Isabel Ruth, o acto ou a faculdade de ver

ella no era una per­so­na sino el acto, la facul­tad de mirar…”

(Juan Car­los Onet­ti, El Astil­le­ro)

            Escre­vo sobre Isa­bel Ruth des­de um lugar de memória, a memó­ria dos fil­mes que me habi­tam, memó­ria ins­cri­ta no pas­sa­do geral e, por vezes, des­te indes­trin­çá­vel. Escre­vo sobre a gran­de actriz por­tu­gue­sa a par­tir de um blo­co con­cre­to de memó­ria, vol­tan­do ao momen­to em que, aos dezoi­to anos, vi, pela pri­mei­ra vez, Os Ver­des Anos (1963), de Pau­lo Rocha, na Cine­ma­te­ca Por­tu­gue­sa. Se o acto de reme­mo­ra­ção é indis­so­ciá­vel do pro­ces­so para­le­lo de esque­ci­men­to, essa pri­mei­ra visão só pode ser des­cri­ta como um arre­ba­to sines­té­si­co. Já não recor­do cla­ra­men­te os con­tor­nos da intri­ga ou a estru­tu­ra céni­ca, mas pre­va­le­ce e repe­te-se, com dis­tin­tos graus de inten­si­da­de, a cada nova invo­ca­ção a exal­ta­ção sen­so­ri­al de que fui pre­sa ao ver a deli­ca­da sequên­cia do bai­le, os cor­pos dan­çan­tes de Ilda (Isa­bel Ruth) e de Júlio (Rui Gomes) nes­sa Lis­boa onde, segun­do João Bénard da Cos­ta, “tudo se frus­tra e tudo ago­ni­za numa mor­te bran­da”. No pre­sen­te, hori­zon­te tem­po­ral em que se con­ser­vam e acu­mu­lam capas de pas­sa­do, esse ins­tan­te supe­ra a expe­ri­ên­cia viven­ci­al cine­ma­to­grá­fi­ca para devir ple­na­men­te par­te dos meus pró­pri­os “ver­des anos”. Se é cer­to que a memó­ria des­sa expe­ri­ên­cia ori­gi­nal da ope­ra pri­ma de Rocha se rees­tru­tu­ra a cada novo visi­o­na­men­to, a figu­ra de Isa­bel Ruth fará para sem­pre par­te não só da minha memó­ria cine­ma­to­grá­fi­ca, como tam­bém da minha memó­ria afec­ti­va.

Nos Ver­des Anos, Isa­bel Ruth afir­ma-se, nas pala­vras de Bénard da Cos­ta, como “o pri­mei­ro gran­de nome do Cine­ma Novo”. O seu exí­mio jogo dra­má­ti­co converte‑a num dis­po­si­ti­vo de visão, dis­po­si­ti­vo de visão que tor­na visí­vel e sen­sí­vel o teci­do quo­ti­di­a­no do Por­tu­gal fas­cis­ta e colo­ni­al da pri­mei­ra meta­de da déca­da de ses­sen­ta. Inter­pre­tan­do uma “sopei­ri­nha”, Ilda, vin­da do cam­po para a cida­de para “ser­vir” numa casa bur­gue­sa, a figu­ra de Isa­bel Ruth con­cen­tra, em si, a com­ple­xi­da­de da luta de clas­ses na soci­e­da­de por­tu­gue­sa em pro­ces­so de moder­ni­za­ção. A rela­ção “bran­da” com a patroa é para­dig­má­ti­ca, tal como o é a excel­sa sequên­cia em que Ilda pro­va os seus ves­ti­dos, pre­fi­gu­ran­do a repre­sen­ta­ção da ocu­pa­ção da casa senho­ri­al em Tor­re Bela (1977), de Tho­mas Har­lan, ou, ain­da, a cena em que os namo­ra­dos pas­sei­am pela Ala­me­da da Uni­ver­si­da­de. Nes­sas deam­bu­la­ções, das Ave­ni­das Novas à Mar­gem Sul, a per­so­na­gem de Ilda devém ple­na­men­te um dis­po­si­ti­vo de visão atra­vés do qual a soci­e­da­de por­tu­gue­sa e os seus espec­tros espec­tro já da dita “Guer­ra Colo­ni­al”, pas­sí­vel de expli­car a rejei­ção do pedi­do de casa­men­to de Júlio emer­gem nos seus mean­dros. O por­te alti­vo, de bai­la­ri­na, a actu­a­ção aus­te­ra e a ges­tu­a­li­da­de gra­ci­o­sa de Isa­bel Ruth con­tras­tam, toda­via, com o hori­zon­te de expec­ta­ti­vas deli­ne­a­das em tor­no da per­so­na­gem de Ilda. A pers­pec­ti­va ide­o­ló­gi­ca do fil­me de Rocha vem colo­car-se pre­ci­sa­men­te nes­sa cesu­ra entre a con­tin­gên­cia e a pos­si­bi­li­da­de.

