os outros em situações de catástrofe como a que se passa agora na Síria e com a chegada de milhares de pessoas à Europa São vergonhosas as barreiras que se criam! Mas é uma realidade. O que existe em comum é que, ao chegarem e ao serem acolhidos (o que nem sempre acontece), eles vão passar pelas mesmas dificuldades que todos os outros imigrantes passam. Estes movimentos de pessoas entre países (o Brasil recebeu muitos portugueses por causa da crise em Portugal) devem ensinar-nos algo que já deveríamos ter aprendido, mas que muitas pessoas parecem ainda não saber: que o mundo é um só lugar, e que os homens traçam linhas imaginárias a que chamam fronteiras. Devemos aprender a ser tolerantes, a receber quem precisa de ajuda. Mas isto parece um discurso tão básico e tão óbvio que por esta altura não deveria necessitar de ser feito.

Infelizmente, a intolerância religiosa e cultural, o preconceito e a xenofobia ainda existem neste nosso
mundo. Acho que isso é bem patente neste filme. Eu pude vivenciar isso em Portugal com amigos e familiares brasileiros. Era também sobre isso que queria falar. Se nos virmos nesse espelho que é o
cinema, se nos rirmos de nós próprios, talvez na próxima oportunidade em que nos defrontemos com determinadas situações se possa agir de maneira diferente. Muitas vezes o preconceito é inconsciente, está enraizado. E uma coisa é brincar com as diferenças culturais com um sorriso nos lábios, outra é a
descriminação feita de uma forma mais violenta.
Estes problemas já deviam estar ultrapassados no Séc. XXI. Temos questões mais importantes para resolver, como a fome, a miséria, a pobreza, a guerra e um planeta à beira de uma catástrofe ambiental!

EQUIPA

Realização e Argumento – JOSÉ BARAHONA

Fotografia – DANIEL COSTA NEVES

Som – PEDRO SÁ EARP

Montagem – JOSÉ BARAHONA e PATRÍCIA SARAMAGO

Edição de som e misturas – TIAGO MATOS

Música – FELIPE AYRES

Produção – CAROLINA DIAS (Refinaria Filmes – Brasil)

Co-Produção – FERNANDO VENDRELL (David & Golias – Portugal) e MÔNICA BOTELHO (Mutuca Filmes – Brasil)

“Comboio de Sal e Açúcar” de Licínio Azevedo

Comboio de Sal e Açúcar é um western africano que chega às salas portuguesas a 28 de setembro. Rodado em Moçambique numa co-produção internacional liderada por Portugal, o filme já passou por mais de 20 festivais, tendo estreado em Locarno e arrecadado prémios em Joanesburgo e Cairo, nas categorias de Melhor Filme e Melhor Realizador. Vai estrear ainda este ano nos Estados Unidos, Suíça e França. É exibido no Mini-Auditório Salgado Zenha no próximo dia 12 de Outubro às 22:00. A entrada é livre.

Um Western Africano

Um comboio. 400 quilómetros em linhas sabotadas. Dois capitães lutam pelo amor de Rosa. Entre feitiçaria e ataques constantes, um comboio com centenas de pessoas é obrigado a inúmeras paragens até chegar ao seu destino. Uma viagem que decorre a 5km/h através de luxuriantes paisagens africanas, onde o perigo espreita antes da próxima estação.

Introdução Histórica

1964, em Moçambique, então uma colónia portuguesa, as forças da guerrilha da FRELIMO – Frente de Libertação de Moçambique – iniciam uma guerra pela autodeterminação do país. Dez anos depois, a FRELIMO assumiu o governo do país. O novo governo, sob a presidência de Samora Machel, estabeleceu um Estado unipartidário baseado em princípios marxistas. Começa pouco depois uma longa guerra civil, sustentada pela Rodésia e pela África do Sul, países vizinhos com governos de minorias brancas, que na altura não queriam que o governo revolucionário moçambicano servisse de exemplo na região. As forças oposicionistas ao Governo intitulam-se Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO). Esta guerra leva o país à ruina com a quase total destruição da agricultura e das infra-estruturas terrestres. É só no início dos anos 90 que o país inicia reformas estruturais e volta a ter paz. Actualmente, Moçambique volta a ser assolado pela violência, tendo havido vários confrontos armados no centro e no norte do país.

