Centro de Estudos Cinematográficos

Isabel Ruth, o acto ou a faculdade de ver

            Escre­vo sobre Isa­bel Ruth des­de um lugar de memó­ria, a memó­ria dos fil­mes que me habi­tam, memó­ria ins­cri­ta no pas­sa­do geral e, por vezes, des­te indes­trin­çá­vel. Escre­vo sobre a gran­de actriz por­tu­gue­sa a par­tir de um blo­co con­cre­to de memó­ria, vol­tan­do ao momen­to em que, aos dezoi­to anos, vi, pela pri­mei­ra vez, Os Ver­des Anos (1963), de Pau­lo Rocha, na Cine­ma­te­ca Por­tu­gue­sa. Se o acto de reme­mo­ra­ção é indis­so­ciá­vel do pro­ces­so para­le­lo de esque­ci­men­to, essa pri­mei­ra visão só pode ser des­cri­ta como um arre­ba­to sines­té­si­co. Já não recor­do cla­ra­men­te os con­tor­nos da intri­ga ou a estru­tu­ra céni­ca, mas pre­va­le­ce — e repe­te-se, com dis­tin­tos graus de inten­si­da­de, a cada nova invo­ca­ção — a exal­ta­ção sen­so­ri­al de que fui pre­sa ao ver a deli­ca­da sequên­cia do bai­le, os cor­pos dan­çan­tes de Ilda (Isa­bel Ruth) e de Júlio (Rui Gomes) nes­sa Lis­boa onde, segun­do João Bénard da Cos­ta, “tudo se frus­tra e tudo ago­ni­za numa mor­te bran­da”. No pre­sen­te, hori­zon­te tem­po­ral em que se con­ser­vam e acu­mu­lam capas de pas­sa­do, esse ins­tan­te supe­ra a expe­ri­ên­cia viven­ci­al cine­ma­to­grá­fi­ca para devir ple­na­men­te par­te dos meus pró­pri­os “ver­des anos”. Se é cer­to que a memó­ria des­sa expe­ri­ên­cia ori­gi­nal da ope­ra pri­ma de Rocha se rees­tru­tu­ra a cada novo visi­o­na­men­to, a figu­ra de Isa­bel Ruth fará para sem­pre par­te não só da minha memó­ria cine­ma­to­grá­fi­ca, como tam­bém da minha memó­ria afec­ti­va.

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