Uma história do cine­ma por­tu­guês pode­ria ser esta­be­le­ci­da uni­ca­men­te a par­tir da figu­ra de Isa­bel Ruth a tal pon­to a actriz lhe é con­subs­tan­ci­al. Da obra com que se inau­gu­ra o Cine­ma Novo e de Domin­go à Tar­de (1966), de Antó­nio de Mace­do, a fil­mes recen­tes, como O Sapo e a Rapa­ri­ga (2018), de Inês Oli­vei­ra, e Sun­day (2018), de Hans­pe­ter Ammann e Ricar­do Viei­ra Lis­boa, pas­san­do por Mudar de Vida (1966), de Rocha, O Bobo (1987), de José Álva­ro Morais, Xavi­er(1992), de Manu­el Mozos, ou Ossos (1997), de Pedro Cos­ta, men­ci­o­nan­do ape­nas um peque­no núme­ro de exem­plos, a figu­ra de Isa­bel Ruth atra­ves­sa a his­tó­ria do cine­ma por­tu­guês, con­ver­ten­do-se num indi­ca­dor sen­sí­vel não só da evo­lu­ção das suas for­mas nar­ra­ti­vas, esté­ti­cas e dra­ma­túr­gi­cas, mas tam­bém das trans­for­ma­ções polí­ti­cas e soci­ais de todo um país. Qual Medu­sa, Isa­bel Ruth medi­a­ti­za o acto e a facul­da­de de ver, o olhar que vem pou­sar-se sobre a soci­e­da­de e os objec­tos do mun­do para fixá-los e pen­sá-los. Nes­ta medi­da, a pre­sen­ça da actriz, de fil­me a fil­me, é elo­quen­te com res­pei­to à fun­ção dupla­men­te per­cep­ti­va e cog­ni­ti­va do cine­ma.

A figu­ra de Isa­bel Ruth trans­cen­de a história do cine­ma por­tu­guês. Em 1967, duran­te um perío­do em que vive em Itá­lia, a actriz actua em Edi­po re, de P. P. Paso­li­ni. Mais tar­de, cola­bo­ra­rá com Jean-Clau­de Biet­te e Raúl Ruiz, entre outros cine­as­tas estran­gei­ros. Des­de Os Ver­des Anos e ao lon­go da sua car­rei­ra cine­ma­to­grá­fi­ca, como que para refor­çar a sofis­ti­ca­ção do jogo dra­má­ti­co, a actriz inter­pre­ta fun­da­men­tal­men­te per­so­na­gens das clas­ses tra­ba­lha­do­ras. Pre­sen­ça recor­ren­te nos fil­mes de Mano­el de Oli­vei­ra, Isa­bel Ruth encar­na a per­so­na­gem de Riti­nha, a lava­dei­ra sur­da-muda de Vale Abraão (1993). Riti­nha segue Ema (Leo­nor Sil­vei­ra) no cur­so da sua vida, como que cor­po­ri­fi­can­do o pró­prio Dou­ro e dotando‑o de pro­pri­e­da­des sen­so­ri­ais. No fil­me de Oli­vei­ra, uma vez mais, o cor­po-dis­po­si­ti­vo de visão da per­so­na­gem inter­pre­ta­da por Isa­bel Ruth faz sen­sí­vel a gran­de­za e a deca­dên­cia dos lati­fun­diá­ri­os duri­en­ses e a luta de clas­ses que ganha rele­vo depois da Revo­lu­ção. Pre­sen­ça silen­ci­o­sa e inten­sa, Riti­nha, a quem são atri­buí­dos pode­res de fei­ti­ça­ria, desem­pe­nha um papel cen­tral no fil­me de Oli­vei­ra, levan­do o cine­as­ta a dar-lhe uma lon­ge­vi­da­de que lhe é nega­da no roman­ce de Agus­ti­na Bes­sa-Luís. Entre outros aspec­tos, Ema é con­fun­di­da com Riti­nha uma vez e imi­ta-lhe os ges­tos quan­do lava o chão da Quin­ta do Vesú­vio. Esta deter­mi­na­ção recí­pro­ca, ins­tau­ran­do um qua­dro de tro­ca e inter­mu­ta­bi­li­da­de, evo­ca a sequên­cia da pro­va dos ves­ti­dos dos Ver­des Anos e pode­ria cons­ti­tuir uma linha de lei­tu­ra de cer­tas dinâ­mi­cas ide­o­ló­gi­cas do cine­ma por­tu­guês, da rela­ção de clas­ses dos Bran­dos Cos­tu­mes (1972–1974), de Alber­to Sei­xas San­tos, à sequên­cia muse­o­ló­gi­ca de Juven­tu­de em Mar­cha (2008), de Pedro Cos­ta. Ao inter­pre­tar Ilda ou Riti­nha, Isa­bel Ruth afir­ma o jogo dra­má­ti­co como nega­ção da figu­ra do actor em pro­vei­to da per­so­na­gem.

Figu­ra incon­tornável do cine­ma por­tu­guês, Isa­bel Ruth encar­na o acto ou a facul­da­de de ver e dá um olhar espe­cu­lar e auto-refle­xi­vo ao cine­ma por­tu­guês. As múl­ti­plas per­so­na­gens que atra­ves­sam e são cons­ti­tu­ti­vas da his­tó­ria do cine­ma por­tu­guês devol­vem-nos a tes­si­tu­ra das suas for­mas nar­ra­ti­vas, esté­ti­cas e dra­ma­túr­gi­cas. Isa­bel Ruth con­tri­buiu deci­si­va­men­te não só para cri­ar um cor­po de cine­ma, como tam­bém para afir­mar as potên­ci­as do cor­po no cine­ma.

Tex­to de Raquel Sche­fer

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                       

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