Estive em Lichinga, capital da Província do Niassa, último ponto onde os comboios paravam antes da fronteira com o Malawi, seu destino final.

A cidade estava isolada do resto do país por via rodoviária. A chegada dos comboios era cada vez mais espaçada e uma enorme multidão reunia-se na estação para os receber.

Tive a oportunidade de ver uma dessas chegadas e o estado terrível daqueles que desembarcavam, semanas depois do início da viagem em que arriscavam as suas vidas.

— Licínio Azevedo

ENTREVISTA COM LICÍNIO AZEVEDO

O Comboio de Sal e Açúcar existiu realmente?

Durante a guerra civil em Moçambique, que acabou em ‘92, eu ouvia muitas histórias sobre este comboio, no norte do país, histórias maravilhosas. Não havia nada no país, nem mesmo açúcar para o chá, sendo que antes Moçambique era um grande produtor de açúcar. Nessa época, chegavas a um café, pedias um chá, e diziam-te: “Há chá… Mas não há açúcar.” Então as mulheres, no norte do país, descobriram uma maneira astuta para sustentar as suas famílias. Compravam sal no litoral moçambicano e depois viajavam 700 km até ao Malawi, no interior do continente. Uma viagem que hoje leva menos de um dia, na época podia levar até três meses. Levavam sal para vender no Malawi e com o resultado compravam açúcar, depois regressavam e vendiam o açúcar, e com isso sustentavam a família por vários meses. Depois, toca de viajar outra vez.

Este comboio levava passageiros?

Durante a guerra não era suposto, mas as pessoas viajavam voluntariamente, sem pagar bilhete, em vagões abertos, com uma antiaérea e com uma escolta militar. Era um comboio que partia uma vez de três em três meses, quando as condições permitiam. Depois há uma parte de ficção, a existência de um barco de pesca gigante…

Se a acção se passa no norte do país, porque não filmar lá?

O norte do país está totalmente modificado, modernizado e, actualmente, em guerra. Por isso optámos pelo sul de Moçambique, onde as linhas férreas e estações ainda correspondem ao período da história, tal como as locomotivas que nelas circu

lam… Filmámos na linha que vai de Maputo para a Suazilândia e para a África do Sul mas tivemos um grande trabalho de decoração para dar outros tons às estações tal como recuperar as máquinas e vagões de escolta que já estavam desactivados.

Porque não fizeste um documentário?

Na época ainda tentei mas os produtores diziam “Você é maluco! Quem é que vai colocar dinheiro para equipamento e tudo mais, para fazer uma viagem de três meses? Ainda morrem, e depois não há filme.” Logo que a guerra acabou, a primeira coisa que fiz foi apanhar esse comboio. Fiz a viagem várias vezes, entrevistando os trabalhadores dos Caminhos-de-Ferro, as mulheres que trocavam o sal pelo açúcar, os militares… E escrevi um livro – Comboio de Sal e Açúcar. Para mim, tudo o que não é feito no momento, em cinema, deixa de ser documentário. Não gosto de fazer documentários sobre o passado, gosto de fazer sobre o que está a acontecer. Para mim, tudo o que já aconteceu, passa a ser ficção.

O teu livro começa com uma frase: “Aqueles que nos atacavam eram terríveis, mas aqueles que nos protegiam por vezes eram piores”. Qual é o significado simbólico do comboio?

É como um microcosmos onde coexistem muçulmanos, cristãos e animistas, numa atmosfera de traições, ataques e morte, mas também de esperança renovada. “Quando o sol nasce todas as esperanças se renovam”, já dizia o meu velho Hemingway. E assim se vai mantendo o equilíbrio, porque dentro do comboio todos os passageiros arriscam as suas vidas. Durante a guerra temos tendência a diferenciar os bons dos maus, mas isso nem sempre é fácil. Aqueles que atacam o comboio são terríveis mas por vezes, aqueles que o deveriam proteger, são muito piores. No filme a Rosa testemunha a dura realidade da guerra e por isso ouvimo-la dizer essa frase…

Estes personagens são reais?

Alguns são levemente baseados em personagens reais, outros são completamente ficcionais, como o personagem principal, Taiar. Neste filme há três grupos de personagens: os militares que protegem e controlam o comboio, entre os quais há os bons e os maus; os trabalhadores dos caminhos-de-ferro que permitem que o comboio siga o seu caminho e que são a intelligentsia; e os civis, sobretudo mulheres, que viajam e que representam a luta humana mais básica: a sobrevivência.

Como defines a relação entre Taiar e Salomão?

O Taiar é um tenente com uma mentalidade moderna, científica, que estudou numa academia militar na Ucrânia, ex-União Soviética e que tem um pensamento diferente por ser jovem, tenente e ter recebido formação fora do país. O seu antagonista é o alferes Salomão que ganhou a sua patente na guerra. É um grande combatente mas tem uma visão mais fechada. Sente-se dono do mundo, dono das mulheres, do comboio…

Existe um lado mágico nesta guerra?

Existe na guerra como existe na própria vida quotidiana dos moçambicanos. Não diria exactamente magia mas uma relação com os antepassados, com os espíritos…. Em Moçambique, durante a guerra civil, houve uma terceira força armada, que estava ao lado do governo da FRELIMO, que eram os Naparamas, um exército de homens à prova de balas, invulneráveis, que lutavam nus e usavam armas tradicionais, arco e flecha, catanas, não usavam armas de fogo. Bastava que o inimigo soubesse da aproximação dos Naparamas e retirava. Até que um dia mataram Manuel António, o comandante dos Naparamas, com 150 tiros. E aí disseram: “Viram, não é à prova de bala.” Mas logo apareceu uma justificação: o inimigo havia enviado uma feiticeira, uma mulher lindíssima, que o seduziu, levando-o a fazer amor com ela antes de combater. Eles tinham de cumprir um ritual, não podiam comer comida com sal durante três dias antes de ir para combate, e não podiam fazer amor. Ele fez amor e por isso foi morto. Esta foi a explicação dada pela população. A magia faz assim parte da vida quotidiana, e em África, não há guerra sem magia.

E algum personagem encarna essa magia?

Sete Maneiras, o comandante responsável pela protecção do comboio, é um feiticeiro à prova de bala que na sua juventude teve a iniciação tradicional dos makondes no norte de Moçambique. Para ser adulto tem que se matar um leão com arco e flecha. Sete Maneiras, como passou por essa iniciação, consegue falar com os pássaros, transformando-se mesmo num para fazer reconhecimento. Já o comandante inimigo, Xipoco (“fantasma” em língua xangana), também se transforma em macaco para fazer o mesmo.

Como foi rodar todos os dias com 13 vagões?

Fantástico e infernal. Impossível sem o apoio incondicional dos Caminhos de Ferro de Moçambique. Durante a rodagem, o engenheiro de som fez um trabalho extraordinário com ele, com os sons das rodas a ranger, da locomotiva a trabalhar… Naquele tempo nunca podiam desligar o motor da locomotiva, porque depois podia não pegar, então transportámos essa realidade para o filme. O som do comboio é um som permanente, uma banda sonora fundamental que foi pontuada pelo Schwalbach com instrumentos tradicionais africanos, tambores e com a mbira para pontuar as cenas de amor.

Porque dizes que este filme é um western?

Eu adoro western, é o meu género preferido, e o filme tem um pouco essa estrutura. Nos filmes de cowboy o bandido sempre anda em quadrilha, então Salomão tem os seus seguidores, e Taiar também tem os seus. É como o Zorro e o Tonto, tem o Taiar que é o Zorro e tem o Tonto que é o índio de lado, que é o adjunto dele e que no final assume o papel do Taiar. O Tonto passa a ser o Zorro. Sempre comparo os dois com o meu western preferido, Shane, filme do George Stevens, de 1951. Também há o facto de termos rodado nas paisagens do sul de Moçambique, que são magníficas e que nesta época do ano correspondem também aos filmes como os de John Ford, em que o cowboy aparece naquela planície com o capim alto, amarelo… e que na pós-produção ainda lhe conferimos uma temperatura de cor mais quente. É o primeiro western africano moderno. Quem gosta de filmes western vai-se encontrar neste filme.

LICÍNIO AZEVEDO

Licínio Azevedo é cineasta e escritor moçambicano. Faz parte da geração de cineastas formada no Instituto Nacional de Cinema de Moçambique, nos anos que se seguiram à Independência, com a intervenção de diferentes realizadores, entre eles Ruy Guerra, Godard e Jean Rouch. Como escritor e como cineasta, a sua obra é estreitamente ligada à realidade do país e aos diversos momentos da sua conturbada evolução. Entre o documentário e a ficção, Licínio mistura ambos os géneros, inspirando-se sempre em acontecimentos narrativos e personagens cativantes.

Filmografia Seleccionada

2016
COMBOIO DE SAL E AÇÚCAR
93’, Ficção

2012
VIRGEM MARGARIDA
90’, Ficção

2010
A ILHA DOS ESPÍRITOS
63’, Documentário

2007
HÓSPEDES DA NOITE
53’, Documentário

2006
O GRANDE BAZAR
56’, Ficção

2005
ACAMPAMENTO DE DESMINAGEM
60’, Documentário

2003
MÃOS DE BARRO52’,
Documentário

2002
DESOBEDIÊNCIA
92’, Ficção/Documentário

2001
A PONTE
52’, Documentário

ELENCO

Taiar
Matamba Joaquim

Rosa
Melanie de Vales Rafael

Salomão
Thiago Justino

Sete Maneiras
António Nipita

Mariamu
Sabina Fonseca

Josefino
Horácio Guiamba

Pureza
Celeste Baloi

Amélia
Hermelinda Simela

Adriano Gil
Mário Mabjaia

Celeste Caravela
Victor Raposo

Omar Imani
Abdil Juma

Ascêncio
Absalão Narduela

Herculano
Tunecas Xavier

Danger Man
Mário Valente

Baioneta
Absalão Maciel

Canivete
Carlos Novela

Calisto Confiança
Abdul Satar

Comandante Xipoco
Alvim Cossa

 

EQUIPA

Director de Fotografia
Frédéric Serve

Engenheiro de Som
Philippe Fabbri

Sound Design & Misturas
Matthew James
Kiko Ferraz

Montagem
Willem Dias

Direcção de Arte
Andrée du Preez

Figurinista
Isabel Peres

Banda Sonora Original de
Joni Schwalbach

Adaptado do livro homónimo por
Luis Carlos Patraquim

Argumento de
Licínio Azevedo
Teresa Pereira

Um filme de
Licínio Azevedo

Produzido por
Pandora da Cunha Telles Pablo Iraola

Co-produzido por
Licínio Azevedo , Philippe Avril , Beto Rodrigues, Tatiana Sager , Elias Ribeiro & John Trengove

Ciclo “Fusões no Cinema” dedicado à Literatura

O Ciclo de Cinema – Fusões no Cinema – organizado pelo Centro de Estudos Cinematográficos e os Caminhos do Cinema Português irá retomar na próxima semana e será dedicado agora à Literatura.

Começa quinta-feira dia 12 de Outubro às 22h00 no Mini-Auditório Salgado Zenha da AAC, com a estreia em Coimbra do filme Comboio de Sal e Açúcar de Licínio Azevedo, realizador e escritor que adapta a sua própria obra literária ao cinema. Depois iremos viajar até à literatura francesa com Albert Camus, autor que alguns classificam como um apaixonado pela existência, cuja obra adaptada Longe dos homens tem banda sonora original composta por Nick Cave e Warren Ellis.

O Ciclo que terá lugar todas as quintas-feiras de 12 de Outubro a 9 de Novembro, incluirá também obras adaptadas ao cinema de Luiz Ruffato, Fernando Pessoa e José Saramago. Além disso, terá uma sessão especial para o dia das bruxas, dia 31 de Outubro à 00h00, com A Instalação do Medo de Ricardo Leite e o filme protagonizado por Nuno Melo, O Barão de Edgar Pêra que explora a obra de Branquinho da Fonseca num registo que ressuscita o expressionismo alemão dos anos 1920.

Programação

12 de Outubro – 22h00
Comboio de Sal e Açúcar de Licínio Azevedo

19 de Outubro – 22h00
Longe dos homens de David Oelhoffen

26 de Outubro – 22h00
Estive em Lisboa e Lembrei de Você de José Barahona

31 de Outubro – 00h00
A Instalação do Medo de Ricardo Leite
O Barão de Edgar Pêra

 

2 de Novembro – 22h00
Filme do Desassossego de João Botelho
Sessão comentada por Manuel Portela (FLUC)

9 de Novembro – 22h00
Ensaio sobre a Cegueira de Fernando Meirelles

Entrada Livre

A Literatura no Cinema

Virgílio Ferreira, ao contrário daquilo que era defendido por Ingmar Bergman, considerava que o Filme poderia ser um meio de projecção das ideias literárias de um escritor. Do livro ao filme, pouco se perde quanto ao conceito que fundamenta a Obra, mudando apenas o seu formato e meio para apreensão do leitor-espectador.

Consideramos que o que une a Literatura ao Cinema é a participação activa daquele que lê e que assiste ao filme. Seja transformar palavras em quadros imagético-imaginários pela mente do leitor, ou a transformação de imagem fixa em movimento pelo cérebro do espectador, há uma necessidade premente da mente daquele que se submete à recepção da Obra.

Mais que um meio de comunicação de texto, através do argumento por exemplo, o Filme que se baseia no Livro é uma oportunidade de mudança de perspectiva. O que o Filme consegue fornecer, é a capacidade de ver com olhos abertos a forma como o Realizador montou mentalmente o texto que leu e assim o explorou. Na prática, o que o Realizador faz é desviar o olhar do leitor convencional, que olha para baixo, levando-o a erguer os olhos para a tela, ouvindo e vendo o esqueleto narrativo deixado pelo Escritor, enriquecido com elementos técnicos e estéticos cinematográficos para uma apreensão do cerne argumentativo.

Neste ciclo, pretende-se que o típico espectador seja arrastado para o mundo da Literatura, deixando-lhe a semente da curiosidade literária, ao mesmo tempo que aproximamos os apaixonados pelos clássicos a uma nova forma de ver o texto em movimento. Viajando pelo mundo criativo de diversos autores, o espectador terá a oportunidade de ver o Texto e o Escritor em tela, deixando-se marcar pela capacidade criativa num sentido duplo: da Escrita e da Realização. É a oportunidade de juntar leitores e cinéfilos, ambos com o desejo de assimilação da arte pela sua contribuição activa: sem leitor, o escrito não ganha vida; sem espectador, a tela apresenta meras imagens sem movimento.

O Ciclo “Fusões no Cinema”  será comentado por Manuel Portela.

https://apps.uc.pt/mypage/faculty/mportela/

SaveSave

Cinanima · Pré-Festival em Coimbra

O Centro de Estudos Cinematográficos e a Universidade de Coimbra associam-se, pelo segundo ano consecutivo, ao CINANIMA – Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho, que vai na sua 41ª Edição, nesta iniciativa do Pré-Festival 2017.

O CINANIMA exibe na cidade de Coimbra, nestas quatro datas, um olhar sobre a sua programação extra-competição deste ano. O Festival decorrerá entre os dias 6 e 12 de novembro na cidade de Espinho.

As sessões decorrerão às terças-feiras às 21:30 com entrada livre no Mini-Auditório Salgado Zenha (Piso 0 da AAC).

A programação para a extensão do Cinanima na Academia de Coimbra é a seguinte:

3 de Outubro
– Selecção Premiados CINANIMA 2016

10 de Outubro
– “10 Anos do Estúdio de Animação da Academia de Belas Artes” – Áustria

17 de Outubro
– “CSC Animazione – Centro Sperimentale di Cinematografia Piemonte – National School” – Itália

24 de Outubro
– “Best of KAFF – Kecskmét Animation Film Festival” – Hungria

Ciclo de Cinema “Fusões no Cinema” dedicado à Música

Os Caminhos do Cinema Português e o Centro de Estudos Cinematográficos retomam o seu ciclo de cinema “Fusões no Cinema” esta quinta-feira dia 18 de Maio. O ciclo terá lugar todas as quintas-feiras às 22h00 no Mini-Auditório Salgado Zenha da Associação Académica de Coimbra. A programação inclui obras especialmente dedicadas à música e percorre o espírito da contracultura nacional, desde os anos 60 com o filme Meio Metro de Pedra, aos anos 80 com o grupo Heróis do Mar retratado em Brava Dança, até hoje, acompanhando a banda Humanos que retomou a obra de António Variações e também, David Santos com os temas de Noiserv. Depois navegamos até ao outro lado do oceano Atlântico ao ritmo do Tango com A morte de Carlos Gardel, obra adaptada de António Lobo Antunes e por fim, chegamos até à cidade Surabaia, onde nos encontramos com uma geração de jovens indonésios que se juntam à volta duma cultura musical controversa, o black metal.

Entrada gratuita e limitada à lotação da sala

Programação

18 de Maio

Meio Metro de Pedra de Eduardo Morais / 68min / 2011

“Boa noite, sejam bem-vindos a mais uma emissão do Meio Metro de Pedra. O programa que todas as semanas vos conta as histórias que uma data de meninos e meninas andaram a fazer pelo rock do nosso belo país.”

Assim arranca o documentário sobre a contracultura do rock’n’roll nacional desde o seu surgimento no fim da década de 50 até aos nossos dias. Na década de 60, inspirados por bandas como os Shadows, Bill Haley ou os Beatles, cerca de 3000 conjuntos de norte a sul de um país sob a alçada de Oliveira Salazar abalaram as editoras inconscientes deste som emergente. Um impulso de espírito ousado que percorreu o psicadelismo dos Jets, o punk dos Aqui D’el Rock, e se estabeleceu em pontos nevrálgicos como Braga, Coimbra ou Barreiro. Um pedaço da história de Portugal que tende a ser ocultado sobrevive através do selo independente da Ama Romanta, da Bee Keeper, da Lux ou da Groovie Records, e tem neste documentário de Eduardo Morais, a sua merecida celebração.

25 de Maio

Brava Dança de Jorge Pires e José Pinheiro / 80min / 2007

Um documentário de Jorge Pires e José Pinheiro que revisita a história do grupo Heróis do Mar. Um confronto entre as imagens de um Portugal antigo e de um Portugal moderno. As ideias, os ideais e as dinâmicas da música popular portuguesa da década de 80, pela voz dos músicos e não-músicos envolvidos.

1 de Junho

Humanos – A Vida em Variações de António Ferreira / 35min / 2006

Um dia, inadvertidamente, é descoberta uma caixa de sapatos esquecida numa prateleira de uma editora discográfica. Dentro desta, estão cassetes contendo gravações inéditas de António Variações, que ele fazia num pequeno gravador no seu quarto, registando os mais intimos momentos de inspiração. Ao escutar estas gravações, onde Variações cantava na mais pura das situações – sem acompanhamento musical, às vezes mesmo sussurrando para não acordar os vizinhos – percebeu-se que este tesouro não podia ficar por revelar. Assim nasceram os HUMANOS. Uma super-banda, constituida por super-músicos, onde Manuela Azevedo, David Fonseca e Camané dão voz às músicas e letras de António Variações. Este filme acompanha o processo de preparação dos espectáculos ao vivo nos Coliseus de Lisboa e Porto no Verão de 2005, bem como nos revela de que forma os músicos abordaram estes esboços de canções, que apesar de despidos, continham toda a vibração e energia que António Variações nos deixou.

Noiserv {Sessão Dupla} de Paulo Dias / 25min / 2011

A partir dos temas de Noiserv, um projecto musical português interpretado por David Santos, conta-se a história de três personagens com diferentes ambições. Numa viagem entre memórias e sonhos, a ficção é intercalada num filme concerto que poderia ser a banda-sonora para o dia-a-dia.

8 de Junho

A morte de Carlos Gardel de Solveig Nordlund / 85min / 2011

Um jovem (Carlos Malvarez) toxicodependente está a morrer num hospital. Junto a ele, à medida que vão vivendo a evolução da sua agonia, cada um dos seus familiares mais próximos evoca uma teia de recordações, de memórias obsessivas e de vivências actuais. Todos eles são portadores de sonhos e desalentos da vida. O pai do jovem (Rui Morisson), apaixonado pelo tango e pela figura de Carlos Gardel, o mais famoso dos cantores de tango argentino, percorre simbolicamente um rosário de situações dolorosas. Delirante, confunde-o com um cantor parecido (Ruy de Carvalho).

15 de Junho

À l’est de l’enfer de Matthieu Canaguier / 45min / 2013

Surabaia. Caos urbano, labirinto de ferro e cimento. No coração da cidade toda uma geração de jovens indonésios procuram-se, revoltam-se e juntam-se à volta duma música underground e controversa: O Black Metal.